Análise Arkade: Boiling Bolt é o bom e velho jogo de navinha repaginado

11 de dezembro de 2017
Autor: Paulo Roberto Montanaro

Análise Arkade: Boiling Bolt é o bom e velho jogo de navinha repaginado

Na época do lançamento do Playstation 4, até pelos poucos lançamentos de alto investimento, foi dado muito destaque ao exclusivo Resogun. Hoje meio que esquecido, o game pretendia ser um ponto de equilíbrio entre a tecnologia de última geração e a tradição de shooters de movimentação em duas dimensões com espaçonaves. Em palavras mais diretas, era o bom e velho jogo de navinha com uma roupagem nova, em um ambiente psicodélico e movimentos em uma arena circular 3D.

De lá pra cá, alguns anos se passaram e o game, ainda que muito bem recebido pela crítica, não é exatamente um clássico da geração. Eis que no final de 2017 recebemos Boiling Bolt, da Persistant Studios, jogo que consegue buscar ótimas ideias de inspiração em Resogun, mas com uma personalidade composta por tantos outras produções de outros tempos, funcionando como um ótimo twin-stick shooter de movimentação lateral e com potencial para renovar esse estilo.

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Salvando o mundo (de novo)

Estamos em um mundo pós-invasão. Ainda que não seja exatamente uma ambientação pós-apocalíptica, o planeta é absolutamente outro, com ilhas flutuantes, naves de combate e cristais espalhados por todos os lados. Lá se vão aproximadamente mil anos e um novo ataque é lançado. Agora cabe a novos heróis evitar o pior. O jogador assume então o papel de June, e deverá comandar uma pequena, mas poderosa nave dotada de armamentos pesados e movimentos especiais.

Com uma narrativa simples contada por meio de composições estáticas de belas ilustrações no melhor estilo mangá, a história do jogo não chega a ser lá grandiosa. Na verdade, seu intuito é muito mais uma ambientação para humanizar a jornada e fomentar uma identificação com a protagonista, que passa pelo seu próprio amadurecimento. Ainda assim, no final, isso acaba sendo um complemento ao jogo, que agrega um mínimo de carisma ao pacote.

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Atirando para todos os lados

Quem já viu qualquer jogo semelhante não terá nenhuma dificuldade em entender a composição do jogo e sua mecânica básica. Com uma nave, há um campo de ação onde se pode movimentar livremente. Inimigos podem (e vão) vir de todos os lados e a progressão lateral é a regra básica, ainda que haja momentos de exceção. A vantagem do sistema de twin-stick é a possibilidade de se movimentar e atirar de forma independente. Ou seja, é possível atirar para um lado e se movimentar para outro.

Essa mecânica simples é bastante prática e, ao mesmo tempo, libera outros comandos para ataques e movimentos especiais. Desde sempre as 4 armas secundárias estão equipadas, mas só se pode usar uma de cada vez, com período de cooldown. Portanto, para usar outra, é preciso acioná-la antes. É algo simples, mas em meio a um combate frenético, pode ser complicadíssimo e, portanto, para cada situação, é melhor estar planejado.

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Além dos ataques, é possível usar movimentos de dash e até câmera lenta para evitar a chuva de tiros dos inimigos. Funções muito interessantes e, quando dominadas, fundamentais para se avançar. Esse domínio, contudo, não virá sem uma alta dose de fracassos. Este é o tipo do jogo que nos faz repetir várias e várias vezes os primeiros níveis, primeiro porque não há moleza e há pouco espaço para o erro. Segundo que jogar mais dará a chance de adquirir habilidades passivas mais vantajosas.

Assim, os famosos power-ups não são elementos que ficam surgindo na tela com duração ou quantidades limitadas. São funções que podem ser compradas com as recompensas do game para a próxima partida, mas uma vez equipadas, são permanentes. Somente quando o jogo começar de novo é que se pode trocar essas habilidades, que favorecem principalmente ataque, defesa e velocidade. Assim, o jogador pode melhorar sua nave de acordo com o seu estilo. Tudo bem simples e funcional.

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Desse modo, Boiling Bolt é um jogo desafiador, mas justo. Há aqueles momentos irritantes com chuva de tiros tomando a tela toda, mas na maioria do tempo os inimigos surgem em ondas e cada qual, como é tradição, tem seus movimentos bem estabelecidos e previsíveis. A aprendizagem é, quase sempre, a partir da experiência empírica da tentativa e do erro. Sendo mais direto, a maior parte do desafio é aprender padrões e saber lidar com eles.

Visual entre o clássico e o moderno

Olhando para as imagens que ilustram esse texto, certamente você deverá se lembrar de outros bons exemplos de jogos similares. Essa sensação não é só uma impressão, já que tudo, de fato, é muito familiar. Mas nem por isso Boiling Bolt é só um mais do mesmo. De Resogun, como citado no começo desse texto, há uma composição circular da espacialidade em algumas fases. De Gradius, há o movimento contínuo para frente. E há algumas variações entre uma coisa e outra ao longo dos poucos, mas longos níveis.

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Assim, a ambientação 3D compõe bem com uma jogabilidade 2D, resultando em algo que nos acostumamos a chamar de 2.5D. Seja como for, é um resultado bem agradável aos olhos, com um conjunto ora limpo e bem mapeado, ora mais poluído e cheio de detalhes, resultando em uma ambientação bastante diversa e, por isso mesmo, pouco enjoativa. A nave principal e os diversos inimigos, até pela própria distância do ponto de vista, não são lotados de detalhes, mas funcionam bem.

Como saldo desse trabalho artístico, é praticamente impossível se confundir os tipos de inimigos e, como acontece em alguns outros games, confundir a própria nave com os demais elementos em tela. Mesmo com uma confusão e um caos, tudo está bastante evidente em um ótimo trabalho de construção do espaço diegético. O mesmo pode ser dito dos efeitos sonoros que são muito bem estruturados e mixados resultando em uma composição harmônica e, ao mesmo tempo, empolgante.

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A movimentação de câmera presente principalmente nas batalhas contra os chefes adicionam dramaticidade aos combates e valoriza o design e a direção de arte do game sem perder a dinâmica das animações e do movimento. Além disso, também acrescenta algo que quebra o conforto e desconstrói o costume com o enquadramento. É bem utilizado sem exageros e funciona muito bem dentro da dinâmica das fases, ainda que exija uma rápida adaptação de movimentação em perspectiva as vezes.

Conclusão

Boiling Bolt é um ótimo shooter, unindo mecânicas e visuais clássicos a algumas inovações cênicas. Não há dúvidas que lembra bastante outros jogos de navinha, inclusive alguns mais recentes, e aposta no seguro para criar algumas nuances. É desafiador — e isso já pode ser sentido logo na primeira fase — mas em momento algum causa aquela sensação de ser impossível ou de estar muito além das capacidades do jogador. Ao contrário, sempre encoraja a tentar de novo.

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O sistema de customização da nave permite que cada tentativa tenha sua novidade para que o jogador encontre a melhor estratégia para si e, para completar, possibilita jogar com mais alguém offline, aumentando a diversão — ou a discussão, dependendo do quanto se leva a sério a jogatina. Afinal, jogando com outra pessoa, se depende muito do outro para ir adiante ou até para conquistar um pouco mais de pontos para se entrar no ranking online.

Boiling Bolt está disponível para PC, Playstation 4, XBox One e Nintendo Switch com textos em inglês.

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