Análise Arkade: Demon’s Crystals é tiro pra todo lado!

19 de maio de 2017
Autor: Paulo Roberto Montanaro

Análise Arkade: Demon's Crystals é tiro pra todo lado!

Não faz muito tempo, jogos de tiro com visão superior – tais como os tradicionais jogos de navinha da era dos 16 bits ou mesmo as fases de voo do saudoso Robocop 3 do Master System – eram bastante comuns e bem populares. O desafio era não somente eliminar as centenas de inimigos coreografados antes de ser atingido, como também conseguir ver a si mesmo no meio de uma verdadeira tempestade de tiros e projéteis na tela, seja disparados pelos adversários ou por nós mesmos.

Com o tempo, esse formato foi sumindo do cenário macroscópico do mercado dos games, dando lugar a outros gêneros e sub-gêneros, enquanto se mantinha vivo com iniciativas de menor investimento e, mais tarde, pelo sistema independente de produção. Passou por transformações, adaptações e evoluções e até ganhou um termo só para determiná-lo dentro de um sub-gênero da ação e dos jogos de tiro em terceira pessoa. Tornou-se um hell shooter, ou, em uma tradução mais malandra, “tiroteio doido dos infernos“.

Análise Arkade: Demon's Crystals é tiro pra todo lado!

Feita essa introdução, falemos finalmente do nosso objeto principal desta análise: Demon’s Crystals é, nesse caso, um hell shooter com visão isométrica com um estilo visual e de movimentação que lembra, em alguns momentos, jogos como Bastion, mas que em essência, na ‘hora da verdade’, é um daqueles jogos onde o importante é atirar em tudo o que estiver se mexendo na tela e (tentar) se encontrar no meio da bagunça para não levar algum tiro hostil. Tão simples quanto divertido.

A história está ali para quem quiser

Dentro de sua proposta, o jogo tem um background narrativo interessante. Há uma linhagem de quatro demônios que se alimentam de cristais e são, dentro da normalidade, soberanos e senhores de seu mundo, até que três criaturas surgem para quebrar com o status quo, roubar os tais cristais e retirar o poder consolidado. Resta ao jogador assumir o papel de um dessas quatro entidades denominadas Urican para passar por hordas infinitas de inimigos e, enfim, vencer seus algozes para enfim recuperar seu poder.

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A questão, de fato, é que… bem, isso pouco importa. A não ser que o jogador seja aficionado por saber detalhes das motivações dos personagens, a verdade é que o jogo traz consigo aquele bom e velho espírito de que a história sendo contada é somente um bom pretexto para uma sequência de fases e desafios com aumento progressivo das habilidades e das dificuldades a cada nova área. Não que a narrativa seja descartável ou algo assim, longe disso. Mas em Demon’s Crystals, ela cumpre o seu objetivo sem precisar ficar se justificando o tempo todo.

Desta forma, uma rápida e direta cartela textual no começo do modo campanha (a da imagem abaixo) é o suficiente para dizer o que está acontecendo, quem é mocinho, quem é vilão, quem pegou o que de quem e quem está atrás de recuperar o que foi perdido. E se você quiser, nem precisa ler porque dá pra pular essa tela sem dó. Em outras palavras, quem quiser saber motivações, terá onde encontrá-las. Quem não quiser, é só pular essa introdução e sair atirando no que aparecer.

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Atire a vontade!

Em termos de jogabilidade, Demon’s Crystals simplifica muito a vida do jogador. Basicamente, tirando o acesso a menus, o jogo se resume nos consoles em usar os dois direcionais analógicos e, bem… é só. O direcional da esquerda controla o personagem por um cenário 3D isométrico, centrado em arenas de combate e, portanto, fechado em si. O segundo é, ao mesmo tempo, para acionar os tiros e a direção para onde se mira. Nada de outros botões, gatilhos nem nada disso. Ande e atire, atire e ande, fique parado um pouquinho, mas continue atirando…

Isso não significa, obviamente, que seja um sistema simplório demais. Graças a uma infinidade de power-ups que modificam a arma e as habilidades do personagem o tempo todo, o game se mostra bastante dinâmico, mas com uma dose de aleatoriedade, já que muitas vezes encontrar uma boa melhoria é a diferença entre a vitória ou a derrota. Isso porque diferente de outros jogos do estilo onde as habilidades são cumulativas ou só se perdem quando se toma dano, aqui elas são temporárias, mais ou menos como na franquia Metal Slug.

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Isso significa que a cada nova modificação de arma coletada – tiro para todas as direções, em ondas, com mísseis, congelantes, etc., há um tempo para que sua munição seja utilizada daquela maneira e precisa ser aproveitada da melhor forma possível. O mesmo funciona para habilidades especiais do personagem, como ficar gigante, andar mais rápido ou soltar bombas por onde passa. Os dados de duração de habilidade ou modificação, bem como outras, ficam até disponíveis no HUD, mas dá tempo de correr o olho nelas? Nem pensar.

Esses elementos aparecem com bastante constância e uma certa abundância de forma aleatória pela arena, o que é bom porque tudo muda o tempo todo, e ruim ao mesmo tempo, já que é praticamente impossível decidir ficar mais parado para enfrentar as hordas, sob o risco de não conseguir coletar tais melhorias. O jogo, deste modo, força uma dinâmica mais acelerada para se usar toda a extensão da arena e, fatalmente, cair em alguma das armadilhas espalhadas que, fatalmente, ficarão escondidas debaixo de tantos tiros na tela. Confira abaixo nosso gameplay de uma fase completa:

Jogar sozinho ou com os amigos? Melhor ambos

Cada vez mais raro nos dias atuais, o bom e velho multiplayer local é uma das estrelas do jogo. Se a tela fica cheia jogando sozinho, seja no modo Campanha, seja enfrentando hordas seguidas no Survival, imagine compartilhando a jogatina com mais um, dois ou até três amigos no sofá! Não raro você acaba acompanhando o personagem do amiguinho com os olhos até perceber que ele está indo pro lado contrário do que você está comandando.

Então o tempo de vida do jogo depende bastante da disposição (e disponibilidade) do jogador em se divertir sozinho, buscando passar de fase ou fazer uma pontuação melhor para entrar no ranking – olha eu ali em dois dos três rankings mundiais na figura abaixo – e de compartilhar a experiência com outras pessoas, seja competitivamente, seja cooperativamente, algo que torna tudo mais divertido e completa a bagunça toda.

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Audiovisual

Em um primeiro momento, confesso que o jogo não chegou a chamar a atenção no aspecto visual ou sonoro. Afinal, parecia com tantos outros jogos com personagens modelados a partir de traços de animações japonesas em computação gráfica e em um estilo mais fofinho. Um estilo artístico seguro, mas que de criativo não tem lá muita coisa. O charme do jogo está na ambientação e em como fazer tudo funcionar em conjunto.

Os personagens principais também não se destacam em termos de originalidade. Há dois personagens masculinos e duas personagens femininas, todos os quatro bastante genéricos. Já os inimigos parecem ter saído de jogos como Plants vs Zombies e jogos com monstrinhos doces do tipo. Mesmo os chefões não são lá as coisas mais ameaçadoras do mundo em termos visuais. Mas a construção dos ambientes é tão bem realizada que enquanto conjunto, tudo é bastante agradável.

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Claro que nem sempre dá tempo de contemplar os detalhes das construções, as texturas do terreno ou os meandros da vegetação e das áreas abertas de locais como, por exemplo, o cemitério, a floresta ou o castelo. Afinal, tudo está o tempo todo coberto por inimigos, tiros ou as duas coisas ao mesmo tempo. O mesmo para a trilha musical que transmite um tom de heroísmo e é bastante empolgante e divertida, mas que sinceramente só pode ser apreciada de fato quando se grava em vídeo e se assiste depois, como nos videos de gameplay que capturamos e que ilustram esse post.

No geral, um jogo bastante agradável em termos audiovisuais, que não traz nenhuma grande inovação estética e aposta no correto, mas que acerta no tom dos personagens principais, nos inimigos e no ambiente, conseguindo uma ótima composição nos seus diferentes aspectos e, assim, cumpre seu papel de criar uma ambientação agradável para o jogador se focar em não morrer no meio da bagunça da tela.

Conclusão

Demon’s Crystals não é o jogo mais inovador deste ano. Em termos estéticos, ele se parece com muita coisa que já vimos e demora um pouco para o jogador sentir uma identidade audiovisual. Em termos de jogabilidade, ele se aproveita da tradição e do nicho que adora se enfiar em uma verdadeira loucura de tiros, inimigos e armadilhas e que tentam encontrar lógica e ordem em ambientes caóticos. Mesmo narrativamente, o game faz o básico para dar um contexto para as ações e personagens, sem se prender muito a isso.

Por tudo isso, e até pelo nível de dificuldade que aumenta consideravelmente durante a jornada, mas que não chega a ser frustrante ou mesmo decepcionante, o jogo é um bom divertimento, com momentos bem instigantes e outros que dão uma impressão de esgotamento da fórmula rápido demais. É um desafio interessante, principalmente se compartilhado com mais pessoas, e uma forma descompromissada de ficar se desafiando o tempo todo a melhorar o desempenho, mesmo em fases já vencidas. Se vale a pena, depende do espírito do jogador.

Análise Arkade: Demon's Crystals é tiro pra todo lado!

Demon’s Crystals propõe uma experiência divertida, descompromissada e que rende homenagens a um gênero consagrado e que, direta ou indiretamente, tem uma relação muito estreita com a própria temática de demônios contra criaturas infernais. Afinal, nada mais apropriado para um hell shooter por excelência. O jogo já está disponível para XBox One, PC e Playstation 4.

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