Análise Arkade: GUTS, um fighting game brasileiro com desmembramentos e limitações

20 de novembro de 2017
Autor: Carlo Henrique

Análise Arkade: GUTS, um fighting game brasileiro com desmembramentos e limitações

Chroma Squad e Horizon Chase são tidos por muitos como alguns dos melhores jogos brasileiros já produzidos — se bem que dizem que Mineirinho Ultra Adventures é até melhor que os dois, ainda que alguns lunáticos insistam em dizer que ele não é tão bom assim — mas ambos se apoiam no conceito de serem essencialmente homenagens a produtos clássicos de sucesso. O recente GUTS não tem esse ponto fraco, mas acima de tudo falta o cuidado que os dois jogos mencionados receberam para que pudesse se tornar uma experiência realmente memorável.

Bem-vindo ao GUTS

Desenvolvido pela produtora indie brasileira Flux Game Studio e lançado no dia 15 de novembro para PC, com futuras versões também para PS4 e Xbox One, GUTS — sigla para Gory Ultimate Tournament Show — é um jogo de luta apresentado como um bizarro reality show futurista, em que os competidores entram em batalhas de vida ou morte em busca de fama e fortuna. Para vencer a disputa, é preciso decepar os braços e pernas do oponente, e então dar o golpe final para vencer.

O maior atrativo do game é a violência exagerada, com muito sangue espirrando pela tela e personagens que podem continuar lutando (na medida do possível) mesmo sem braços e pernas. O trailer abaixo dá uma prévia do que se pode esperar do game:

Gameplay

O básico do gameplay segue um esquema semelhante à série Tekken, com dois botões de soco e dois de chute, sendo que cada botão se responsabiliza pelos braços e pernas direito e esquerdo. Não temos barra de energia em GUTS, então a utilidade desses golpes comuns é basicamente encher a barra de GUTS e “manter o oponente sob controle”, relativamente falando.

Quando você enche o medidor de GUTS, pode aplicar os golpes especiais que decepam as partes do corpo do inimigo. Cada lutador possui seus próprios movimentos, mas muitos deles são fáceis de se esquivar. Também é possível atirar partes do corpo decepadas ou mesmo pessoas da platéia, algo muito eficaz na luta contra o computador, ainda que seja estranho vermos um simples bracinho fazer o inimigo voar longe e ainda arrancar-lhe uma perna quando o atinge. Também é possível jogar o adversário nas armadilhas das arenas: há serras, moedores de carne, carros em alta velocidade e muito mais. A interação com o cenário no geral é muito boa.

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Além de tudo isso, também existem os U-points, essencialmente uma “moeda” que se usa para comprar movimentos também especiais, sendo que a melhor utilidade deles é recolocar partes do corpo do seu lutador nos devidos lugares. Carregar a barra de GUTS ao máximo instantaneamente, bloquear movimentos de GUTS, o movimento que arremessa coisas nos adversários, tudo isso é “pago” com U-points.

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Cada personagem começa a luta com um número X de U-points, e ganha mais a medida que vai perdendo membros do corpo. É importante ressaltar também que não são todos os membros decepados que podem ser curados ou usados como armas, apenas os que tem uma seta em cima. As lutas em geral são muito boas, e a movimentação é criativa e muito bem feita. Os golpes são muito bem animados e a reação de quem sofre o golpe também é bacana, até mesmo a rotação corporal do lutador quando o oponente se desloca rapidamente em relação a ele é condizendo com o ritmo do restante da luta.

No entanto, o gameplay é prejudicado pelo fato de as lutas serem muito formulísticas: simplesmente tente executar ataques simples para encher sua barra de GUTS e executar o ataque que desmembra seu inimigo. Não existem combos muito elaborados, nem táticas de esquiva ou agarrões mais elaborados. O fato de existir um movimento GUTS pra cada parte do corpo ajuda a diversificar, mas o que realmente importa neles é o alcance do ataque e não tanto com que parte do corpo ele é realizado.

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No fim da luta, vemos um interessante recurso de Timeline, que mostra o que aconteceu de mais importante durante a luta para ajudar o jogador a se planejar melhor para a revanche, em caso de derrota. É um recurso interessante, mas que pode ser totalmente ignorado caso o jogador queira simplesmente sair lutando “na louca”, sem muita estratégia… o que muitas vezes acaba sendo mais efetivo do que uma bordagem mais planejada.

História e personagens malucos

Os personagens são bons, o visual deles lembra os guitarristas fictícios da série Guitar Hero ou mesmo os pilotos de Rock N’ Roll Racing: a personagem Miranda é uma referência à Fat Princess e sua violência também exagerada. A trilha sonora totalmente roqueira fortalece as possíveis inspirações.

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Dentre os personagens, Anita é uma das que se destaca, sendo uma robô brasileira que tem ataques com nomes pitorescos como Beijinho no Ombro, Bebeto, Picadinho e Bala Perdida. Em um dos seus GUTS ela se curva e dá um choque elétrico, referência clara a outro lutador brasileiro bem famoso do mundo dos games, nosso querido Blanka.

No Modo História, cada personagem tem motivação e objetivo próprios para participar do torneio: Anita se finge de heroína humana, mas na verdade quer subjugar o mundo. Father Maromba é um sacerdote fisiculturista que quer eliminar o sedentarismo e propagar o exercício físico. DB Judge, o tagarela travesti apresentador do torneio, é o atual campeão do GUTS, e quer desafiar os outros lutadores a tirá-lo do trono.

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As histórias são bastante simples, mas no geral oferecem um mínimo de pano de fundo para cada personagem, o que não deixa de ser um ponto positivo.

Modos de jogo

GUTS pode ser jogado pelo teclado, em um configuração de botões um tanto bizarra para navegação por menus, que ignora o mouse e deixa tudo apenas no teclado, com o botão de Avançar sendo o G e o de cancelamento o H. Felizmente, o game é totalmente compatível com controles, algo que é altamente recomendável e torna o gameplay como um todo bem mais aprazível.

Além do já mencionado Modo História, também temos um modo Solo Show, que é basicamente uma luta single player única contra o computador, e o modo Aquecimento onde se pode escolher dentre o tutorial comum, o avançado e o treino livre.

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Também há o multiplayer local, no qual o botão Spin-Offs Guts oferece dois modos extras que são compráveis com os pontos das conquistas: são esses o 1-Golpe e o Caos Total. O primeiro é um modo em que qualquer golpe normal já decepa um membro, no segundo os dois lutadores tem poder máximo. Os dois modos do Spin-Offs somente podem ser acessados nas partidas multiplayer e não se aplicam aos outros modos de jogo. O jogo também possui a opção Como Jogar, um resumão do tutorial que é muito útil, principalmente para lembrar das combinações de botões.

No período em que estivemos com o game, não foi possível testar o modo online, simplesmente porque não encontramos ninguém disponível no pareamento de jogadores, algo que (esperamos) deve melhorar nas próximas semanas. Existe também a possibilidade de desafiar um amigo, mas a jogatina online ainda está meio capenga, pois os botões Profile e Rankeado ainda não podem ser acessados, e o próprio jogo avisa que o modo online ainda está sendo aperfeiçoado.

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Dito isso, é importante ressaltar que há poucos modos de luta no game. O jogo deveria pelo menos ter um modo torneio mais tradicional, e também opções que só ele poderia oferecer, como por exemplo um modo Missões onde se deve vencer sem perder tanto sangue, sem perder nenhum membro, somente usando GUTS, algo do tipo.

Outro problema encontrado foi na mudança de controles: durante a avaliação, os botões dos golpes foram mudados. O jogo fez um bom trabalho em alterar nas mensagens qual botão deve ser apertado para o quê, com uma pequena exceção. Quando se faz um GUTS, se pode escolher por um curto período de tempo qual membro deve ser decepado apertando no botão correspondente. Porém, esse botão não atualizou. Ao invés de ter que apertar o novo botão pra arrancar o um braço, por exemplo, ainda é preciso apertar o botão padrão. Um bug pequeno, mas bem estranho.

Conclusão

GUTS é um jogo de luta divertido mas um tanto limitado, com poucos modos de jogo e lutas que acabam se tornando um pouco repetitivas simplesmente pelo foco do jogo estar nos desmembramentos. Suas mecânicas são simples, mas funcionais, mas acompanhar os tutoriais é importante, e há uma curva de aprendizado que deve ser respeitada.

Análise Arkade: GUTS, um fighting game brasileiro com desmembramentos e limitações

Considerando que este é um jogo brasileiro, acreditamos que os os desenvolvedores devem estar acompanhando o feedback da mídia e dos fãs, então, pessoal do Flux Game Studio, se estiverem lendo isso, fiquem atentos aos pontos que levantamos.

Não é uma questão de concordar com a nossa opinião, mas de constatar que alguns elementos do jogo podem ser melhorados ou consertados, e este feedback é especialmente válido para fortalecermos a indústria nacional, algo que não temos a chance de fazer com jogos gringos. GUTS faz bem o que estabeleceu como prioridade, mas parece um tanto cego em relação a seus problemas e limitações.

Análise Arkade: GUTS, um fighting game brasileiro com desmembramentos e limitações

Os produtores não precisam se preocupar, pois entregaram um jogo divertido que está em algum lugar entre o “decente” e o “bom”, mas que tinha potencial para estar acima disso, algo que não consegue por conta de suas limitações. É com bons jogos que o resto do mundo voltará seus olhos para o mercado de games brasileiros, e é bom ver que os estúdios estão se esforçando. GUTS é um jogo de luta único e diferente, mas que carecia de algum polimento para realmente se destacar.

GUTS foi lançado em 15 de novembro. O game possui a maioria de suas vozes em inglês, mas seus menus e legendas estão totalmente em português brasileiro.

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