Análise Arkade: Maldita Castilla EX é uma carta de amor ao clássico Ghosts ‘n Goblins

2 de dezembro de 2017
Autor: Paulo Roberto Montanaro

Análise Arkade: Maldita Castilla EX é uma carta de amor ao clássico Ghosts 'n Goblins

Já se vão longos anos desde que Sir Arthur protagonizou um dos marcos da história dos videogames, o dificílimo Ghosts’n Goblins da Capcom, e mesmo depois de muito tempo sua parcela nessa indústria ainda é reconhecida, haja visto não só a presença do personagem em jogos como Marvel Vs. Capcom, mas também por ser uma referência importante para novos desenvolvedores. É nessa linha de inspiração máxima que Maldita Castilla EX (ou Cursed Castilla EX) encontra seu maior trunfo.

Desenvolvida pela espanhola Locomalito, a proposta de Maldita Castilla EX é se manter fiel a um traço característico dos jogos de ação em plataforma 2D dos arcades das décadas de 1980 e 1990. A inspiração no clássico é evidente, a começar pela ambientação, pelo perfil do herói e até mesmo pelo level design, mas é interessante que, ao mesmo tempo, o jogo consegue incorporar os elementos míticos e históricos da Espanha com autoridade. Se os primeiros minutos podem parecer uma skin de um jogo conhecido, os seguintes provam que o game é muito mais que isso.

Análise Arkade: Maldita Castilla EX é uma carta de amor ao clássico Ghosts 'n Goblins

 Uma jornada de herói

Em meio a um reino infestado por monstros, demônios e outras criaturas, cabe a Don Ramiro e seus companheiros, sob ordens diretas do Rei Alfonso VI, embarcar em uma jornada heroica e restaurar a paz no reino. Assim, de posse de sua poderosa armadura e de sua espada, ele parte para Tolomera onde deverá superar muitos desafios, dentre eles muitos advindos diretamente da mitologia catalã, o que não deixa de ser muito interessante para os mais aficionados em conhecer mais sobre os inimigos que encontra pelo meio do caminho.

Se não é exatamente uma história inovadora, ela é suficiente para dar um background para aventura, recheada de nostalgia e de elementos que se consagraram nas geração 8 e 16 bits. Os mínimos detalhes são reconstruídos e os mais desatentos tenderão a acreditar que é um relançamento, uma ROM emulada nos consoles da nova geração. Na verdade, é quase isso. Não é um jogo desenvolvido para uma estética pixel art, mas sim a partir das mesmas tecnologias dos clássicos da época dos velhos fliperamas, do Mega Drive e Super Nintendo.

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Nesse sentido, o formato de tela pode até incomodar. Mesmo no PS Vita (versão utilizada para essa análise), o jogo se apropria da janela enquadrada (o bom e velho fomato letterbox) para reforçar essa percepção de jogo antigo. Mas com o avançar da jornada, logo se está acostumado, visto que tudo está adequado a esse formato de tela. Os inimigos estão cirurgicamente distribuídos na tela e as surpresas e obstáculos funcionam bem. Tudo parece meticulosamente planejado, se mostrando uma ótima aula de level design.

Mais do que “pular e atirar”

É comum, em produções desse tipo, o reducionismo da jogabilidade no estilo Megaman, com uma mistura entre as ações de pular e atirar. Os melhores games conseguem se apropriar de duas ações simples e transformar em algo a mais. Felizmente, Maldita Castilla EX é um desses casos. Além da tradicional espada que pode ser arremessada contra inimigos, é possível equipar diferentes armas, como machados, bombas ou boleadeiras, cada qual com raio de ação e dano diferentes, mudando completamente a estratégia de combate.

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Além disso, há outras habilidades que, ao longo da jornada, podem ser adquiridos depois das batalhas contra os chefes, que vão desde um tipo de fada auxiliar até o famigerado pulo duplo. Tudo para dar suporte ao jogador para que ele consiga superar uma dificuldade elevada dentro de uma curva de aprendizagem acentuada. Em outras palavras, em poucas fases os inimigos se tornam mais difíceis, o ambiente mais inóspito e os bosses são daqueles que irritam até o mais calmo dos cavaleiros.

Não, não é daqueles jogos frustrantes que acabam punindo o jogador mesmo depois de ele ter aprendido a dinâmica daquela região. Ao contrário, chegar no chefe é um desafio grande e, ao conseguir, significa que, de fato, se tem competência para estar lá. Cada erro, cada morte são culpa do jogador — e ele sabe disso. Tudo graças a uma jogabilidade bastante precisa e bem balanceada, com respostas rápidas do controle. Há um elemento aleatório aqui e outro ali, mas a base é empírica: aprenda padrões com o erro e acerte na próxima.

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Felizmente, o jogo é generoso e não tem aquela característica de te levar ao início do mundo ao perder todas as vidas e pegar um continue. Mesmo que se morra todas as vidas só nas lutas contra o chefe, ao pegar uma continuação o jogador volta a esse ponto. Mas nem por isso a coisa fica mais fácil, já que as vidas são limitadas e há pouco espaço para erro. A vantagem mesmo é a sensação de não estar perdendo tempo passando uma fase – ou um trecho dela – várias vezes. Cada avanço é significativo.

16 bits raiz

É bastante comum encontrar jogos dentro da lógica indie que se utilizem da estética do pixel art, uma espécie de reverência aos jogos clássicos utilizando tecnologias atuais. Não é esse o caso de Maldita Castilla EX. Aqui, o jogo é, de fato, um game dos anos 1980 produzido nos dias atuais. Nas imagens que ilustram esse post fica claro que a janela de ação é bem definida e enquadrada, os cenários são limitados, os padrões e texturas bem estabelecidos e o sistema de cores parece ter saído diretamente das gerações anteriores.

Análise Arkade: Maldita Castilla EX é uma carta de amor ao clássico Ghosts 'n Goblins

Reforça essa percepção a sonorização do jogo, sintetizado a partir das mesmas características antigas e, por isso mesmo, balanceada para essa experiência. Assim, é um som mais limpo, sem parecer um MP3 salvo em formato MID, como muitos games que se propõe a parecerem antigos. Ruídos e ambiência são igualmente ricos e minimalistas, completando a atmosfera quase purista. Aqui, vai depender do que o jogador espera para avaliar o quanto o saldo é positivo ou não.

Como um todo, é um game belíssimo, que respeita suas inspirações sem inventar muito. Os personagens tem carisma, os inimigos tem um design interessante e os cenários são muito bem estruturados, resultando em um desenho de fases instigante e coeso. Já os chefes são marcantes e a trilha musical também faz bonito dentro do paradigma escolhido. Mais do que uma emulação do pixel, o jogo parece extrair uma espécie de estética do analógico.

Conclusão

Maldita Castilla EX é uma grande homenagem ao clássico Ghosts’n Goblins e não há como questionar isso. Contudo, ele não se limita a isso e mostra muita personalidade a cada nova fase vencida, a cada nova morte dolorida quando só faltava um ataque para eliminar o chefe. É um jogo de duas décadas atrás feito no presente, com todas as limitações técnicas e todas as soluções criativas que tanto cativou alguns de nós, jogadores mais velhos.

Análise Arkade: Maldita Castilla EX é uma carta de amor ao clássico Ghosts 'n Goblins

Difícil como deveria ser, mas jamais punitivo ou frustrante, o game apresenta um nível de desafio elevado, mas divertido. É bonito, ainda que as vezes possa se sentir falta de ver aquilo tudo em tela cheia. E ainda encontra espaço para tratar de uma mitologia menos explorada em jogos com temática medieval, valorizando suas origens e apresentando ao mundo um outro olhar para a fantasia do velho continente.

Disponível para Playstation 4, Playstation 3, Playstation Vita, XBox One, Nintendo 3DS e PC, o game está todo em inglês, mas é daqueles jogos onde o verbo to be e o the book is on the table já garantem o entendimento básico dos eventos e vale bastante a pena tanto para jogadores mais nostálgicos como para aqueles que querem ter uma ideia do que era jogar games single player em fliperamas de boteco de bairro com o troco do pão.

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