RetroArkade – Alcançando os limites do primeiro Playstation em Vagrant Story

O fim de ciclo de um console é muito injusto: as atenções de todos estão em seus sucessores, e a partir dali, a tendência é de que games mais simples sejam lançados, não oferecendo a mesma qualidade de títulos consagrados lançados anos antes. Porém, é nesta época também que os desenvolvedores acabam alcançando os limites do sistema, podendo oferecer jogos que nunca seriam imaginados em seu lançamento.

Um exemplo gigantesco desta situação aconteceu com o primeiro Playstation. Lançado em 1994, contou com seu auge entre os anos de 1997 e 1998 com games como Resident Evil 2, Metal Gear Solid e Final Fantasy VII, mas chegando ao ano 2000, já observava a chegada do Playstation 2 e as grandes franquias fazendo as malas e se mudando para o 128-bit da Sony. Com isso, o console ficou reservado para títulos infantis e os games de esporte, como a série FIFA, que até 2004, continuou lançando jogos regularmente para o já veterano sistema.

Mas, nesta falta de atenção, a Square, já familiarizada e consagrada com o sistema que lhe deu um impulso ainda maior do que o status de grande que já tinha nos tempos de Nintendo, acabou por optar pelo 32-bit para lançar uma de suas obras de arte: Vagrant Story. Injustiçado pelo seu lançamento tardio, mas repleto de qualidades, pudemos conferir um game muito a frente de seu tempo, com a união de RPG e ação, além de imagens espetaculares, levando aos limites a caixinha branca que decorou a sala de muita gente entre os anos 90 e 2000.

Tudo o que a Squaresoft tinha de melhor

Vagrant Story trouxe praticamente tudo o que a Squaresoft já havia apresentado de melhor em sua época nos 32-bits. O gameplay, com combates livres pelo cenário, com movimentação dos personagens e escolha de alvos específicos, como cabeça ou pernas, para ganhar vantagem na luta, foi emprestado — e melhorado — de Parasite Eve; Os gráficos, são no melhor padrão Final Fantasy — especialmente o VIII — possível, enquanto o enredo, embora não tenha os mesmos tons dramáticos, é tão profundo como o que havíamos conferido em Xenogears, alguns anos antes.

Até a forma de abertura do jogo impressiona. De maneira semelhante ao que já havia acontecido em Metal Gear Solid, o vídeo de abertura se mistura com os créditos iniciais, ao mesmo tempo em que algum gameplay é oferecido ao jogador, até como forma de tutorial. Isso, hoje, é até considerado padrão, mas em 2000, eram pouquíssimos os jogos que contavam com este tipo de início, ainda mais em plena era de cenas em computação gráfica, que faziam com que os estúdios deixassem em segundo plano a utilização dos próprios gráficos para este fim.

E, falando em gráficos, o game contava com uma adição criativa e diferente: além do visual extravagante de praticamente todos os personagens principais, a utilização de balões de histórias em quadrinhos para as falas dos personagens deram um pouco mais de vida ao jogo, já que a tela ficava mais limpa, e aquelas barras “sérias demais” desapareceram quase que por completo, já que os combates, por ser mais dinâmicos, também não necessitavam de menus, como nos RPGs tradicionais.

O som era demais, e já mostrava a nova direção da Square para trilhas sonoras de seus jogos, como iríamos começar a perceber melhor a partir de Final Fantasy X e os outros games para Playstation 2. Os sons sintetizados, comuns nos jogos até aquela época, começaram a dar lugar para trilhas orquestradas e que dariam espaço para futuros games dublados. Vagrant Story ainda não conta com dublagens e fica meio “vazio” com os balõezinhos contendo as falas, mas já conta com uma questão sonora melhor trabalhada que seus antecessores “na firma” e mantém mais uma vez seu status de “laboratório” da Square para o que ela faria na geração seguinte.

O único “problema” encontrado aqui, está no gameplay. Sim, ele é muito bacana e é legal de se jogar até hoje, porém, para a época, era muito complexo. Começando pelas câmeras, que, como não contavam com a praticidade do analógico direito como temos hoje, acabavam atrapalhando, pela liberdade que oferecia ao jogador. Outro problema é que o jogo é inciado praticamente sem nenhum tutorial, e por se tratar de um gameplay diferente do usual da Square, havia uma enorme dificuldade inicial para aprender seus comandos, o que certamente afastou muita gente do game.

New Game +

Vagrant Story têm indícios de que deveria ter sido mais explorado pela Square. Seu mundo, Ivalice, é o mesmo mundo de Final Fantasy Tactics e Final Fantasy XII, o que significa que, ou estamos diante de um Final Fantasy que acabou ganhando novidades em gameplay que não justificavam o nome, ou que a Square planejava utilizar este mundo para lançar outros jogos.

Mas, após o lançamento do game e sua repercussão, nunca mais ouvimos falar de mais nada envolvendo o jogo, como uma sequência, ou mesmo remake, se for considerado os dias de hoje. Uma pena, pois temos aqui um jogo excelente, que pouca gente teve a chance de conhecê-lo e que merecia uma segunda oportunidade. Seu visual extravagante, trilha impecável e um gameplay que seria facilmente corrigido nos dias atuais, com certeza garantiria um excelente game no catálogo dos fãs de RPG hoje, seja nos consoles mais atuais, ou mesmo nos smartphones, ambiente que já conta em seus catálogos com diversos games da companhia.