RetroArkade: Cassiopéia, o primeiro longa de animação da história, comemora 20 anos

24 de abril de 2016
Autor: Junior Candido

RetroArkade: Cassiopéia, o primeiro longa de animação da história, comemora 20 anos

Sim, meus amigos. O Brasil, embora enfrente problemas como baixos investimentos, pouco incentivo e uma preferência injusta com as produções estrangeiras, sempre consegue colocar algum capítulo na rica história do cinema. Como no caso das animações, com Cassiopéia, o primeiro filme feito totalmente em computador da história.

Falar de Cassiopéia é falar da história do cinema como um todo. É falar de superação, de busca da excelência, da vontade de ir ao máximo de suas capacidades e produzir algo interessante e relevante. Na base do “contra tudo e contra todos”, a história do filme nos ensina a nunca desistir dos nossos sonhos, por mais difíceis que pareçam e por mais que tenham outras pessoas ou grupos com mais condições e recursos do que você.

O enredo focava no planeta Ateneia, que fica na constelação de Cassiopéia e sofre um ataque de invasores que querem sugar toda a energia do local. Quatro heróis que viajavam pela galáxia recebem um pedido desesperado de socorro e vão até o local combater os inimigos e fazer novos amigos.

Vamos fazer um filme apenas por computador?

RetroArkade: Cassiopéia, o primeiro longa de animação da história, comemora 20 anos

Com direção geral do animador Clóvis Vieira, três diretores de animação e mais onze animadores, em janeiro de 1992 se deu o início da produção de Cassiopéia. Os personagens e cenários ficaram definidos com o uso de figuras geométricas básicas. Esferas, cubos e cilindros, além de facilitar a renderização, ainda ofereceu um estilo de arte único para o longa. Estilo este que o deixou marcante até hoje, pois mesmo sem texturas, as cores foram bem encaixadas, dando um ar de exclusividade ao filme.

Os primeiros personagens foram produzidos em um 386 SX de 20Mhz, enquanto a produção em geral utilizou 17 máquinas 486 DX2-66 ligados em rede. Sim, aquele 486 empoeirado no sótão da sua casa era capaz de produzir uma animação de altíssimo nível. E se bem utilizado, é capaz de fazer algo bacana ainda nos dias de hoje, mesmo com o aumento da qualidade e opções para tal.

Para preparar as animações, o TOPAS Animator da Crystal Dynamics foi o software escolhido. O software, embora defasado, ainda dava conta do recado e contribuiu muito para a produção. Para se ter uma ideia, veja estas imagens, que não tem nada a ver com Cassiopéia e sua produção, mas que foram renderizadas a partir do TOPAS 5.1:

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RetroArkade: Cassiopéia, o primeiro longa de animação da história, comemora 20 anos

Em 1993, começaram os trabalhos de animação, que duraram dois anos, com a geração de imagens finalizada em agosto de 1995. Em dezembro de 1995, a trilha sonora ficou pronta e foi adicionada ao projeto, que contou com sua primeira cópia pronta em janeiro de 1996.

Custando “apenas” R$1.5 milhões, que mesmo para a época, é pouco (Missão Impossível, também de 1996, custou US$80 milhões, só para ver o “abismo”, que nem precisa de contas de conversão para perceber), o filme foi exibido pela primeira vez no dia primeiro de abril de 1996, para um público formado por imprensa e pesquisadores. Uma segunda sessão rolou no mesmo dia, para 700 convidados.

RetroArkade: Cassiopéia, o primeiro longa de animação da história, comemora 20 anos

No dia 11 de abril, 261 alunos das escolas públicas de Curitiba também puderam ver o filme, que sofreu para entrar na grade dos cinemas brasileiros. Se hoje é difícil uma produção nacional conseguir espaço nas salas de cinema, imagine em 1996. Mas Cassiopéia acabou usando de uma tática que embora diminuisse o apelo de marketing, pelo menos foi importante para colocá-lo nas telonas: o longa foi exibido durante as Olimpíadas de Atlanta. O público estava envolvido com as atividades dos jogos e a frequência diminuiu, mas pelo menos o filme estava lá, disponível. E depois uma versão em VHS acabou por ser lançada também.

Eis que chega os rivais, de chapéu de caubói e roupas espaciais

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Neste meio tempo, uma então desconhecida Pixar estava produzindo sua animação, em uma história envolvendo brinquedos. O estúdio, que nasceu como uma divisão da LucasFilm, e foi comprada por Steve “Apple” Jobs em 1986, firmou parceria com a Disney para a produção de três filmes, sendo o primeiro o Toy Story.

Funcionava assim: a Pixar se preocupava apenas em produzir o filme, enquanto a Disney se encarregava da distribuição e de colocar o filme nos cinemas e na boca do povo. Aproveitando de uma era de ouro, a Disney/Pixar lançou em 1995 Toy Story em meio a um sucesso estrondoso de retaguarda envolvendo O Rei Leão, Pocahontas e Aladdin. E o filme não foi só um sucesso, como foi considerado por muita gente o melhor filme do ano.

As técnicas de animação ficaram “em segundo plano” em meio a qualidade da história do longa, que introduziu Woody e Buzz Lightyear a toda uma geração e garantiu sequências tão boas quanto, guardados o devido impacto do primeiro filme e toda a sua importância para o cinema de animação.

Mencionamos Woody aqui é simples: Cassiopéia foi lançado em 1996, mas a animação da Pixar chegou primeiro, em 1995. Havendo uma “corrida interna” ou não, nem precisamos comentar dos melhores recursos e equipamentos da equipe nos Estados Unidos para a produção do filme, que se auto-intitula o primeiro filme em computação gráfica da história. Mas um pequeno detalhe o faz perder a coroa, de maneira semelhante ao que aconteceu com a Miss Colômbia no Miss Universo do ano passado…

Mas Cassiopéia foi ao infinito e além!

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Toy Story é o primeiro filme em CGI e… Desculpe, cometemos um engano.

Vamos esclarecer uma coisa: Toy Story foi sim lançado primeiro, em 1995, e fez o enorme sucesso que garantiu continuações e um nome no “Hall da Fama Disney”. Mas você sabia que Toy Story não é 100% digital? O filme da Pixar utilizou modelos de argila para a cabeça dos personagens, usando depois o software Polhemus 3D para renderizar os personages e inserí-los no filme. No vídeo a seguir, é possível ver o processo de desenvolvimento do longa, e os bonecos que serviram de molde para a produção:

Mas Cassiopéia não. O filme foi totalmente produzido por meios digitais, não utilizando nenhum recurso externo em seu desenvolvimento. Isso garantiu um título 100% digital e que pode sim ser considerado como o primeiro filme em computação gráfica da história. Claro que Toy Story tem suas qualidades, seus méritos e serviu também para colocar a Pixar entre as gigantes da indústria, mas seu filme não é totalmente digital e por isso, mesmo sendo lançado primeiro, não pode ser considerado como o tal primeiro filme em CGI de todos os tempos.

Também disponibilizamos aqui para você conferir o processo de desenvolvimento de Cassiopéia, que embora utilizasse menos recursos, contou com uma competência ímpar em seu desenvolvimento, literalmente tirando leite de pedra e oferecendo animação de qualidade.

E não, não vamos entrar no mérito de comparar as duas produções. O foco aqui é apenas dizer que por razões técnicas, a produção brasileira é quem merece o título. Mas Toy Story tem qualidade e merece também todo o seu legado, além da enorme bilheteria que arrecada, se bobear, até hoje.

O Legado

RetroArkade: Cassiopéia, o primeiro longa de animação da história, comemora 20 anos

Esta briga saudável acabou por estimular um mercado cada vez mais crescente de filmes em CGI. Toy Story é de 1995 e Cassiopéia, de 1996, época esta em que os games estavam chegando aos CDs e sua maior capacidade permitiam a inserção de vídeos em computação gráfica, extremamente popularizado após um fenômeno chamado Final Fantasy VII. Neste meio tempo, a Pixar se meteu a produzir Vida de Inseto e logo se firmou como uma gigante no ramo do entretenimento, utilizando com excelência a computação gráfica.

A equipe que produziu Cassiopéia, até tentou fazer a continuação, utilizando o know-how e ferramentas mais poderosas, como o 3ds Max para o desenvolvimento, mas em 2002 o projeto foi cancelado. Mesmo assim, o projeto serviu como incentivo para muita gente se interessar por animação digital, e o Brasil é muito bem representado no cenário, aliás. Profissionais qualificados aparecem ano após ano, oferecendo mais talento em uma indústria que só cresce.

No fim, Cassiopéia, mesmo sem ter o devido sucesso ou reconhecimento, tem seu lugar de destaque na história do entretenimento brasileiro, oferecendo uma produção competente e sendo o ponto de partida para muita coisa boa que direta ou indiretamente, colaborou para a questão das produções em animação 100% digital.

Uma resposta para “RetroArkade: Cassiopéia, o primeiro longa de animação da história, comemora 20 anos”

  • 24 de abril de 2016 às 11:51 -

    leandro leon belmont alves

  • me lembro de alugado esse filme na época das fita cassetes quando garoto, mas lembro bem pouco da animação

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