Análise Arkade: A Knight’s Quest é um clone de Zelda com crise de identidade

21 de outubro de 2019
Autor: Rodrigo Pscheidt
Análise Arkade: A Knight's Quest é um clone de Zelda com crise de identidade

The Legend of Zelda é uma das franquias mais consagradas do mundo dos games. Por conta de sua popularidade, é natural que tenhamos algumas “cópias” dele surgindo ocasionalmente. Algumas dessas “cópias” são muito boas — caso de Oceanhorn, por exemplo. Outras, nem tanto. Como é o caso deste A Knight’s Quest.

Genérico ou Paródia?

Quantas vezes você já viu coisas como um “cristal mágico” que está em perigo e pode colocar “o mundo inteiro em risco” caso venha a se quebrar por completo no mundo dos games? São conceitos extremamente clichês em RPGs, e isso é exatamente o que temos aqui: um aventureiro chamado Rusty encontra um cristal mágico, e de repente todo o mundo pode acabar. O mínimo que podemos fazer é tentar consertar a bagunça — e salvar o mundo.

A história de A Knight’s Quest não apenas bebe, mas mergulha em alguns dos maiores clichês do mundo dos games. Ok, alguns dos maiores clássicos dos videogames (como Final Fantasy) já tiveram sua cota de “cristais encantados” e “mundos em perigo”, mas, nos últimos anos, as coisas acabaram tornando-se um pouco menos óbvias, com tramas mais densas e interessantes.

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Até abrir baús lembra Zelda (com musiquinha e tudo)

A Knight’s Quest ignora essa evolução, e o pior é que eu não sei dizer se é proposital ou não: eu realmente não consegui ter certeza se o game tenta ser uma paródia deste tipo de RPG — ele traz muito de Zelda –, ou se ele realmente acredita que essa é uma história interessante.

Vejamos: o jogo tem alguns excelentes diálogos que parecem tirar sarro de estereótipos de personagens de RPGs “tradicionais”, ao mesmo tempo em que traz missões, dungeons e um conceito geral que realmente parece levar a sério tudo o que está acontecendo naquele mundo. Porém, ali no meio há algumas sidequests que estão ali para zoar algumas das sidequests mais absurdas que vimos por aí, tipo aquela da frigideira no The Witcher 3.

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Aqui temos um sujeito que quer algo melhor que papel higiênico para limpar seu traseiro.

Eu realmente queria poder explicar melhor o que há de “errado” com o jogo, mas isso poderia ser pura questão de interpretação. O fato é: nunca fica claro se A Knight’s Quest é realmente uma paródia ou não. Ele parece não saber que tipo de jogo quer ser.

Aventurando-se pelo mundo

A Knight’s Quest é o que há uns anos atrás chamávamos de “jogo de aventura”, mas hoje é mais comumente categorizado como “RPG de ação”. Temos um vasto mundo para explorar, cidades para visitar e NPCs para conversar. Também temos dungeons, puzzles, tesouros e combates contra esqueletos, cobras, morcegos, e por aí vai.

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Uma das primeiras cidades do jogo

O gmeplay lembra um pouco os primórdios dos jogos totalmente tridimensionais — algo como Super Mario 64 –, mas sem o mesmo grau de polimento. Há muita verticalidade na exploração, com trechos de plataforma e até corridinhas na parede, no melhor estilo Prince of Persia.

As dungeons estão entre as melhores partes do jogo, pois misturam boas doses de exploração com puzzles criativos, que inclusive demandam que o jogador utilize os equipamentos e magias do protagonista para serem resolvidos. E, claro, homenageiam muito do que vimos na série Zelda, como congelar jatos de água para transformá-los em plataformas, por exemplo. Fica claro que houve muito carinho na concepção destas áreas, e é aonde mais tempo deve ter sido investido.

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Infelizmente, outros elementos do jogo simplesmente não funcionam tão bem: o combate é extremamente básico, repetitivo e desajeitado. As hit boxes são bastante imprecisas, e a falta de feedback (tanto ao atacar quanto ao ser atacado) deixa tudo ainda mais confuso. Falando sem rodeios; o combate de A Knight’s Quest é chato. Para piorar, há muito combate por aqui, o que evidencia ainda mais suas falhas.

A exploração do mundo em si também não é tão prazerosa quanto poderia ser. Temos aquela bússola estilo Skyrim no topo da tela que não é lá a melhor maneira para nos localizarmos, e um mapa geral do mundo que é basicamente uma grande gravura — o que torna-o bastante inútil. Então, boa sorte ao adentrar em alguma dungeon particularmente complexa, pois não há mapas de áreas internas para facilitar a localização do jogador (ou para garantir que cada cantinho foi explorado).

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O combate é uma das piores coisas do jogo

Aí entram lições de game design que vemos em alguns dos títulos “parodiados” aqui que os produtores não aprenderam. Bons jogos sabem guiar o jogador de maneira sutil, sem placas, setas ou indicações óbvias. Coisas como posicionamento de inimigos, marcos geográficos e acontecimentos scriptados sempre mostram ao jogador o que ele deve ver, para onde ele precisa ir. Não é bem o que acontece aqui: o ato de ir e vir pode tornar-se bastante confuso, e ainda que a verticalidade dos cenários seja bacana em termos de gameplay, muitos níveis e subníveis só servem para deixar o jogador ainda mais perdido.

Audiovisual

Eis mais um ponto no qual A Knight’s Quest parece sofrer de crise de identidade: o visual do mundo em si é belíssimo, entregando belas paisagens e ótimos efeitos de iluminação. O mundo do jogo quer ser épico. Os personagens, por sua vez, são extremamente feios, modelos simples e desajeitados que simplesmente não combinam com aquele mundo. Novamente não consegui entender se isso foi proposital, mas é gritante a diferença de qualidade entre o mundo do jogo e os personagens que nele vivem.

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Os cenários são bem bonitos…

E este não é o único ponto no qual o game escorrega: A Knight’s Quest sofre de diversos bugs e problemas técnicos que prejudicam a experiência de jogo. De quedas de framerate a problemas de colisão que fazem o personagem “cair” do cenário até cutscenes com áudio zoado e casos em que o jogo simplesmente “dá pau” e volta para a dashboard do console, não faltaram problemas enquanto eu jogava.

Boa parte deles sem dúvida pode ser consertada através de patches, mas deixa a (má) impressão de que o jogo foi meio que feito nas coxas e/ou lançado às pressas, sem um mínimo de atenção ao QA (controle de qualidade).

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Mas o character design em geral é horroroso.

Por fim, vale ressaltar que a trilha sonora no geral é muito boa, e casa perfeitamente com a vibe aventureira do game. A Knight’s Quest infelizmente não recebeu nenhum tipo de localização para o nosso idioma, de modo que menus e legendas estão disponíveis somente em inglês.

Conclusão

A Knight’s Quest é um joguinho que sem dúvida se esforça para ser um bom “clone” de Zelda. Porém, falta o expertise, o polimento e a atenção aos detalhes da Nintendo. Assim, o que temos é um jogo tecnicamente instável, que traz muitos bugs e um gameplay que vai do bom (dungeons e puzzles) ao ruim (combate e navegação pelo mundo) sem nunca encontrar seu verdadeiro tom.

Análise Arkade: A Knight's Quest é um clone de Zelda com crise de identidade

Talvez alguns patches corrijam boa parte dos problemas, mas há coisas ali que não tem como ser consertadas. A principal delas é justamente a falta de identidade do game: afinal ele é uma paródia de Zelda e outros RPGs, ou um jogo influenciado por eles? Isso nunca fica claro, e sem a qualidade dos grandes jogos que sedimentaram clichês como “cristal mágico” e “mundo em perigo”, o que sobra é um jogo genérico ao extremo. Convenhamos: até seu nome — A Knight’s Quest — soa genérico. E, novamente, eu nem posso afirmar se isso foi proposital ou não.

Assim, A Knight’s Quest só é mesmo recomendável para quem precisa de um RPG de ação nos moldes de Zelda, mas não tem um console da Nintendo para jogar. Só não vá esperando algo no mesmo patamar, ou vai quebrar a cara.

Análise Arkade: A Knight's Quest é um clone de Zelda com crise de identidade

E se você tem um Nintendo Switch, faça um favor a sim mesmo: jogue um legítimo The Legend of Zelda e deixe os clones pra lá.

A Knight’s Quest foi lançado em 10 de outubro, e está disponível para PC, Playstation 4 (versão analisada), Xbox One e Nintendo Switch.

Uma resposta para “Análise Arkade: A Knight’s Quest é um clone de Zelda com crise de identidade”

  • 21 de outubro de 2019 às 22:00 -

    Helinux

  • A verdade é que tudo que foi e ainda é bom pode influenciar a coisas boas, acredito!!!! Muita coisa boa de antigamente de certo modo ainda está presente nos games atuais!!!! Bela analise, valeu galera!!!!

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