Análise Arkade: A Pixel Story é criatividade, nostalgia e (muita) dificuldade

8 de março de 2017
Autor: Rodrigo Pscheidt

Análise Arkade: A Pixel Story é criatividade, nostalgia e (muita) dificuldade

Que tal um jogo que te permite passear por diferentes gerações de games em um universo recheado de metalinguagem e ótimas referências? Este jogo se chama A Pixel Story, confira nossa análise!

Um roteiro (propositalmente) clichê

A cultura pop é cheia de clichês. Seja nos videogames, nos filmes ou nos quadrinhos, vez ou outra vemos temas recorrentes ganhando novas roupagens para recontar velhas histórias. Considerando que A Pixel Story é uma grande viagem pela evolução dos videogames, o que temos aqui é — propositalmente — super clichê.

Em um tom que até lembra um pouco outro grande indie game — Fez –, aqui controlamos um protagonista sem nome, que acaba sendo “o escolhido” para salvar um mundo multidimensional de um sistema operacional maligno, que está colocando seus “operadores” para perpetrar o caos e a destruição.

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Felizmente, você terá dois grandes aliados nesta missão: o primeiro é o robozinho tagarela Search, que é basicamente quem o “liberta” e irá te guiar pelo vasto mundo do jogo. Seu segundo e mais importante aliado é seu chapéu mágico — o Magical Teleportation Hat -, artefato que lhe concede a fantástica habilidade de se teleportar.

Uma história visual

Ainda que tenha um plot pra lá de manjado, a graça de A Pixel Story está muito mais na forma como a história é contada do que na história em si. O mundo do jogo é meio que uma Matrix, e as pessoas (que na realidade são programas) que vivem lá em geral sabem disso e não se importam, desde que possam seguir com suas “vidas”.

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Claro que, quando o sistema operacional malvado começa a botar as manguinhas de fora isso se torna impraticável, de modo que muitos programas irão lhe ajudar em sua missão… em troca de favores, claro. Você terá que cumprir pequenas missões — algumas um tanto absurdas — se quiser progredir no game, e progressão aqui também é sinônimo de evolução.

A Pixel Story começa (literalmente) com uma partida de Pong, clássico precursor dos videogames. Logo, o game assume a identidade visual de um side scroller 2D da geração 8-bit. Depois de explorar um pouco esse mundo e coletar memórias — simbolizadas por diamantes coloridos — você se torna apto para avançar para a geração seguinte, que tem um ar de jogo 16-bit. Posteriormente, sua aventura culmina em um mundo de visual 2D estiloso e moderno, que não deve muito aos jogos atuais do gênero.

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O quarto do personagem, nas 4 gerações.

Enquanto muitos indie games atuais se apoiam simplesmente na pixel art e na vibe retrô, A Pixel Story vai mais longe, expandindo e evoluindo seu próprio universo com muita identidade e competência. O visual do game evolui muito do início ao fim, mas tudo é muito coeso, bem planejado e coerente com a proposta.

Plataforma, puzzle e criatividade

Em termos de gameplay, o que temos aqui é um mix de Super Mario com Portal. Os trechos de plataforma em si até que parecem tranquilos… porém, o engenhoso level design do game vai fritar seus miolos enquanto te obriga a pensar em formas criativas e funcionais de usar os poderes do seu chapéu para avançar.

Funciona assim: ao pressionar um botão (quadrado no PS4), você abandona seu chapéu, que fica suspenso no ar. Ao apertar quadrado novamente, você é automaticamente teleportado para o lugar onde seu chapéu ficou. Simples? Sim. Simplório? Jamais!

Aqui vai um breve exemplo aplicado:

Como já disse ali em cima, o level design deste game é extremamente engenhoso, colocando obstáculos variados para dificultar a sua vida e te fazer usar o chapéu de formas muito desafiadoras. Timing e momentum são fundamentais, então se quiser ser lançado para cima, por exemplo, pode deixar seu chapéu em um lugar adequado, encontrar uma mola de propulsão, pular sobre ela e se teleportar no meio do impulso.

Parece complicado, mas quem já jogou Portal certamente captou a ideia. O fato deste jogo ser em 2D pode passar a falsa impressão de que ele é simples e fácil, mas o design minucioso de cada área oferece um desafio constante e crescente, que te obriga a pensar “fora da caixa” e ser inventivo. Rios de lava, plataformas móveis, serras, prensas, elevadores, espinhos, esteiras rolantes… você já viu tudo isso antes em centenas de games, mas provavelmente nunca viu estes elementos sendo empregados de formas tão sádicas e criativas.

No limiar do rage quit

A Pixel Story é um jogo extremamente desafiador. Em alguns momentos ele até lembra jogos como Super Meat Boy, tamanho o nível de complexidade de suas fases. Existem salas opcionais de desafios que ouso dizer que são piores até que as últimas fases de Super Meat Boy, mas o jogo em si — quero dizer, as partes obrigatórias — também são bem difíceis.

Há uma grande diferença entre Super Meat Boy e A Pixel Story, porém: a jogabilidade do primeiro é extremamente ágil e precisa; você tem pleno controle do Meat Boy, e sabe tudo o que ele é capaz de fazer. Não é o caso aqui: A Pixel Story tem mecânicas muito mais simples e “duras”, e essa simplicidade acaba se tornando um fator dificultador a mais em um jogo que normalmente já é bem difícil.

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O pulo do personagem é curto e baixo, e alinhá-lo com plataformas durante quedas é um processo lento e impreciso. Não ligo em passar vários minutos pensando em como resolver um enviromental puzzle elaborado, mas me irrito de não conseguir passar de uma parte simplesmente porque o gameplay do jogo não colabora. São tantos obstáculos e armadilhas que este jogo simplesmente merecia um gameplay mais ágil e preciso.

Passei mais de 30 minutos no trecho abaixo, e confesso que dei rage quit, larguei o jogo por uns 2 dias. Depois eu voltei, e passei muito mais raiva e frustração até enfim conseguir passar dessa parte, e prossegui com o game. Dê o play abaixo e sinta o drama:

Sei que não é um trecho super elaborado, nem nada… ele simplesmente se tornou bem mais complicado do que deveria por conta do gameplay raso e simples. Claro que essa dificuldade é inerente à temática retrô e sei que jogadores melhores (ou mais pacientes) provavelmente não irão sofrer tanto, mas, como editor, acho válido deixá-lo avisado que A Pixel Story vai te deixar irritado, frustrado e com vontade de tacar o controle na parede muitas e muitas vezes.

Audiovisual

Como já dito, A Pixel Story é corajoso em mudar seu próprio visual algumas vezes ao longo do game, para manter-se coerente na proposta de “atravessar gerações” que o game. O resultado desta “evolução” funciona muito bem, pois tanto os gráficos quanto a trilha sonora vão se modernizando no decorrer da campanha, sem, contudo, perderem sua identidade visual.

Análise Arkade: A Pixel Story é criatividade, nostalgia e (muita) dificuldade

Da 3ª geração pra cima o visual fica incrível.

A trilha sonora do game também merece destaque por brincar com músicas e trilhas sonoras bem famosas, adaptando-as para o formato chiptune e suas variações. Confira abaixo um divertido mini-game no estilo Guitar Hero que recria a emblemática What is Love, do artista Haddaway, verdadeiro hino dos anos 90:

No geral o departamento audiovisual do game é competente e simpático. Se há uma queixa, é somente em relação às janelas de diálogo, que são escuras e pequenas, o que dificulta um bocado a leitura caso você esteja acomodado um puco longe da TV. E, claro, faz falta uma legendagem em português, pois há muitos diálogos e referências que serão perdidos caso o jogador não esteja com o inglês em dia.

Conclusão

A Pixel Story é um joguinho extremamente criativo e divertido, mas que pode acabar se tornando frustrante por ter um nível de dificuldade que quase não é comportado pela simplicidade de seu gameplay.  Apesar disso, ele dá uma aula de game design com seus puzzles muito bem sacados, e sua forma inventiva de usar teleportes.

Análise Arkade: A Pixel Story é criatividade, nostalgia e (muita) dificuldade

Pode não parecer, mas essa é uma referência ao Exterminador do Futuro.

Se você passou os últimos 20 e poucos anos jogando videogame e acompanhando a incrível evolução desta indústria, este game vai te fazer suar pelos olhos, pois ele presta homenagens sutis (ou bem escancaradas) a diversos elementos que marcaram não só os videogames, mas a cultura pop em geral. Jogue sem medo, mas saiba que você invariavelmente vai passar muita raiva.

A Pixel Story foi lançado em 2015 na Steam, e chegou ao Playstation 4 e ao Xbox One no último dia 24 de fevereiro.

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