Análise Arkade: After Life é uma interessante, trágica e limitada história em VR

19 de setembro de 2019
Autor: Gilson Peres
Análise Arkade: After Life é uma interessante, trágica e limitada história em VR

Jogos focados em narrativas e escolhas diversificadas são um nicho muito interessante. Grandes nomes deste subgênero são facilmente lembrados como Detroit: Become Human e Life is Strange. Mas e se um desses jogos fosse pensado para a realidade virtual? Pois é exatamente dessa ideia que surgiu After Life.

Entre os principais diferenciais de After Life está logicamente o uso da realidade virtual como forma de imersão. Entretanto, temos também outra diferença: o uso de atores para construir as cenas. É isso mesmo! O jogo não é feito com personagens digitalizados, mas sim com atores reais — como os bons e velhos jogos em FMV que nunca saem de moda. Mas essa aposta tem seus ganhos e perdas. Vamos falar disso tudo nesta análise completa.

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Uma tragédia familiar

A história de After Life é um dos seus pontos mais positivos. O enredo do game começa com um trágico acidente. Jacob é deixado por apenas um instante por sua mãe, Emma, na banheira. Basta este breve momento para um acidente fatal acontecer e mexer com o psicológico de toda a família.

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Cenas fortes são evitadas, mas as vozes e interpretações compensam bastante.

O jogo se passa algum tempo depois do acidente. Assim, a reação de cada um dos personagens ao evento é bem diferente. Temos um pai que tenta manter o controle, enquanto a mãe não lida nada bem com a perda. Ao mesmo tempo, a meia-irmã mais velha responde ao luto com rebeldia.

Os personagens são bem interpretados e possuem certa profundidade. Mesmo que a história seja bem curta, contamos com diferentes árvores de possibilidades, o que nos dá oportunidade de ver cada um deles brilhar. O mais interessante é que nós, enquanto “espectadores” e “jogadores”, somos na verdade o próprio Jacob, que está acompanhando o processo de luto de sua família em uma espécie de limbo. Nosso objetivo é justamente dar um fim à história inacabada daquela família, para que todos possam seguir adiante.

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Jogabilidade eficaz, mas limitada

É aí que entramos na jogabilidade narrativa de After Life. Os comandos do jogo são bem simples, o que traz várias limitações. Primeiramente, por se tratar de uma filmagem, não temos controle algum de movimentação. Isso é problemático, de certo modo, pois dá mais a sensação de que somos uma câmera de segurança, não uma criancinha fantasma que deveria ter liberdade de movimentos.

Com isso, temos dois comandos básicos no jogo. O primeiro deles, que usamos quase em todas as cenas, é o de escolher quem seguir na narrativa. Para isso, basta acompanhar com o olhar um dos personagens até que ele saia de cena. Com isso podemos mudar a árvore de acontecimentos que seguiremos, focando na narrativa da filha, do pai ou da mãe.

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Além disso, temos outra função, muito mais limitada que é a de interagir com determinados objetos do cenário. Estes momentos são bem escassos no decorrer da jogatina e nos dão bem poucas opções do que fazer. Apenas uma das cenas dá três opções de interação diferentes, sendo a maioria apenas uma ou duas.

Essa possibilidade seria a que mais aproximaria a narrativa de After Life de um jogo de fato, mas é quase inexistente. As interações são bem engessadas e não temos uma variedade digna de opções. Isso é problemático, pois deixa o jogo com muito mais cara de um filme interativo do que realmente um game de narrativa como Detroit ou Heavy Rain.

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A interação com objetos do cenário é limitada demais.

Narrativa complexa interessante

After Life é mais filme do que jogo desde a sua origem. O game foi desenvolvido pela Signal Space’s Visual Lab, um estúdio canadense especializado em criar experiências cinematográficas em realidade virtual. Graças a isso, seu enredo e narrativa são muito melhores do que sua jogabilidade.

A história possui, como de praxe, vários finais. Entretanto, não são apenas os finais que mudam no decorrer da narrativa. Existem eventos que acontecem ao mesmo tempo, tendo o jogador a opção de acompanhar um ou outro. Porém, existem eventos que simplesmente não acontecem dependendo das escolhas feitas.

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Somente uma das opções narrativas nos faz conhecer a história de Tessa, a irmã.

Isso é um ponto positivo, pois mantém o jogador curioso o suficiente para revisitar a curta história de apenas três capítulos diversas vezes. A diversão de After Life fica justamente em explorar as diversas facetas da história, explorando todas as possibilidades de conclusão possíveis.

Alguns problemas técnicos

Mesmo com uma história interessante, narrativa complexa e boas interpretações, After Life ainda deixa a desejar em alguns pontos. Para começar, o público brasileiro do jogo pode ser bastante limitado pela ausência de dublagem ou legendas em português. Além disso, as legendas em inglês possuem problemas graves de falta de continuidade e sincronia.

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Outro ponto problemático são as filmagens em si. Na maior parte do tempo elas são bem confortáveis de serem vistas. Entretanto, temos dois pontos que atrapalham o conforto. O primeiro é a impossibilidade de girar a câmera através do controle, sendo o jogador obrigado a girar em 360º para ver determinados acontecimentos, o que pode ser bem desconfortável — considerando que o jogo é meio que um filme, seria cômodo de podermos acompanhar tudo estando sentados, mas precisamos estar em uma posição que nos permita girar completamente a cabeça. Ou seja, ou você tem uma cadeira que gira, ou vai ter que jogar em pé, mesmo.

Além disso, temos alguns contrastes de nitidez quando algum personagem passa perto demais da nossa câmera. O defoque, mesmo que rápido, deixa o personagem bastante borrado e pode causar certo incômodo em alguns. Para fechar os problemas técnicos do jogo, o áudio em 3D não funciona direito, atrapalhando a imersão.

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É bastante deconfortável quando um personagem passa próximo demais da câmera.

Uma experiência diferente

After Life se sai muito melhor como um filme interativo do que como um jogo narrativo. É muito importante deixar isso claro para quem for adquirir este título em uma das plataformas para as quais ele está disponível. Nem troféus ele possui, talvez para deixar mais claro que sua intenção é mais ser assistido do que ser jogado.

Porém, isso não impede que ele seja uma experiência bacana — e diferente — para os amantes de realidade virtual. Não é nada revolucionário, mas a história densa e, ao mesmo tempo, curta, pode atrair na medida certa. After Life nos dá um gostinho de como poderia ser muito interessante se pudéssemos revisitar jogos narrativos em realidade virtual, ou mostra um nicho cinematográfico que pode ser explorado, com filmes que aproveitem a tecnologia para aumentar a imersão do espectador ao permitir-lhe estar “dentro” da história, tomando decisões e afetando a narrativa.

After Life foi lançado em 21 de agosto de 2019 para PC, PlayStation 4 e iOS. O game possui compatibilidade com o PlayStation VR, HTC Vive, Oculus Rift e Valve Index.

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