Análise Arkade: o retorno (um tanto inconstante) dos Battletoads

22 de agosto de 2020
Autor: Rodrigo Pscheidt
Análise Arkade: o retorno (um tanto inconstante) dos Battletoads

2020 está sendo um ano estranho em vários aspectos. E nem estou falando de pandemia, quarentena e coronavírus, mas de como, no mundo dos games, de repente as empresas decidiram ressuscitar franquias que estavam sumidas há décadas.

No começo do ano, tivemos Streets of Rage 4. E agora, em agosto, os Battletoads estão de volta, em uma aventura que esbanja carisma e pega muito mais leve na dificuldade para oferecer uma experiência de jogo que todos possam aproveitar.

26 anos depois…

Eu já disse várias vezes aqui que adoro jogos que não se levam a sério. E Battletoads acerta muito a mão nisso: a história do jogo é boba, mas muito divertida, e não ignora o fato de que os sapos passaram mais de 25 anos sumidos.

Análise Arkade: o retorno (um tanto inconstante) dos Battletoads

O que rola é o seguinte: Rash, o de óculos escuros, de repente percebe que eles passaram os últimos 26 anos trancados em um bunker, e não são mais famosos. Depois de se aventurarem por “empregos normais” bem sem graça, Rash decide que quer voltar a ser um herói, ser famoso, e convence seus irmãos a saírem em busca de sua antiga inimiga, a Dark Queen.

Este é o “plot” da história, mas ao longo da campanha, cada um dos Toads irá passar por sua própria jornada: Zitz, o líder, é inseguro, desconfiado, e não consegue acreditar nos outros, enquanto o grandalhão Pimple, quem diria, tenta fugir da violência e levar uma vida pacífica.

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Pimple até faz bico de massagista

O maior acerto deste novo Battletoads é conceder carisma aos personagens. Convenhamos: antigamente eles eram apenas sprites de cores diferentes, com um detalhezinho aqui e ali que os diferenciava (como os óculos escuros). Agora eles realmente são personagens diferentes, com vozes, habilidades e, claro, personalidades bem diferentes.

Pancadaria é só uma parte

No que diz respeito à pancadaria, o novo Battletoads tem um timing meio específico que a gente precisa de uns minutos para se habituar, mas no geral socar os inimigos é satisfatório: temos 3 botões de ataque diferentes: um para golpes normais, um “launcher” que joga os inimigos para cima, e um botão de ataques tipo “metamorfose”, golpes nos quais os sapos mudam de forma, tornam-se outras criaturas, ou usam itens malucos para surrar os inimigos.

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Como nos velhos tempos

Também é possível usar a língua para “laçar” inimigos — a língua pode ser usada também para comer moscas/recuperar energia e até para içar os sapos para outro “plano” do cenário — e cuspir uma bola de meleca que imobiliza um inimigo por alguns segundos. Há um bem-vindo dash/esquiva, e no geral eu só senti falta de poder agarrar os inimigos — os agarrões dos Battletoads das antigas eram muito legais, dava para enterrar os inimigos no chão na base da porrada, e tudo mais.

Ainda que as mecânicas básicas sejam essencialmente as mesmas, cada sapo tem seu próprio estilo de luta, e suas próprias transformações. Zitz, por exemplo é o melhor para combos aéreos (suas pernas até viram uma britadeira!), enquanto Pimple bate mais forte, mas não oferece muitos combos. Já Rash, é o que tem as “metamorfoses” mais legais, virando tubarão e até “summonando” um fliperama dos Battletoads enquanto bate nos inimigos!

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Mini-games e muito mais

Battletoads nunca foi “apenas” um beat ‘em up; ele sempre trouxe outros tipos de fases: tinha fase de rappel, fase de navinha, e, claro, a famigerada fase da motinho. O novo jogo mantém essa premissa… mas na minha opinião vai um pouco longe demais na diversificação.

A fase da motinho ainda está aqui, na real. Há mais de uma versão dela, aliás. Temos a nova, que é um pseudo-3D com progressão para frente:

E há uma “reimaginação” do desafio 2D clássico, com progressão lateral, que traz como elemento dificultador os diferentes tipos de pisos: devemos manter pressionado o botão certo para que o “trenó” (na verdade é o corpo de um cara, mas vamos deixar isso pra lá) consiga deslizar sobre gelo, esponja (?!) e carpete (?!). Errou o botão, despenca na hora. É uma fase boa, com uma trilha sonora nostálgica, e me lembrou das excelentes fases musicais de Rayman Legends.

Se liga no comecinho dela:

O problema é que o jogo não para por aí: há muitos outros mini-games no decorrer da campanha, e nem todos eles são legais. Há um monte de painéis de segurança, circuitos que devem ser conectados, partidas de jokenpo… mini-games que talvez fiquem divertidos jogando de galera, mas quando joga-se sozinho (como foi o meu caso), eles são só pentelhos.

Um dos piores exemplos rola na reta final da campanha: uma sucessão de painéis cheios de mini-games aleatórios que devem ser resolvidos (em ordem aleatória) dentro de um limite de tempo insano — e que diminui a cada erro do jogador. Não são mini-games legais, e estão ali apenas como desculpa para “gamificar” algo que poderia tranquilamente ser uma cutscene.

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Você também vai odiar esse painel

Até fiz um vídeo de quando superei a última etapa, mas fica até difícil entender o que está rolando na tela sem o conceito do jogo em si:

Se você reparar, o painel é dividido em 3 quadrantes, cada um correspondendo a um personagem. Com 3 jogadores, isso até pode ser divertido (com ressalvas): cada um cuida do seu quadrante e todos se ajudam na medida do possível. Mas jogando sozinho essa parte foi um inferno. Quem diria que o trecho mais frustrante/difícil do Battletoads não seria a “fase da motinho”, mas um painel cheio de mini-games?

Além disso, a cadência do jogo tem um ritmo estranho: a impressão que dá é que as boas fases de pancadaria ficam concentradas no começo. Na reta final, temos basicamente fases de navinha (que até são legais, mas cansam pela repetição) e fases de plataforma, onde controlamos criaturinhas aleatórias e precisamos evitar obstáculos e arrastar caixotes.

Battletoads Nutella

Por falar em dificuldade, a galera das antigas adora exaltar como Battletoads era um jogo cascudo, de como a fase da motinho era difícil, e de como a indústria foi facilitando os jogos e “amolecendo” os jogadores. Pois bem, lamento informar a esses “tiozões” que Battletoads se reinventou para oferecer uma experiência menos punitiva a um novo público.

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Jogando sozinho, é possível alternar entre os 3 sapos a qualquer momento, e caso algum deles morra, volta (com metade da energia) após uns 15 segundos. Ou seja, se os 3 estiverem vivos, é como se você tivesse 3 vidas o tempo todo. No coop isso deve ficar ainda mais “fácil”, pois um jogador pode reviver o outro.

Como se isso não fosse “moleza” o suficiente, se você jogar na dificuldade Girino/Fácil ou Sapo/Normal, ainda pode ativar uma invencibilidade temporária caso morra muitas vezes no mesmo lugar! Eu me orgulho de dizer que não precisei utilizar esta “trapaça” em nenhum momento jogando no Sapo/Normal, mas não se pode negar que é uma “colher de chá” que não condiz com a dificuldade da franquia.

Análise Arkade: o retorno (um tanto inconstante) dos Battletoads
Eu mencionei que o jogo é curtinho? Pois é…

O Battletoads de 2020 é mais acessível, e não tem problema nenhum nisso. O mundo mudou, o público mudou, e esse novo jogo sem dúvida é perfeito para ser jogado entre pais e filhos. Do jeito que está, ele oferece um bom nível de desafio, e quem precisar de “uma mãozinha”, pode utilizar.

Audiovisual

Este talvez seja o elemento mais controverso do novo game, que adotou uma estética meio “Cartoon Network” para dar nova vida aos personagens. Honestamente, isso não me incomodou. Achei o visual como um todo bastante simpático e expressivo. A única “releitura” que causa estranheza é a da Dark Queen, que deixou de ser um mulherão e agora parece uma garotinha.

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As dublagens são excelentes, e, como já dito, conferem muita personalidade aos heróis. O jogo não recebeu dublagem no nosso idioma, mas as vozes em inglês são ótimas, ao passo de que as legendas em PT-BR fazem um bom trabalho em localizar piadas e expressões para o público brasileiro.

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A fase da motinho, versão atualizada

A trilha sonora fecha o pacote audiovisual do jogo com maestria: temos faixas “pauleiras”, que vão de releituras de temas clássicos — agora tocados por músicos de verdade — a novas faixas. São músicas cheias de atitude que combinam com a proposta do game.

Conclusão

No geral, este reboot dos Battletoads me pareceu bem inconsistente. Eu adorei a injeção de carisma que os personagens receberam, e a pegada cômica da história muito me agrada. O visual também não me incomoda, mas eu sei que esse é um tema controverso.

Em termos de gameplay, eu me diverti com a pancadaria, as transformações dos personagens e as diferentes “fases da motinho” que temos aqui, mas cada mini-game bobo de ligar circuitos, combinar símbolos e arrastar caixotes me afastava do que eu estava realmente curtindo no game.

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Tem muita fase de navinha na reta final do jogo…

Assim, o que fica é um gosto agridoce na boca: gostei de algumas coisas, não gostei de outras. Isso em um jogo tão curto pode ser um problema, uma vez que acabam faltando partes boas para compensar as ruins.

O ritmo instável da campanha compromete negativamente a experiência — pancadaria no começo, navinha no final, muitos mini-games seguidos. Acho que se tudo isso fosse intercalado de forma mais perene, teríamos uma experiência mais equilibrada. Apesar disso a nostalgia sempre fala alto, então admito que é bom ver os sapos de volta na ativa, apesar das pentelhices do novo jogo.

Battletoads foi lançado em 20 de agosto, e está disponível para Xbox One e PC, também no catálogo do Game Pass.

Uma resposta para “Análise Arkade: o retorno (um tanto inconstante) dos Battletoads”

  • 25 de agosto de 2020 às 23:47 -

    Helinux

  • O antigão é mais doido!!!! O importante é lembrar sempre dos sapos fight da vida gamer!!!! valeu pela a analise!!!!

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