Análise Arkade – Detroit: Become Human e a consciência dos androides

24 de maio de 2018
Autor: Rodrigo Pscheidt

Análise Arkade - Detroit: Become Human e a consciência dos androides

Prepare-se para viver fortes emoções ao lado de androides que estão descobrindo suas identidades em Detroit Become Human, mais nova experiência cinematográfica que a Quantic Dream lança esta semana no Playstation 4!

Bem-vindo ao futuro

Detroit: Become Human se passa obviamente em Detroit, no ano de 2038, época em que a inteligência artificial está tão evoluída que os androides fabricados pela CyberLife dividem espaço com seres humanos nas mais variadas atividades: há quem tenha um androide em casa para serviço doméstico, há androides trabalhando com segurança e construção civil. Também há androides detetives ajudando a polícia; e há até bordéis, onde clientes podem “alugar” androides para fins sexuais.

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Eu sei que você ficou curioso para ver o bordel. ( ͡° ͜ʖ ͡°)

Claro que esta evolução chega acompanhada de alguns efeitos colaterais: o aumento da “mão de obra barata” dos androides no mercado de trabalho faz disparar o número de humanos desempregados, que, insatisfeitos, fazem de tudo para boicotar seus rivais.

A situação fica ainda mais complicada quando alguns androides começam a se tornar conscientes e emular emoções humanas. A linha entre androides e humanos se torna cada vez mais tênue quando androides começam a se portar como humanos, criando laços afetivos, sentindo, raiva, medo, alegria, paixão… enfim, eles apresentam sentimentos e emoções que não deveriam.

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Estes androides “rebeldes” logo ganham um apelido: divergentes. Conforme estes divergentes vão se tornando mais agressivos e passionais em suas reações, crimes começam a acontecer, e quando as famosas Leis da Robótica são quebradas, as relações entre homens e máquinas são colocadas em xeque.

Neste complexo panorama, somos apresentados a 3 androides: Kara, é uma jovem androide modelo AX 400 encarregada de serviços domésticos, que acaba testemunhando casos de violência doméstica. Markus é um modelo RK 200 que serve de enfermeiro e amigo para um artista idoso. E Connor, um avançado modelo RK 800, é justamente um androide detetive, encarregado de ajudar a polícia a investigar crimes cometidos por divergentes.

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Markus, um dos protagonistas.

As “vidas” destes 3 androides irão se cruzar em uma história que, apesar de não soar assim tão original — já vimos conflitos do tipo em Blade Runner, Inteligência Artificial, Deus Ex –, é contada daquele jeito estiloso e cinematográfico que é marca registrada da Quantic Dream. E, tal qual os outros jogos da empresa, aqui suas decisões têm um peso enorme, afetando a história até os últimos minutos de jogo.

Vale ressaltar ainda que a história ganha pontos por servir como uma metáfora para problemas bem reais. Vivemos em um mundo no qual negros passaram décadas sendo escravizados, e o presidente da maior potência do planeta prometeu construir um muro para evitar a entrada de estrangeiros. Segregação, preconceito e luta por liberdade e direitos iguais são temas universais, e continuam extremamente relevantes.

Interagindo com o mundo

Quem já jogou qualquer outro título da Quantic Dream certamente sabe que gameplay não é exatamente o foco aqui. Os games de David Cage e sua turma contam com mecânicas bastante peculiares, contando com muitas ações contextuais e Quick Time Events.

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Tipo assim

Na prática, Detroit: Become Huaman é aquele tipo de jogo que a gente mais assiste do que joga, mas como estamos falando de um jogo com um bom número de cenas de ação, simplesmente largar o controle de lado e pegar a pipoca não é uma boa ideia. Seus personagens podem morrer em diversas situações, e a história toma rumos diferentes conforme você supera (ou fracassa) nestes desafios. Perder um personagem não é sinônimo de Game Over, mas isso com certeza irá repercutir na história dali em diante.

No trecho abaixo, por exemplo, tanto Kara quanto Connor poderiam ter morrido atropelados, e isso afetaria o desenrolar da trama:

Mais importantes que a ação, são as decisões que tomamos. Elas afetam a história e a maneira como outros personagens nos veem, e geralmente devem ser tomadas em questão de segundos. De dilemas morais à situações de vida ou morte, esteja preparado para tomar algumas decisões bem drásticas. É comum termos pelo menos 3 opções disponíveis, com mais possibilidades de interação surgindo conforme nossa afinidade com outros personagens se fortalece.

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Prepare-se para tomar decisões cruéis

Como nossos personagens não são humanos, eles ainda podem utilizar alguns “poderes” a seu favor. A qualquer momento, podemos pressionar R2 para congelarmos a cena, revelando pontos de interesse e destacando o objetivo atual.

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Os pontos de interesse são destacados com ícones amarelos

Ocasionalmente, também podemos “prever” as chances de sucesso de uma ação, realizando-a em seguida da maneira mais segura possível.

Tipo assim ó:

Um detalhe interessante é que desta vez a Quantic Dream adotou uma interface de infográficos para acompanharmos nosso progresso. Ao final de cada cena, podemos ver um gráfico que mostra o caminho que tomamos, e todas as possíveis variantes que poderiam ter ocorrido se fizéssemos outro caminho.

Eis aqui um exemplo do gráfico que vemos ao fim de um capítulo (não ampliei a imagem propositalmente para evitar spoilers):

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O que está em azul foi o que fiz. O resto, só jogando de novo pra saber.

Você só consegue ver de fato o que mudaria jogando, mas é possível acessar qualquer capítulo já concluído da história pelo menu principal, e você ainda pode escolher se quer ou não que sua nova passagem sobrescreva os dados salvos. Nada de múltiplos saves aqui, suas decisões irão te acompanhar até o final da campanha!

De resto, não espere por grandes novidades em termos de mecânicas. A Quantic Dream se manteve confortável em um estilo de jogo que já lhe é bem conhecido, com destaque para momentos de tensão cronometrados, nos quais devemos fazer uma série de ações antes que o tempo acabe.

No vídeo abaixo, por exemplo, meu trabalho era esconder evidências da presença de androides de um policial desconfiado:

Uma coisa meio chata é que continuam presentes aqueles QTEs pentelhos que usam o acelerômetro do controle e pegam a gente desprevenido. Mas de resto,fora uma ou outra interação via touchpad, espere por algo bem familiar, mas que exige rapidez de raciocínio e reflexos rápidos.

Audiovisual

A Quantic Dream sempre se esforçou para criar personagens digitais realistas, mas a tecnologia parecia nunca acompanhar este anseio. Até agora. Detroit: Become Human é um jogo tecnicamente deslumbrante, com expressões faciais realistas, sincronia labial de primeira e personagens muito detalhados. Em um jogo tão preocupado em mostrar a humanidade de androides, o que temos aqui quase elimina por completo o famoso efeito uncanny valley.

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As expressões faciais são surpreendentes

Os cenários também são incríveis, um futurismo sem os excessos e breguices tão comuns em outras obras de ficção; a Detroit do game é bastante plausível graças à ótima direção de arte escolhida. O visual caprichado, aliado à narrativa ágil e ao roteiro bem amarrado fazem de Detroit: Become Human um jogo tão bom de se jogar quanto de se assistir.

O departamento sonoro não fica atrás, trazendo dublagens excelentes. Optei por jogar com áudio em inglês e legendas em português, mas quem preferir pode curtir o jogo 100% dublado em português. Optei pelo áudio original porque este é mais um daqueles jogos que usa a chamada “captura de interpretação”, e achei válido conferir por completo o trabalho dos atores/dubladores que emprestaram suas vozes e feições aos personagens.

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Um exemplo do belo trabalho de iluminação do game

A trilha sonora — assinada por 3 compositores diferentes, um para cada protagonista — é excelente, ditando o tom do jogo e combinando perfeitamente com a personalidade de cada androide, conseguindo ser sutil, agitada e tocante conforme a situação e o “estado de espírito” dos personagens.

Conclusão

Detroit: Become Human mostra que a Quantic Dream não perdeu o jeito para contar histórias capazes de emocionar, surpreender e chocar o jogador. A crueza de algumas decisões, o carisma dos protagonistas e a eterna sensação de que nunca há algo verdadeiramente “certo” ou “errado” tornam o game um thriller sci fi de primeira, e é bem fácil “maratonar” a campanha simplesmente para acompanhar o desenrolar da trama.

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Acho que há uma “revelação” um tanto forçada na reta final, mas no geral o que temos aqui é entretenimento de primeira qualidade, e as dezenas de ramificações da história agregam um respeitável fator replay ao game, além de demonstrar um louvável esforço criativo ao abarcar tantas variáveis (eu vi 2 finais diferentes e eles foram, tipo, MUITO diferentes).

Se você é fã de Asimov ou curtiu Fahrenheit, Heavy Rain e Beyond two Souls, provavelmente vai curtir Detroit: Become Human também. Mais uma vez, temos a ficção abordando temas reais com tanta sensibilidade que fica até difícil não nos identificarmos com os fascinantes androides do game, que são mais humanos do que muito protagonista humano que temos por aí.

Detroit Become Human será lançado amanha (25/05) exclusivamente para Playstation 4. Este review foi feito no PS4 Pro, usando uma cópia em disco do jogo que recebemos antecipadamente da assessoria da Sony Playstation Brasil para fins de análise.

3 Respostas para “Análise Arkade – Detroit: Become Human e a consciência dos androides”

  • 24 de maio de 2018 às 23:09 -

    onigumo

  • Otimo artigo, morri de medo de spoiler. Parece ser um jogaço. A quantic dream tem um jeito incrivel de fazer jogos serem interativos atraves de uma “super-imersao” com seu balanço entre narrativa, enquadramento e atmosfera ( uma pegada meio Andrew dominic). Sonho com o dia em que teremos um jogo VR da desenvolvedora…
    Tinha um jogo de dreamcast que lembra muito detroit, nao era tao verossimil no entanto, com uma ambientaçao mais absurda, estilo knights of old republic/anachronox. De nome eu nao sei, era mais um no meio de tantos no estilo que tinham na epoca, mas era bem bom.

    • 25 de maio de 2018 às 08:28 -

      Rodrigo Pscheidt

    • Não sei que jogo de Dreamcast é esse, mas fiquei curioso. Acho essa temática de “máquinas ganhando consciência” fascinante, mesmo já tendo se tornado um clichê.

      E,quanto aos spoilers, fique tranquilo, nossos reviews são 100% spoiler free, haha. Quando queremos discutir a história de um jogo de forma mais aprofundada, fazemos um artigo separado da análise, como o “Depois do Fim” ou o “Além do Review”. ;)

      • 27 de maio de 2018 às 03:08 -

        onigumo

      • Ah! bom saber, ficar de olho nos titulos dos artigos emtao pode ser uma boa. Tambem me fascino pela tematica, o importante e que a ideia seja bem trabalhada, “cliche” so e sinonimo de ruim se for condicionado por uma conduta preguiçosa.
        Meu irmao lembrou o nome do jogo! Chama-se omikron (pessoalmente nao me recordaria nunca), revisitando ele nao e tao legal como eu me lembrava, mas ainda assim cumpre a cota.
        PS: A proposito, voce sabe me dizer em que pe esta a sequencia de talos principle?

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