Análise Arkade: Grow Up mostra simplicidade e beleza na inocência de um mundo novo

26 de agosto de 2016
Autor: Paulo Roberto Montanaro

Análise Arkade: Grow Up mostra simplicidade e beleza na inocência de um mundo novo

Quando me peguei com a missão de jogar e analisar Grow Up de forma crítica, logo me veio a mente conseguir articular alguns dos elementos mais clássicos a serem avaliados quando se trata de jogos: história, jogabilidade, qualidade audiovisual, diversão e todos aqueles critérios mais tradicionais. Alguns minutos depois de iniciada a minha jornada, entendi o quão difícil seria racionalizar aquela vivência. Ainda que haja espaço para isso tudo, há certamente algo mais que não é tão simples assim traduzir. Missão aceita, vamos lá.

Grow Up, continuação de Grow Home, traz de volta o simpático e abobalhado robozinho B.U.D. em mais uma jornada de descoberta, exploração pueril e muita contemplação. É um jogo de movimentação 3D que aproveita bastante do que a plataforma Unity pode oferecer. O título em si, mais do que uma referência a uma continuação direta, capta com muita felicidade o espírito de amadurecimento do herói em sua busca pelo desconhecido.

Análise Arkade: Grow Up mostra simplicidade e beleza na inocência de um mundo novo

Uma história simples, não simplória

A princípio, somos rapidamente apresentados a uma situação delicada: em meio a um acidente, a nave de nosso protagonista, cuja IA que a controla é chamada de M.O.M., acaba se despedaçando e as suas partes caem espalhadas por um planeta alienígena totalmente desconhecido. Perdido e (quase) sozinho nesse lugar, cabe a B.U.D. reencontrar as peças da nave para conseguir retomar o seu curso.

Por mais que pareça uma premissa clichê de ficção científica que promete altas aventuras com esse robozinho esperto aprontando grandes confusões nesse lugar pra lá de estranho, logo nos primeiros minutos a proposta da desenvolvedora Reflexions fica bastante clara, principalmente para quem conhece o jogo anterior: Grow Up não é um jogo de ação – e talvez seja mais complicado de se classificar. Mas a experiência para a qual o jogo convida o jogador é, antes de mais nada, de contemplação.

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Aos poucos, como bem prevê o título, B.U.D. vai crescendo, amadurecendo e adicionando melhorias a si mesmo, possibilitando alcançar lugares cada vez mais altos. O grande desafio é evidente: alcançar a capacidade de subir mais e mais alto. Aliás, a morte, ou a aparente derrota, também é carregada de muito simbolismo: normalmente, ela advém da queda. E como todo processo de crescimento, você cai para subir de novo, para se levantar novamente.

Avançando aos trancos e barrancos

Facilmente, o jogador logo se verá dominando os controles básicos do jogo. Escalar, pular, correr sem coordenação são o que de mais básico pode haver. A condução dos primeiros minutos é bastante competente em te ensinar também a coletar o DNA de plantas para poder produzir sementes (ou seriam clones?) de cada espécime ali, algumas das quais fundamentais para o avanço dentro do jogo, já que te possibilitam saltar mais alto, subir em suas estruturas ou até usá-las como balão de gás.

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Assim, muito da experiência de Grow Up é conseguir escalar, via diferentes meios, até pontos onde se poderá encontrar uma nova peça perdida, cristais que podem melhorar os equipamentos do nosso herói, novas espécimes de plantas ou até desafios secundários. De forma muito orgânica e natural, o jogador estará usando as habilidades mais avançadas para subir até o ponto mais alto – e quando falo de ir alto, é alto mesmo!

Na questão da jogabilidade, porém, encontramos alguns probleminhas. O jogo não é difícil de se dominar e, não havendo inimigos de fato, os obstáculos são de fato dados pela capacidade de subir grandes alturas com precisão. B.U.D. não é só desajeitado em sua personalidade – carismaticamente abobalhado – mas também é um pouco destrambelhado. Em termos de controle, é muito trabalhoso conseguir controlá-lo com precisão em vários momentos, o que causa quedas bobas de forma recorrente.

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Isso acaba sendo um pouco frustrante, ainda que se possa considerar parte do charme e da particularidade do jogo. Afinal, há vários momentos onde a imprecisão de comandos atrapalha. Em algum instante, o jogador acaba se acostumando e se adaptando a isso, mas ainda assim, incomoda muito quando se sai destrambelhado só por andar em linha reta ou ainda mudar a direção do voo por um toque delicado no controle.

Outra questão que acaba destoando são alguns probleminhas de câmera. Como rege a tradição de jogos desta natureza, ela pode ser controlada e customizada via segundo analógico. Só que em vários momentos a mudança brusca dentro do jogo se torna um problema ao trocar o ponto de perspectiva e, assim, fazer com que o jogador perca a referência de distância e/ou direção para um pouso preciso ou um salto de fé.

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Todos esses pequenos deslizes, porém, acabam se tornando detalhes dentro do escopo maior do jogo. Grow Up é, antes de mais nada e como já dito antes, um jogo de contemplação. Não serão raras as vezes que o jogador se verá saltando de alturas incríveis, planando pelo planeta só para experimentar a sensação de olhar com calma, com cuidado, de literalmente admirar a paisagem, tal como num passeio descompromissado de domingo.

Audiovisual

Obviamente, tudo isso só pode ser possível a partir de um trabalho visual competente. Nesse sentido, o game traz uma proposta bastante simples no uso de elementos numa estética low poly (ou seja, constructos em 3D com um número muito pequeno de polígonos) que funciona bem, principalmente quando misturado a algumas texturas que trabalham luz, sombra e partículas com mais detalhes. O resultado é muito bonito, a seu modo.

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Ainda assim, o jogo não é livre de deslizes também na questão visual. É bastante comum, pela própria ousadia de o mundo ir se construindo a partir das ações do jogador, onde objetos se entrelaçam, as vezes até prendendo o próprio personagem, criando a necessidade de se recarregar forçadamente do último checkpoint. Há notadamente serrilhados muitas vezes aparentes. Novamente, porém, esses pequenos bugs e detalhes não comprometem de maneira drástica a apresentação do jogo.

O pequeno planeta dotado de nuances climáticas é colorido e cheio de vida, que vai das plantas mais estranhas até borboletas bem curiosas que querem muito ver o que B.U.D. anda fazendo por aquelas bandas. As gigantescas plantas estelares dão um toque especial a medida em que o jogador pode fazê-las crescer e florescer a seu favor, criando um aspecto único para elas e dando um toque de singularidade ao planeta inteiro.

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Destaque ainda para a banda sonora, que transmite a tranquilidade e a serenidade necessárias ao jogo. A música é agradável e funciona bem, portanto. Já efeitos sonoros e ambiência são econômicos, as vezes até demais. Muitos ruídos se perdem durante a jogatina e fazem falta quando se está “de cara para o vento” ao lado de abelhas passando por uma enorme planta. Notou-se ainda, durante os testes para essa análise, algumas mudanças incompreensíveis no volume do som, algo bem estranho.

Conclusão

Grow Up é uma experiência muito agradável e certamente recomendada. Carrega consigo alguns probleminhas bobos, mas nada que o comprometa enquanto experiência. Como dito no começo deste texto, é um jogo difícil de racionalizar objetivamente, já que olhando de forma fria, não é tão diferente assim de tantas outras iniciativas indie que povoam o mercado atualmente. Contudo, sua capacidade de encantar pelos detalhes mais simples é algo a ser valorizado.

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Não estranho, portanto, é o fato de que ao finalizar o jogo ao atingir o objetivo principal, o jogador sinta uma certa tristeza e assuma para si a realização de 100% de todas as tarefas não só como uma pura obrigação de não deixar nada inacabado (série Arkham, sim, estou falando de seus troféus do Charada), mas sim como uma pura desculpa para continuar passeando descompromissadamente por aquele mundo. E quando um jogo consegue fazer isso com o jogador, seu papel está cumprido.

Grow Up está disponível para Playstation 4 (sistema onde foi jogado para a realização desta análise), XBox One e PC.

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