Análise Arkade: HUE é um puzzle game cativante que dá uma aula no uso de cores no design

30 de agosto de 2016
Autor: Paulo Roberto Montanaro

Análise Arkade: HUE é um puzzle game cativante que dá uma aula no uso de cores no design

Contextualizando

O trocadilho para jogadores brasileiros é inevitável. Como não ler o nome desse jogo e não se lembrar da famosa expressão da zoeira tupiniquim HUEHUE BR, pela qual ficamos conhecidos internacionalmente? Pois bem, a boa notícia (ou má para quem esperava um jogo de comédia nacional) é que este não e um jogo tipo “zoeira never ends”. Hue (que pode ser traduzido como matiz) na verdade, é um jogo bastante sensível e que trata de questões emotivas com muita leveza e muita cor.

Isso não faz de Hue um jogo absolutamente introspectivo. Na verdade, este é um jogo bastante dinâmico, com a pegada clássica de um puzzle de plataforma 2D. O diferencial aqui é seu “poder” de mudar as cores do background e, com isso, resolver os mais diversos enigmas para avançar. Com um visual que sabe conciliar bem um trabalho com formas e silhuetas com todo um dinamismo conceitual com as cores, verdadeiras estrelas do game, Hue consegue encantar sem abusar ou exagerar na dose.

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O termo Hue, contudo, não é somente uma referência direta às cores. Hue é também o nome do protagonista, um garotinho que se encontra sozinho e está em busca de sua mãe. Sua meta é encontrar artefatos de cor que ajudarão a abrir caminho para alcançar o seu objetivo. entre um puzzle e outro, você também poderá ajudar outras pessoas que encontrar em sua jornada.

Simples de aprender, nem tanto para dominar

Em termos de gameplay, Hue é muito bem-sucedido em seu princípio de condução. Sem nenhum tipo de tutorial explícito ou separado, o jogador é convidado e aprender cada uma das mecânicas do jogo enquanto joga, de forma muito orgânica e natural. A cada nova cor adicionada ao espectro de alcance de nosso herói, novas funcionalidades também são incorporadas aos desafios. Quanto mais cores, mais complexos vão ficando os quebra-cabeças do jogo.

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Cada nova sala encontrada representa um desafio novo. Há um equilíbrio entre raciocínio lógico, planejamento estratégico e precisão na ação. Muitas vezes, o desafio é saber exatamente como explorar o ambiente para alcançar o objetivo. Em outras, será a rapidez e a habilidade de comandos que serão exigidas. Mas na grande maioria do tempo, ambas as capacidades deverão ser combinadas. Tudo isso enquanto você  acessa em tempo real a “roleta” de cores, alternando entre cada uma delas para manipular o espaço.

Na prática, funciona assim: ao selecionar uma cor na “roleta”, todo o background do jogo assume essa cor. Com isso, lasers, caixotes e plataformas daquela cor desaparecem. Mude a cor de novo, e novos elementos podem ficar visíveis (ou não). O segredo é ir mudando a cor do background conforme os obstáculos vão sendo apresentados.

Tipo assim, ó:

Para não estragar surpresas, não vamos entrar aqui em detalhes do que pode ser mudado pelo protagonista ou por outros elementos do mundo do game, mas acredite: sempre que você achar que conseguiu dominar os conceitos apresentados, algo novo estará lá para desafiá-lo novamente. Não há zona de conforto em Hue. Até o último nível, onde basicamente todas as habilidades aprendidas serão testadas, o jogador jamais terá sossego.

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Quando você acha que está dominando o gameplay… surgem jatos de tinta que mudam as cores das coisas! :o

Na versão usada para essa análise (a de PS4), os controles são bem definidos para maximizar o controle que carece de precisão. Enquanto um direcional se encarrega do movimento do personagem em si, o outro é responsável pelo acesso ao menu de cores. Quando cheio — há um total de 8 cores a serem desbloqueadas — é necessário um pouco de prática e de paciência para que se domine os comandos, já que em momentos mais delicados, a diferença entre uma direção e outra dentro da “roleta” de cores pode ser fundamental no sucesso ou no fracasso.

Audiovisual

Com uma trilha sonora singela (quase melancólica) que é capaz de te encantar e te envolver naquele universo, Hue consegue encontrar no minimalismo artístico sua melhor arma. Efeitos sonoros pontuais e uma narração repleta de sentimento e de leveza completam a banda sonora muito bem realizada do jogo em sua proposta.

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Repare nos “recortes” coloridos que dão charme aos elementos do cenário.

Ao usar de uma estética “de negativo”, se assim podemos definir, o game consegue dar destaque ao que realmente importa sem, contudo, abrir mão da beleza e do fascínio. As construções são muito bem marcadas e delimitadas, e mesmo na simplicidade purista do visual, temos silhuetas e arabescos muito caprichosos. Mesmo os personagens possuem formas simples, mas são muito expressivos. Aqui, o conceito de que “menos é mais” é muito bem aproveitado e explorado.

Ao mesmo tempo, os movimentos tanto do protagonista como dos elementos do ambiente são muito fluidos. A animação do jogo, sem qualquer tipo de exagero, é muito agradável e transmite a sensação de controle que o jogo necessita. Não há elementos demais na tela, não há elementos de HUD desnecessários, tudo parece contribuir para que o jogador mantenha o foco na solução dos puzzles ali colocados.

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Parece complicado… e é mesmo!

E, claro, o que mais se destaca neste jogo é seu level design primoroso: os puzzles são complicados, mas nenhum deles parece injusto. Em todos eles, você precisa realmente estudar o cenário, decorar padrões, tentar, errar, buscar outra estratégia. Cada sala de Hue é um pequeno universo, e você precisa entender como ele funciona se quiser superá-lo e seguir adiante.

Acessibilidade para daltônicos como eu

Sim, senhores! Ao receber a missão de fazer a análise de um jogo que usa de cores e nuances em sua essência fundamental, logo me veio a lembrança longínqua de quando admirei publicamente uma belíssima pintura com tons de azul e aí, com muita surpresa, as pessoas que me acompanhavam soltaram a frase que me acompanha desde então: “mas é roxo!“. Pois é, ainda que seja talvez o nível mais ameno dessa condição, sou daltônico.

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Então, voltemos ao Hue. Como conseguir aproveitar, de forma plena, um jogo que traz as cores como elemento tão fundamental de suas mecânicas? Pior: a primeira cor a ser liberada é o famigerado roxo – e a fala que se ouve logo confirma a minha suspeita. A segunda, é um azul claro. Em algum momento, ainda surge o azul escuro, e depois um rosa. Estaria eu ferrado, não fosse uma solução muito bem planejada in game: existem símbolos que acompanham as cores para ajudar pessoas como eu.

Repare nos ícones dentro de cada cor na imagem abaixo. Com eles, mesmo quem não enxerga corretamente as cores pode jogar numa boa, identificando os símbolos:

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Cada uma das cores carrega consigo um ícone único que as identifica. Para habilitá-los, basta acessar o menu. Segundo os próprios produtores do jogo, esse a novidade foi acrescentada graças a um estudo que foi realizado junto a grupos com algum nível de daltonismo. Isso resultou em um sistema muito prático de reconhecimento que pode ser visto nas telas de captura que ilustram esse texto. Fiquei impressionado em saber que somos cerca de 10% da população.

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Repare nos ícones diferentes para cada cor.

Estes 10% correspondem a milhões de pessoas que poderiam ser levianamente excluídos da experiência de Hue devido ao daltonismo. Felizmente, graças à sagacidade deste sistema de ícones, todos podem desfrutar dessa jornada, independente das cores que consegue ou não enxergar. Nota 10 pela atitude inclusória!

Conclusão

Hue certamente é daqueles jogos que poucos de nós daríamos atenção não fosse o título nos ser tão “familiar”. Um jogo de plataforma com resolução de puzzles que usa a manipulação de cores como seu mote principal é, certamente, daquelas descrições que não encontramos todos os dias, principalmente em se tratando de jogos grandes.

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Assim, Hue é um game acessível a todo o público — todo mesmo! — e que é recomendado não só para os fãs de jogos indie, ou mesmo os aficionados em resolução de puzzles cabeludos, mas sim para todo mundo que se apega a um desafio que agrega planejamento estratégico e precisão.

Em resumo: Hue é um jogo agradável, que consegue dosar bem o nível de desafio e a recompensa, sem parecer nem bobo, nem frustrante demais. Oferece entre 5 e 8 horas sinceras de campanha principal (dependendo da habilidade do jogador em solucionar os desafios) e traz aquela sensação gostosa de dever cumprido…. tudo isso acompanhado de uma historia super bonitinha, mecânicas muito criativas e level design primoroso.

Hue está sendo lançado hoje (30/08) para Playstation 4, XBox One e PC. Em setembro, o Vita também deve receber sua versão do game.

Uma resposta para “Análise Arkade: HUE é um puzzle game cativante que dá uma aula no uso de cores no design”

  • 31 de agosto de 2016 às 09:54 -

    Glauco Lima

  • que conceito legal adorei o estilo do jogotomara que a versão de vita saia logo pois ainda não tenho ps4 nem xone kkkkkkkk

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