Análise Arkade: em busca do respeito dos deuses em Jotun: Valhalla Edition

8 de setembro de 2016
Autor: Paulo Roberto Montanaro

Análise Arkade: em busca do respeito dos deuses em Jotun: Valhalla Edition

A mitologia nórdica ainda é um campo pouco explorado pelos meios de cultura e entretenimento quando comparada à grega ou mesmo à egípcia, realidade essa que parece caminhar para uma transformação. A presença de divindades e heróis nórdicos em produtos multiculturais como o vindouro novo God of War, a série Alma de Ouro (spin-off de Cavaleiros do Zodíaco) e a presença de Thor no universo cinematográfico da Marvel têm trazido alguns de seus mitos para um público mais amplo. Mas ainda é pouco.

Afinal, todos eles ainda são fruto de misturas, de modos de usar elementos daquele universo dentro de contextos que nos são mais conhecidos, mais confortáveis. Por outro lado, Jotun, game lançado para PCs no ano passado e que agora chega aos consoles da atual geração se propõe a embarcar em um barco viking para adentrar nessa mitologia, permitindo-se ousadamente buscar o tom épico que permeia outros conteúdos culturais que tratam de mitologia sem fazer concessões palatáveis.

Análise Arkade: em busca do respeito dos deuses em Jotun: Valhalla Edition

Uma rica e impressionante narrativa

Ao adentrar o universo de Jotun, tudo ali nos permite mergulhar em um universo incrível, complexo e fascinante. De cara, nos encontramos na pele de Thora, uma guerreira nórdica que acaba de ter uma morte sem nenhuma glória e que se vê em campos calmos sem entender bem o que a levou até lá. Ao avançar e vencer os perigos que se apresentam tendo como arma somente seu fiel machado, ela logo se vê diante a gigante elemental da natureza. Essa é sua primeira provação diante os deuses.

Ao vencê-la, a guerreira irá se encontrar no Vácuo, chamado também de Gnnungagap, uma espécie de limbo (ou purgatório na tradição cristã), onde ganha uma nova chance de impressionar os deuses para assim conquistar o direito de atravessar os portões de Valhalla, lar eterno dos grandes heróis. De lá, poderá acessar outros diferentes mundos elementais, onde novos perigos e desafios esperam por ela em sua busca.

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A jornada para alcançar essa honra, porém, não é nada fácil. Adentrando 5 mundos diferentes, ela deverá vencer os obstáculos e desafios até, enfim, ter o direito de enfrentar os 5 gigantes que os dominam — estes, os chamados Jotuns. Neste tortuoso e complicado caminho, poderá contar com a ajuda de alguns dos mais importantes deuses do panteão nórdico, que poderão conceder graças como o poder do Mjolnir, martelo de Thor, ou a renovação da vida, concedida pelo sábio Mimir.

Ou seja, o jogo fica bem definido em uma narrativa que viaja por 5 mundos, cada qual com o seu chefe, mas que podem ser percorridos na ordem que o jogador quiser. A única limitação é a própria sala onde se encontra o grande Jotun, que só pode ser acessada ao se encontrar as runas escondidas nas outras duas fases daquele mundo. Narrativamente, portanto, cada mundo funciona independente do outro, e juntos eles compõem um grande mosaico que permite uma maior imersão do jogador dentro do rico universo desta mitologia.

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Audiovisual

Para contar uma jornada épica, o desafio da desenvolvedora indie Thunder Lotus Games era conseguir traduzir em termos visuais todo o deslumbre desta mitologia. E, felizmente, o cuidado técnico agrada e traz para Jotun toda a grandiosidade que se espera dele. Melhor que isso, carrega em si aspectos únicos que, ainda que possam beber de algumas fontes — como God of War, Diablo, Shadow of Colossus e Bastion — conseguem estar cheios de personalidade e fascina pela sensibilidade artística de sua concepção estética.

Com ilustrações feitas a mão, há de se enaltecer a riqueza de detalhes em cada personagem, dentre eles a própria protagonista que, por vezes, parece só uma formiguinha em comparação a grandiosidade de seus adversários. Valer destacar ainda as escolhas da equipe de produção em usar uma heroína feminina sem cair na óbvia sensualização da personagem, tão presente em obras de fantasia medieval nos games e em outras mídias. Nada de roupas mínimas, nem curvas acentuadas. Thora é uma guerreira nórdica. Sem exageros. Sem tentativas de fan-service banal.

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O jogo peca, porém, exatamente por buscar esse caminho artístico, já que a criação de movimentos quadro-a-quadro é algo dispendioso demais. Se as animações e movimentos de Thora são muito agradáveis, não se pode dizer o mesmo de muitos de seus inimigos, principalmente os mais comuns. Mesmo sendo poucos em variedade, eles não contam com a mesma fluidez de movimento, contando com animações mais truncadas. Ao tomar dano, por exemplo, nem todos sequer tem sprites específicos. Alguns inclusive explodem, o que facilita em termos visuais, mas deixa uma sensação estranha.

em termos sonoros, Jotun é um dos melhores trabalhos em termos de mercado indie que podem ser encontrados hoje. Ruídos muito bem trabalhados para movimentos, objetos e efeitos climáticos conseguem transportar o jogador para dentro de cada um dos diferentes ambientes retratados no jogo.

A trilha musical é muito bem resolvida, orquestrada magistralmente, enfatizando os momentos mais épicos e tensos da aventura, e figura fácil entre as melhores do ano até aqui, mesmo quando comparada a produções de grande orçamento. Trabalha desde os graves batuques de pedras e fogo até o mais ácido e agudo som dos violinos para emular o raio e a velocidade. Uma aula de mapa de som, com certeza.

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Ou seja, apesar de alguns pequenos deslizes estéticos, Jotun é uma composição artística muito bem resolvida, que traduz a grandiosidade dos cenários e das batalhas de forma muito singular, sem deixar de lado a inspiração artística do traço a mão e da gravidade épica em sua trilha sonora. Um deleite para olhos e ouvidos, daqueles que certamente o jogador se verá parado admirando as paisagens caprichosamente exibidas pelo jogo, principalmente quando ele se permite afastar o ponto de vista para criar a sensação das dimensões daquele universo.

A difícil jornada em busca da redenção

Antes de mais nada, é importante pontuar que Jotun não é um passeio no parque (por mais belos quesejam os cenários) e a jornada que pode ser fascinante também será punitiva e, muitas vezes, um pouco frustrante pela dificuldade, sobretudo quando enfrentamos os gigantes chefes do jogo. É fundamental, acima de tudo, paciência e um certo grau de disciplina para superar os diferentes desafios. Cabe a máxima de entender o inimigo e encontrar as brechas para atacá-lo.

Em contrapartida, o jogo permite que se circule livremente por entre os diferentes mundos presentes. Ao acessar o Vácuo, que é uma espécie de hub em termos práticos, há caminhos para cada uma das fases do jogo, onde estão distribuídas não só as runas necessárias para abrir os portões do chefe principal, mas também a maça de Ithunn que permite aumentar a barra de vida, bem como as graças divinas que concedem poderes especiais à Thora.

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Assim, a organização do jogo, mesmo com essa liberdade de exploração, remete bastante à clássica organização do jogo em núcleos — ou mundos — com duas fases de exploração e coleta de itens e uma terceira com o chefão. Aos mais saudosistas, nenhum exemplo é mais óbvio que os jogos do Sonic The Hedgehog, onde as fases que antecedem a provação principal lhe dá os subsídios para encarar o grande desafio. A possibilidade de não-linearidade remete um pouco a Megaman, só que com a praticidade de não precisar jogar tudo que antecede o chefe sempre que sair e voltar.

Pensando por esse viés, o caminho que parece mais interessante é o de passar por todas as fases antes de enfrentar os grandes chefes. Desta forma, é possível upar todas as características antes dos maiores desafios. Chegar com a barra de vida com o tamanho máximo ao mesmo tempo que se ostenta diferentes habilidades e poderes ajuda demais nas tarefas mais árduas e trabalhosas do jogo e, mesmo assim, é necessário estudar bem cada movimento a ser feito. Veja abaixo o vídeo de gameplay que gravamos de uma das batalhas contra os Jotuns. Nesse exemplo, Isa, elemental do gelo:

Cada chefe tem o seu modus operandi próprio. Depois de algumas mortes, é possível já desenhar uma estratégia contra cada um deles, inclusive na forma do uso de cada uma das habilidades adquiridas. Só que aí há outra questão: a jogabilidade tem uma certa limitação de movimentos, e por vezes acaba ficando um pouco travada. Muitas vezes, o jogador se verá preso em um canto não conseguindo se mexer como gostaria pela colisão ser bastante rígida. Uma quina, por menor que seja, pode determinar um movimento, um golpe recebido, uma derrota.

Apesar disso, o design de níveis do jogo é muito bem construído, possibilitando ambientes labirínticos e armadilhas muito bem planejadas, exigindo um nível de raciocínio mais apurado para se alcançar as áreas de interesse. Por vezes, a exploração pode se estender para muito além do esperado exatamente por ser fácil se perder. Aí, o jogo carece de coisas a serem feitas durante a exploração. São poucas as fases que contam com inimigos, e estes sempre estão em lugares bem determinados.

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Em outras palavras, faltam elementos de craft. Ainda que pareça algo banal, faltam coisas a serem feitas em cada porção de terra (ou seja lá o elemento da vez). Faltam inimigos a serem derrotados, barris a serem quebrados, coisas a serem coletadas. A fase toda conta com um poço de recuperação de vida, um altar para conquista de uma novo poder, uma maçã e uma runa. Todo o resto do ambiente é só uma passagem. Mesmo bela, acaba dando uma sensação de vazio na interação entre personagem e ambiente.

Isso significa que a tarefa da exploração, em certos momentos, pode parecer enfadonha, principalmente quando se retorna a uma fase só para encontrar algo que faltou coletar. Tudo isso pode quebrar um pouco o ritmo e a imersão proporcionada por todo o resto, aumentando em demasia o tempo de jogo. Isso não necessariamente tira o brilho do jogo, mas certamente é algo em que se fica pensando nos momentos de exploração mais exaustivos. Quando o jogador começa a pensar no jogo durante a jornada, é sinal de que algo está faltando.

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Outra coisa que faria sentido é um melhor mapeamento para os controles tradicionais. Para usar habilidades especiais, é necessário navegar por entre eles e acioná-los com o botão de ação. Mesmo parecendo uma tarefa relativamente fácil, acaba sendo bastante trabalhoso dentro de uma batalha árdua que tem pouco ou nenhum espaço para se pensar, e, principalmente, vacilar. Se a configuração fosse algo próximo do que é Diablo III, com cada botão podendo invocar uma das habilidades, tudo seria mais dinâmico. A esquiva é outra que se beneficiaria do segundo analógico.

De qualquer forma, Jotun tem na simplicidade sua principal arma. Não há elementos complicadores, não há combos elaborados ou qualquer outra peripécia. Tudo é muito objetivo e direto, algo que faz sentido se pensarmos em uma guerreira viking que carrega um pesado machado de duas mãos. Os pequenos deslizes não são maiores do que os acertos do level design muito bem estruturado e o jogo equilibra bem entre benefícios e obstáculos.

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Conclusão

Jotun é uma experiência incrível. Aborda a mitologia nórdica como pouquíssimo se viu até hoje nas mais diferentes mídias e aprofunda alguns dos poucos conhecimentos que normalmente se tem sobre essa rica cultura. Thora é sem dúvida uma personagem muito forte e marcante e sua jornada ganha os contornos épicos merecidos graças a toda uma construção narrativa cativante e que cria a sensação das dimensões que tratam do divino, daquele plano superior. A escala é muito bem representada.

A dificuldade é algo que pode frustrar ou até afastar alguns jogadores, mas se por um lado pode parecer bastante punitivo, por outro ele se pretende justo ao dar a possibilidade de o jogador explorar todo o escopo do jogo para buscar melhorar, se aprimorar e aí tentar novamente. O game, portanto, cobra muito do jogador, mas em contrapartida oferece o suporte para que ele esteja amparado para conseguir cumprir o que dele é desejado. Nada mais coerente com a jornada de Thora.

Jotun já está disponível para PCs desde 2015 (via Steam) e nós já falamos dele na época. Agora ele está chegando ao Playstation 4 e XBox One e está disponível em formato digital a partir de amanhã (09/09/2016). É todo falado em islandês, mas caso você seja da pequena parcela mundial que não domina a língua, fiquem tranquilos: o jogo é todo legendado em português do Brasil.

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