Análise Arkade: o dificílimo MilitAnt resgata o feeling dos shooters de ação de antigamente

16 de julho de 2016
Autor: Paulo Roberto Montanaro

Análise Arkade: o dificílimo MilitAnt resgata o feeling dos shooters de ação de antigamente

MilitAnt chega parecendo uma espécie de mistura do aclamado filme da Pixar Vida de Inseto com a ação alucinante dos clássicos shooters de ação em 2D da geração 16 bits, com direito a deixar os mais experientes de cabelos em pé, ao mesmo tempo que busca se aproveitar de novas possibilidades de jogabilidade das novas gerações. A questão é: será que ele cumpre a promessa de forma satisfatória? É o que vamos descobrir agora!

Contextualizado

Se você tem por volta de 30 anos de idade, certamente deve se lembrar da geração 16 bits por Super Mario, Sonic, Street Fighter II, Mortal Kombat 3, Final Fight, Megaman X ou International Super Star Soccer Deluxe… e também por Contra e outros jogos que misturam progressão lateral com doses cavalares de ação, tiroteios desenfreados e chefes apelões que parecem impossíveis de derrubar.

Também vai se lembrar o quão irritados voltávamos ao começo da fase — ou, se havia vidas limitadas, ao começo do jogo — só para chegar lá e nos vingarmos do maldito com requintes de crueldade… ou morrermos de volta, vai saber. Bem, se você se lembra disso, ou mesmo resgatou essa loucura em algum momento da sua vida, vai saber exatamente do que tratamos aqui ao falar de MilitAnt, jogo indie produzido pela mexicana Xibalba Studios e que acaba de ganhar espaço nas plataformas da Sony e no Steam.

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História simples, como tem de ser

A narrativa do jogo é contada por meio de belas artes no começo de cada fase — que estão perfeitamente localizadas para o o nosso idioma com texto e locução em português brasileiro — trata da jornada de uma formiga “badass” treinada e muito bem armada enfrentando nações rivais de insetos e outras criaturas invertebradas para defender sua colônia. É uma guerra entre formigas, cupins, besouros, abelhas, e etc. Simples assim. O enredo, no melhor estilo clássico, não complica o que não deve. Dá subsídios para que se avance no jogo, e cada nova fase encadeia novas missões em terra ou no ar.

Porém, aquilo que muito poderia se assemelhar ao já citado Vida de Inseto, e até mesmo ao concorrente direto FormiguinhaZ, fica só no conceito. Aqui, a fofura dá lugar a uma guerra impiedosa entre as diferentes nações e não há espaço para o diálogo. O protagonista simplesmente deve atravessar os ambientes inóspitos arrasando tudo o que aparecer pela frente. Espere, portanto, hordas de inimigos, chefes gigantescos e tiros para todos os lados para te impedir de alcançar o seu objetivo.

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É só pular e atirar… #sqn

Em termos de jogabilidade, fica claro que o jogo presta respeito a tudo o que veio antes, inclusive a referência maior Contra, mas não se limita a emulá-lo. Ao contrário, cria uma série de funções e possibilidades bastante originais. A começar pelo arsenal a disposição do jogador.

Como um inseto que se preza, o protagonista possui 6 membros: ele anda sobre 2 pernas e possui 4 braços para carregar 4 armas de fogo distintas, e ainda consegue carregar 2 lâminas para ataques melee. Na prática, são 4 armas de fogo disponíveis ao mesmo tempo, que podem ser intercambiadas a qualquer instante pelo jogador ao pressionar de um botão.

Você começa com 4 armas iguais, mas ao longo da jornada pode visitar o Arsenal para comprar armamentos diferentes — lança-foguetes, escopetas, lança-chamas, metralhadoras, etc. — e equipá-los como quiser, aumentando o escopo de variação entre qual arma utilizar em cada situação. Acredite, isso será bastante necessário.

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De uma forma similar a Star Wars: Battlefront, a munição de todas as armas é infinita… porém, não pense que isso é sinônimo de mamata: as armas superaquecem a medida em que são usadas. Assim, ainda que o jogo permita que se mantenha o botão de tiro pressionado “eternamente”, as armas ficam inoperantes por superaquecimento, precisando de um tempinho de “cooldown”  para poderem ser utilizadas novamente.

Por isso, é fundamental não só alternar as armas a serem utilizadas, como também ser bastante cuidadoso para não “fritá-las” na hora errada e ficar vulnerável aos inimigos. Todas possuem uma barra de aquecimento visível, então fique de olho nisso para alterar para suas outras armas enquanto as primeiras resfriam.

Além das armas de fogo, ainda é possível utilizar o ataque melee com a lâmina. Esse ataque não só é importante quando se está cercado de inimigos, como também é fundamental para rebater os tiros inimigos no melhor estilo jedi. Complica um pouco quando há muitos inimigos de vários lados atacando ao mesmo tempo — como o jogo é 2.5D, os inimigos te atiram até “do fundo” da tela. É questão de pegar o timing da ação. Muitas vezes, áreas inteiras podem ser superadas mais facilmente usando principalmente essa estratégia.

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Contudo, uma das maiores inovações nesse sistema de ataque é aquele que mais demora a ser dominado pelo jogador, que é o foco de tiro. Usando o segundo analógico (no caso das plataformas da Sony) é possível direcionar o foco de tiro para um inimigo em específico, mais ou menos como em um twin stick shooter.

Em tese, isso ajuda bastante a continuar atirando diretamente nele mesmo que em movimento (e dificilmente se fica parado no jogo). O problema é que a função não é tão natural quanto deveria pela dinâmica intensa do jogo. Em momentos de maior ação e de múltiplos atacantes, acaba se tornando muito complicado estabelecer o foco em apenas um inimigo. A situação fica mais complicada ainda porque o tiro “cego” (sem esse recurso de foco) é virtualmente inútil. O foco ajuda demais em batalhas contra chefes ou sub-chefes de fase, mas é um desafio e tanto fazer bom uso dele contra os inimigos normais.

Aí vai um gameplay contra um sub-chefe:

Além dos movimentos de ataque, o jogo possibilita ainda o famoso pulo duplo para subir em plataformas e paredes, bem como um movimento de dash, no melhor estilo Megaman X, fundamental para movimentos de esquiva ou mesmo para o avanço rápido e direto por entre os inimigos. E você vai precisar (tentar) dominar tudo isso se quiser superar todas as fases do jogo, que são relativamente longas o suficiente para ter vários checkpoints. Em vários momentos você vai REZAR para alcançar o próximo antes da morte iminente.

MilitAnt consegue, portanto, somar qualidades de clássicos com boas inovações para se tornar uma homenagem e, ao mesmo tempo, algo original e único. Contudo, a soma de tantos elementos e funções acaba por muitas vezes complicando mais do que deveria, criando um nível de dificuldade que beira o absurdo.

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Com isso, queremos dizer que muito da dificuldade do jogo acaba sendo causado não só pelo desafio em si (que já é bem grande), mas também pela própria complexidade de seus controles e combinações. Isso pode irritar um pouco pela sensação de ser mais difícil do que deveria exatamente por todas as funções disponíveis.

Difícil ? Sim. Impossível? Só as vezes.

O design de níveis do jogo é bastante competente, fornecendo um desafio crescente e contínuo. Não há segredos ou muitos caminhos alternativos; o avanço é linear — ainda que tenhamos alguns itens escondidos que são essenciais para a compra de novas armas –, mas em termos gerais, o andamento é direto, objetivo e bem estruturado.

Há alguns problemas, claro, quando pouco se pode ver o que vem adiante e o avanço acaba sendo pautado na tentativa e erro, como em trechos de plataforma com queda livre, por exemplo. Salvo estes momentos, no geral as fases são muito bem desenhadas. E desafiadoras. Muito desafiadoras.

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Não dá pra negar o nível de dificuldade elevado de MilitAnt. Desde a primeira fase, fica claro que o jogador não terá vida fácil durante a jornada — e o próprio desenvolvedor do jogo nos alertou que o desafio é cabeludo. Uma ou duas bobeadas e tudo volta para o último checkpoint.

Durante a jogatina que fizemos para escrever esta crítica, foram vários os trechos onde morremos muito mais do que o esperado. As vezes, a sensação de que falta um pouco de precisão nos controles de salto somado ao dash eram presentes. Por exemplo, o salto duplo nem sempre funciona como o esperado. É preciso se adaptar a estas limitações e se tornar bom o suficiente para avançar apesar delas.

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Algumas fases remetem aos “jogos de navinha” de antigamente, como Gradius.

Boss Battles épicas

A batalha contra chefes e sub-chefes é um capítulo a parte. Quase toda fase conta com ambos, e fatalmente terminam com um inimigo que vai dar muito trabalho e que vai precisar de paciência. A criatividade aqui também se faz muito presente: há inimigos não tão maiores que você, mas absurdamente rápidos e apelões, e há aqueles chefes gigantes que ocupam quase a tela inteira.

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Como nos clássicos do gênero, todos eles têm um padrão de ataque e defesa, mas ao contrário de outros jogos do tipo, nem sempre é possível prever e se adaptar a esses padrões, já que pequenas variações quebram um pouco qualquer plano de previsibilidade.

Confira abaixo nosso gameplay contra o primeiro chefe, um enorme besouro:

O fato é: a dificuldade se mantém elevada o tempo todo, com raros respiros. As vidas são infinitas, mas mesmo assim não são raros os momentos em que você se sente frustrado e pode acabar dando um “rage quit”. Contribui para isso a barra de vida exagerada extensa de alguns chefes que obrigam o jogador a repetir os mesmos movimentos e ataques por muito tempo. Até a escolha errada de armas pode complicar sua vida. As batalhas são longas e para piorar, em alguns casos os chefes possuem ataques do tipo “one hit kill”, que te matam na hora e são insuportáveis.

Audiovisual

Esteticamente, o jogo é muito bonito. O modelo dos personagens se aproxima de FormiguinhaZ, um estilo mais agressivo que a fofurice de Vida de Inseto. Os ambientes são bem variados, com camadas e mais camadas de eventos acontecendo em diferentes planos. Ainda que a movimentação seja basicamente em duas dimensões (o famoso 2.5D), há uma sensação de que aquele mundo é muito mais amplo, com a guerra e outros eventos (e inimigos te atacando) ao fundo.

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Os inimigos são relativamente variados e diferentes entre si e, portanto, o jogo é muito agradável em termos visuais, ainda que repetições sejam presentes pelo simples volume de inimigos. São cupins, vespas, besouros, aranhas e tantos outros, cada qual com um design que mistura o corpo do inseto com apetrechos bélicos e armaduras.

Pena é que sobre tão pouco tempo para vislumbrar o horizonte, já que tudo está tão caótico e desenfreado que poucas vezes, a não ser nos centímetros que antecedem a batalha contra o chefe, é possível olhar em volta com calma para apreciar a bela arte do jogo. Há, claro, algumas texturas mais feinhas aqui e ali e alguns pequenos bugs, mas em termos gerais, o conjunto da obra é bem agradável.

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Em termos de efeitos sonoros, a mixagem é também muito competente. Cada arma tem seu som característico muito bem identificável – o que acaba sendo importante já que nem sempre se pode identificar as armas que estão em mãos. As músicas são belíssimas e as criadas para os chefes de fases são incríveis, épicas e cativantes, fruto do trabalho de Gerard Marino — mesmo compositor das trilhas memoráveis da franquia God of War.

Tudo soa tão épico e grandioso como deveria, já que o jogo tem uma escala gigante dentro do mundo minúsculo onde se passa, algo muito bem explorado e que lembra cenas de Homem-Formiga, Reino Escondido e Querida, Encolhi as Crianças. Aquela ideia de uma grande guerra rolando no seu quintal, saca?

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Conclusão

MilitAnt, definitivamente, não é para qualquer jogador. Suas qualidades são muitas, suas referências são as melhores possíveis e o resultado final é muito acima da média, destacando o game dentro do cenário indie e mesmo diante de produções muito mais caras e badaladas.

Contudo, a dificuldade elevada do game e a complexidade de se dominar seus controles pode afastar jogadores mais casuais. A indisponibilidade de um “modo easy” para possibilitar uma experiência mais acessível para um público mais amplo acaba sendo uma escolha justificada, já que a proposta do jogo é exatamente essa, mas isso ao mesmo tempo deve limitar o número de interessados.

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Com visual 2.5D inspirado, trilha sonora cativante e gameplay complexo, MilitAnt mas funciona qualidade técnica apurada, mesmo com alguns deslizes pontuais. A jogabilidade é algo de difícil domínio e alguns momentos pode frustrar, destoando um pouco da máxima do universo do game design “easy to learn, hard to master”. A demo (que pode ser baixada de graça) já é capaz de assustar, mas é bom que você experimente-a e veja se é capaz de encarar.

Em termos gerais, se o jogador estiver disposto a encarar o desafio, é de fato um jogo muito bem produzido e que merece destaque, principalmente sendo uma produção latino-americana que não só resgata sentimentos e referências de clássicos, mas principalmente por ser muito bem sucedido naquilo que se propõe.

MilitAnt foi lançado dia 12 de julho com versões para Playstation 4 e para PC via Steam. Futuramente ele também deve chegar ao Playstation 3 e ao PS Vita (com direito a cross-save e cross-buy entre as plataformas) O game está 100% em português brasileiro.

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