Análise Arkade: Niffelheim e a eterna busca pelo Valhalla

6 de outubro de 2019
Autor: Paulo Roberto Montanaro
Análise Arkade: Niffelheim e a eterna busca pelo Valhalla

Definitivamente, a cultura nórdica estão ganhando espaço na indústria do entretenimento. Se ela sempre foi uma sombra, uma alternativa (se assim podemos dizer) à grega, cada vez mais suas divindades, seus costumes e seus valores ganham novas leituras no mundo pop. A série Vikings ou o mais recente título da franquia God of War talvez sejam seus maiores expoentes na atualidade, mas isso não significa que estão sozinhos.

Niffelheim, desenvolvido pela Ellada Games, segue na mesma esteira de Die for Valhalla!, Tyr: Chains of Valhalla e Jotun (estou começando a me especializar em games sobre o mundo nórdico), e todos parecem ter um grande ponto em comum: a busca pela redenção do guerreiro nas terras férteis e no reconhecimento divino do Valhalla. Neste novo game, não é diferente. A morte não é o fim e a busca pela glória é árdua.

Análise Arkade: Niffelheim e a eterna busca pelo Valhalla

Em busca do Valhalla

Niffelheim (mais fácil de se encontrar nas pesquisas como Niflheim) não é tão simples de se entender enquanto lugar. Em alguns escritos, é um dos nove mundos da mitologia nórdica que, de certa forma, se sobrepõe de Nilfhel e Hel, um meio termo entre vida e morte. O tal mundo das névoas já foi representado em outras obras (como o já citado God of War), mas aqui, ele é mais fácil de se relacionar, ainda que seja um lugar inóspito e muito, muito solitário – ao menos no começo.

Nosso herói (ou heroína, como no caso da escolha para esta análise), selecionado dentre as 4 classes básicas – aqui chamados de Vikings, Valkírias, Berserks e Xamãs – desperta em uma das quatro regiões do mapa (escolha também do jogador) e precisa encontrar as peças que levam a Asgard. Um objetivo que se mostra bastante difícil e dolorido, uma vez que a jornada pelos campos de Niffelheim é cheia de perigos, com criaturas que não parecem estar muito convencidas a te ajudar.

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A exploração do mundo do game não é linear, ainda que a movimentação se dê de forma 2D lateral. Cada uma das regiões é dotada de algumas masmorras e outras construções que escondem mistérios, inimigos poderosos e, claro, as peças das quais você precisa. E, importante dizer: você começa longe de estar preparado para elas. E, sozinho, precisa criar toda a estrutura que lhe dará essa chance.

Explorando, coletando, morrendo

A essa altura, parece claro: Niffelheim é um RPG pautado no crafting, na gestão de recursos e na evolução de personagem. Sua meta está basicamente definida em tentar sobreviver, coletar recursos, se defender das ameaças – que as vezes vem até você para destruir o pouco que foi feito – e ganhar condições de criar ferramentas, armas e outros adicionais que lhe darão chance de enfrentar os inimigos mais poderosos, aqueles que, no final, são os que escondem as peças das quais você precisa.

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Os controles são bastante eficazes, mesmo com tantas funções diferentes. Logo, coletar itens com um ou outro comando será naturalizado e mesmo o mapeamento de recursos de acordo com o perfil do jogador – que pode colocar itens de cura, poções de ataque ou encantamentos nos atalhos – é altamente customizável e fácil de se utilizar, inclusive pelo ótimo trabalho de HUD que consegue equilibrar praticidade sem poluir demais a tela do jogo.

Assim, é possível – e necessário – explorar o ambiente coletando madeira, fungos, metais, abóboras, carne, temperos e componentes alquímicos, de preferência durante o dia, porque a noite as coisas ficam perigosas e animais selvagens e outras criaturas, como guerreiros esqueléticos, ficam vagando pelas terras frias e escuras e podem se mostrar um boa dor de cabeça. Evitar o conflito é uma dura, mas necessária lição no game, porque tirando os recursos dropados pelos inimigos, há muito mais a perder do que a ganhar.

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Explico melhor: o combate não é dos mais ágeis – e realmente não é essa a intenção – e as ferramentas tem duração finita. Ou seja, construir a melhor das espadas não significa tê-la em mãos até o final da jornada. Ao contrário, armas, machados, picaretas, peças de armadura, tudo tem um desgaste acentuado. Há batalhas contra chefes ou hordas maiores onde você vai precisar ter duas, três, até quatro armas diferentes para não terminar tendo que enfrentar trolls enormes a socos e pontapés. E fabricar mais custa caro. Só não é mais caro que ficar sem, ser derrotado e saqueado.

Dito isso, algumas escolhas de design parecem exageradas. As barras de saúde e de saciedade tomam um atenção constante e, por vezes, precisam de atenção demais. Como a comida, na maioria das vezes, atende ambas as necessidades (ainda que consumi-las cruas ou comer algo não muito saudável possa aumentar uma em detrimento da outra) parece que se preocupar com a fome, ainda que funcione bem diegeticamente, é um exagero. Algumas missões também carecem de informações básicas – como por exemplo preparar algo em um tempo definido – e a punição vem antes mesmo de se ter a capacidade de atender o pedido.

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Resumindo, prepare-se para ser testado desde o começo. As vezes, as tarefas que surgem estão claramente acima de suas capacidades, e algumas não podem ser procrastinadas até que dê para atendê-las. Então, muitas vezes será necessário bater em retirada de uma luta pesada demais, ou mesmo aceitar que a derrota é certa. Ou porque lhe faltam equipamentos para equilibrar uma luta, ou ainda porque você sequer conseguiria forjar algo que lhe sirva para isso. Seja como for, recomeçar é sempre uma opção. Mais do que isso, uma necessidade.

Assim, o confronto em Niffelheim é secundário e só deve ser encarado quando for extremamente necessário ou para conseguir os principais recursos, ou quando sua base estiver sob ataque. A maior parte do tempo do jogo será escavando, explorando masmorras subterrâneas, buscando alimentos e poções para manter a saúde, e tentando se preparar para as batalhas que realmente importam. Não a toa, até agora matei muito mais sapos, porcos e galinhas do que inimigos. É o dia-a-dia, literalmente contado no HUD.

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Mesmo com todos os cuidados possíveis, você irá morrer. Algumas vezes. Muitas, na verdade. Porque ainda que decidir se comportar de forma bastante conservadora, passando horas e horas só coletando consumíveis durante o dia e ficando dentro da base a noite, escavando minas e tudo mais, o perigo vai chegar e literalmente bater a sua porta. E sobretudo nas primeiras 10, 20 horas de jogo, ele será muito maior do que a sua barra de saúde. E quando a derrota chegar, sua alma volta a um ponto do mapa e aí a jornada será para encontrar seu corpo e retomá-lo, as vezes com menos saúde máxima. Sim… a vida pós-morte em Niffelheim é realmente difícil.

Como um todo, é importante destacar que este jogo está longe de ser dos mais frenéticos, onde a proposta é seguir em frente e acabar com ondas e mais ondas de inimigos com seu machado poderoso. Sem paciência para passar mais tempo cozinhando do que combatendo e sem a sensibilidade para voltar várias e várias vezes até a mesma masmorra para em algum momento ter os recursos para enfrentar os chefes, não se vai muito longe na trama. Quem estiver procurando um God of War em 2D, provavelmente não durará muito tempo aqui.

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Um belo mundo inóspito

Dizer que Niffelheim é um side-scrolling 2D é uma forma bem distante de tentar compreender o estilo artístico adotado no game. Afinal, não vemos aqui uma animação tradicional, muito menos um visual cartunesco. Também não é aquele tipo de jogo que popularmente foi chamado de “2.5D”. É outra coisa, que as vezes parece uma pintura a óleo, e em outros momentos lembra uma animação de recortes. Há um estilo muito peculiar e original que lhe confere muita beleza e profundidade.

A interface, contudo, está longe de ser simplificada, ainda que sejam organizada. Há menus dignos de grandes RPGs e, por vezes, lembram The Witcher III, por exemplo. São receitas das mais diversificadas para vários materiais, e também há muitos e muitos itens diferentes a serem adquiridos. Saber lidar com eles do jeito mais otimizado possível é uma das grandes habilidades que precisam ser dominadas o mais rápido possível. Não porque é necessário decorar o que cada poção faz – a explicação é tão didática como deveria ser – mas porque se preparar para cada situação depende do que se produz e o que disso vai junto com o jogador.

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As músicas do jogo não poderiam deixar de traduzir a grandiosidade de uma verdadeira jornada épica, com belas composições orquestradas e inspirações celtas e de outras regiões da Europa nórdica medieval. As composições abusam dos graves, dos efeitos de impacto e do tom dramático para fortalecer um tom de tensão contínua. O mesmo vale para a construção da ambiência e de ruídos cuidadosamente mixados. Vale a pena jogar em um sistema que valorize a composição sonora como um todo.

Até as telas de carregamento trazem um prazer visual único. São belas artes, quase que desenhadas a mão, com passagens e personagens que mais cedo ou mais tarde irão surgir em seu caminho, que podem ser bestas inimigas ou inesperados aliados. Há uma qualidade artística peculiar pouco vista em jogos e obras audiovisuais baseadas nesse universo. Se não há tantas construções e localidades em termos de volume, certamente o que existe foi muito bem projetado e esconde detalhes dignos. Um mundo aberto inesperado, mas surpreendentemente imersivo.

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O conjunto da obra é uma elaboração estética bastante polida. As animações não são as mais fluídas e traduzem, de certa forma, a dureza da estrutura do jogo, e pode agradar mais uns do que outros. Ambientes escuros fazem parte da rotina e há artifícios para deixar tudo menos apagado. Já os efeitos de dia e noite, névoa e partículas brilham ao longo da jornada.

Não há muito tempo para contemplação dos cenários, mas certamente quando houver um momento para vislumbrar o horizonte, não há decepção nos espaços abertos. Já os subterrâneos sofrem um pouco com a repetição de texturas. Se é proposital ou não, todos os corredores parecem iguais e deixam esses momentos um pouco mais arrastados. O resultado disso é sempre um sentimento de se estar cada vez mais perdido por entre os níveis, mas isso tem um custo visual.

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Conclusão

Niffelheim é uma grata surpresa, uma vez que traz uma experiência relativamente nova para o gênero RPG e para a ambientação nórdica. Um jogo para se experienciar com calma, valorizando muito mais cada pena de ave e cada pedaço de madeira acumulado do que a contagem de inimigos derrotados. Um game de sobrevivência onde cada conflito evitado pode significar um dia mais de trabalho. E se um jogo consegue criar tanto valor em um ensopado de abóbora quanto em um troll derrotado, ele tem méritos.

Claro que a dinâmica menos ágil e a narrativa arrastada podem não agradar a todos, e certamente a repetição pode acabar desanimando quem espera ver logo um dragão desperto ou as terras promissoras de Asgard, mas o caminho até o sonhado Valhalla não é feito de diversão e precisa ser árduo para que se tenha a sensação de merecimento. E se tiver que reconstruir um castelo de novo, que seja. A frustração de perder quase tudo logo dá lugar para a coragem de recomeçar e fazer melhor. É exatamente por isso que os deuses não aceitam qualquer um com as honras dos verdadeiros heróis.

Análise Arkade: Niffelheim e a eterna busca pelo Valhalla

Niffelheim já havia sido lançado para PC em 2018 e agora se encontra disponível também para Playstation 4, Nintendo Switch e XBox One, com textos em português do Brasil.

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