Análise Arkade: Quebrando as barreiras de realidade e tempo em SUPERHOT

2 de Março de 2016
Autor: Henrique Gonçalves

Análise Arkade: Quebrando as barreiras de realidade e tempo em SUPERHOT

Hora de entrar no complexo universo onde o tempo se torna o seu aliado e seu maior inimigo. Conheça SUPERHOT, um dos shooters mais inovadores dos últimos anos.

Dentro de um elevador eu me encontro na mira de uma pistola empunhada por um ser vermelho reluzente e uniforme, parecendo com um humano mas sem qualquer característica que nos dê afeição. Tem mais dois deles, um na minha direita e outro na esquerda, preparados para atirar em qualquer momento. O elevador está descendo para o seu destino e tenho poucos segundos para fazer algo que resulte em sair vivo daquele claustrofóbico lugar.

Eu consigo mover para a esquerda e utilizar o inimigo como escudo, pego sua arma e atiro no da direta e arremesso a minha pistola no que restou, consigo pegar a arma do inimigo que matei ainda no ar e me viro para a porta do elevador onde tem mais dois destes seres segurando escopetas. Atiro em um, jogo a minha arma no outro e pego a arma que está no chão do elevador para finaliza-lo, restando somente o humanoide original que estava apontando a arma na minha cabeça. Pego a escopeta que um dos seres estavam usando fora do elevador e dou fim na última ameaça que restou com uma chuva de balas, me cercando por estilhaços de corpos vermelhos que foram quebrados como vidro ao impacto das balas. As palavras “SUPER” e “HOT” aparecem na tela, seguidos por uma voz grave e tenebrosa repetindo as palavras “SUPER…HOT… SUPER…HOT …SUPER…HOT …SUPER…HOT”.

Análise Arkade: Quebrando as barreiras de realidade e tempo em SUPERHOT

“O TEMPO SE MOVE SÓ QUANDO VOCÊ SE MOVE”

A adrenalina em torno desta ação é completamente diferente do que vemos hoje em dia, o que parece imediato é na verdade uma série de movimentos friamente calculados que nos levam para a conclusão contada acima. Os dizeres “o tempo se move só quando você se move” aparecerem tapando quase a tela inteira no momento que você entra na primeira fase, apresentando o conceito principal de SUPERHOT. Enquanto você está parado o tempo se move em uma velocidade extremamente lenta, quase insignificante a primeira vista, se mova e o mundo volta ao normal naquele segundo com todos inimigos fazendo suas ações, sendo que todas incluem matar você da maneira mais rápida possível.

Este simples lema é a maior regra de SUPERHOT e também sua maior arma, te dando uma chance de pensar mais para fazer a próxima ação, seja esquivar da bala que está se aproximando e socar o inimigo para desarmá-lo e pegar sua arma ainda no ar para matá-lo, ou estilhaçar o inimigo com suas próprias mãos para usar a arma carregada e eliminar a segunda ameaça que está vindo para te matar. Esses momentos são extremamente especiais porque te colocam em uma pressão extrema, alternando entre um pensamento rápido e comedido, além de levar em conta todos os elementos afetados por causa desta complexa regra que permeia em SUPERHOT.

Análise Arkade: Quebrando as barreiras de realidade e tempo em SUPERHOT

Desta forma você fica preso nesta lei e submetido a aprende-la até masterizar a arte por trás deste movimento estratégico, novos macetes vão sendo ensinados e você vai entendendo como utiliza-la ao seu favor. No inicio do jogo eu coloquei na minha cabeça que a melhor forma de manusear uma pistola é da maneira comum que conhecemos, onde você atira, espera a segunda bala entrar no cano e repete esse processo até acabar com o pente inteiro, porém, em SUPERHOT você não tem o tempo disponível para esperar a próxima bala subir e se engatilhar na arma porque estes segundos são cruciais para você sair vivo de uma sala cheia de seres vermelhos tentando te matar. Após várias tentativas, descobri que a forma mais eficiente é simplesmente arremessando a arma no inimigo, o desarmando e te dando alguns segundos para aproximar e pegar a arma que ele deixou cair por causa do arremesso.

Mas existem diversos fatores que precisam ser levados em conta antes de fazer essa a sua única estratégia, incluindo o fato da arma arremessada se quebrando ao impacto e pelo inimigo continuar vivo pelo golpe, criando um lado positivo e negativo para cada ação. Neste caso eu poderia pegar a arma, arremessa-la e correr o risco de estar indefeso até o momento de conseguir mais uma arma ou esperar a próxima bala engatilhar na pistola e correr o risco de morrer durante o processo de espera.

Análise Arkade: Quebrando as barreiras de realidade e tempo em SUPERHOT

A estratégia por trás da mecânica vai se expandindo e ficando cada vez mais complexa no decorrer de cada fase, que adiciona o elemento de imprevisibilidade em cada um dos cenários. Em um dado momento você está dentro do banheiro de um bar com nada além de uma garrafa, em outro tem um carro vindo em sua direção e você precisa pular e desarmar o inimigo que está um pouco mais a frente, em outro temos uma mansão e você empunhando uma katana preparado para pular do teto e eliminar os três caras que estão usando rifles automáticos. Cada cenário é mais criativo que o outro, te jogando nas diversas situações onde você não tem nenhuma certeza do que irá acontecer.

Tudo isto reafirma o conceito por trás de SUPERHOT, alternando entre um FPS e uma mescla de jogos de estratégia em turnos, te dando a chance de pensar cuidadosamente antes de agir e ver a ação se desenrolar enquanto você já precisa pensar no próximo passo até que todos os seus inimigos se tornem nada além de estilhaços vermelhos no limpo cenário branco da fase.

Análise Arkade: Quebrando as barreiras de realidade e tempo em SUPERHOT

Um inovador e complexo universo

Mas não é somente de uma mecânica que SUPERHOT se mantém, trazendo um universo tão único e estilizado quanto sua jogabilidade. Existem somente três cores principais que pintam a tela de SUPERHOT, com o vermelho dos inimigos simbolizando perigo, o negro dos objetos, das armas brancas e armas de fogo – além de seus projéteis -, e por último o branco do restante cenário para continuar o tema minimalista e que faz o jogador focar somente no que é importante. Mas isso não diminui a atenção aos detalhes que os desenvolvedores procuraram trazer ao jogo, é possível notar o ambiente como um todo reagindo pela mecânica de parar o tempo, como as hélices dos dutos de ventilação em uma das fases, que reagem de acordo ao seu movimento.

Para continuar ao tema, SUPERHOT traz uma visão única em seu universo e o expande na sua história, desenvolvendo uma trama que dança em volta das barreiras do real e fantasioso. SUPERHOT te coloca como um protagonista que acabou de receber um jogo de seu amigo chamado SUPERHOT para o seu dispositivo de Realidade Virtual, com ele te dizendo que é um jogo bastante viciante e divertido sobre “matar caras vermelhos”. A história vai seguindo para temas mais complexos em que o jogo começa a interferir a sua vida como um jogador que entrou para experimentar este novo e interessante game. No decorrer das missões você vai notando que SUPERHOT não é um simples jogo sobre matar caras vermelhos, mas algo bem maior do que você e todos em sua volta pensam que é, entrando em caminhos extremamente interessantes que me deixou preso na cadeira durante o desenrolar de sua história.

Análise Arkade: Quebrando as barreiras de realidade e tempo em SUPERHOT

Outro fator importante é sua interface, como você é uma pessoa que irá jogar um game, o menu principal é um computador de tela preta rodando uma espécie de sistema DOS, com menus sendo apresentados como diretórios e pequenos jogos complementares baseados em arte ASCII, além de um fórum de jogadores de SUPERHOT que você pode acessar e ver outras pessoas falando sobre o jogo.

Esses pequenos detalhes apresentados, desde sua interface, o mundo criado em torno deste conceito e o próprio jogo, são tão cruciais para criar SUPERHOT quanto sua mecânica principal presenciada na jogabilidade. SUPERHOT não é um só um FPS com uma mecânica interessante, mas sim um universo vívido que faz de tudo para mostrar o quão real pode ser, ultrapassando obstáculos e excedendo minhas expectativas desde sua concepção como um pequeno jogo de game jam, em meados de 2013.

Análise Arkade: Quebrando as barreiras de realidade e tempo em SUPERHOT

CONCLUSÃO

SUPERHOT é interessante, complexo e extremamente viciante. Se as quatro horas da campanha não forem o bastante e você ainda ficar com aquela vontade de entrar mais uma vez neste estilizado mundo de branco, preto e vermelho, não se preocupe porque diversos modos são desbloqueados ao completar a história, como desafios especiais e o Endless Mode, além de contar com uma alta interatividade com a comunidade graças ao Killstragam, servindo como um hub onde você pode salvar sua fase – ou editar o clipe para deixar somente os melhores momentos – e publicar neste site, ao lado dos vários vídeos que estão sendo lançados todos os dias.

Os desenvolvedores por trás de SUPERHOT tiveram um caminho e tanto para chegar até aqui, nascendo como um pequeno projeto entre amigos, para uma campanha bem sucedida no Kickstarter até o seu lançamento oficial. E posso dizer com muita certeza que todo este processo valeu a pena, fazendo SUPERHOT um dos shooters mais inovadores que joguei em anos.

SUPERHOT está disponível para PC e Xbox One.

Deixar um comentário (ver regras)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *