Análise Arkade – Raji: An Ancient Epic é uma ótima surpresa e uma grande aventura

29 de agosto de 2020
Autor: Rodrigo Pscheidt
Análise Arkade - Raji: An Ancient Epic é uma ótima surpresa e uma grande aventura

Vivemos uma época um tanto repetitiva no mundo dos games, sem muitas surpresas. A geração atual foi marcada por grandes RPGs de mundo aberto, Souls-likes, Battle Royales e jogos procedurais estilo roguelike. Jogos de ação e aventura mais lineares foram se tornando cada vez mais raros para dar espaço a estes novos gêneros que ganharam popularidade.

Felizmente, vez ou outra aparece uma boa surpresa, e este é exatamente o caso de Raji: An Ancient Epic, um jogo de aventura muito legal — que nasceu no Kickstarter — e lembra os bons tempos de Prince of Persia e dos jogos de ação e aventura do Playstation 2.

Divindades Indianas

Em Raji: An Ancient Epic, controlamos a garota que dá nome ao jogo, Raji. Ela é uma artista de rua que vê seu irmãozinho Golu sendo capturado por figuras misteriosas. Felizmente, os deuses estão do lado de Raji, e irão ajudá-la e guiá-la por uma aventura na qual o real e o sobrenatural se encontram. E os deuses aos quais eu me refiro aqui são os da cultura indiana.

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Já vimos diversas culturas tendo suas mitologias religiosas retratadas em videogames. Pega a série God of War por exemplo: a série original nos levou para dar um rolê pela mitologia grega, onde assassinamos o próprio Zeus. No reboot, o jogo nos apresentou a fantástica mitologia nórdica, com direito a Thor (que não é só um membro dos Vingadores, afinal), Jörmundgander, e muito mais. Jogos como Dante’s Inferno e o recente Blasphemous, por sua vez, trazem o inferno cristão à tona.

A cultura indiana, porém — e as divindades do hinduísmo — são bem menos vistas não só nos videogames, mas na cultura pop em geral. Raji: an Ancient Epic faz um bom trabalho em nos apresentar Durga, Hanuman, Vishnu, Shakti e outras entidades. Não por acaso, a produtora Nodding Heads Games fica na Índia.

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Assim, por mais que a história em si seja relativamente simples, ela ganha um sabor extra por nos apresentar a uma cultura e a um folclore pouco explorados no Ocidente. O coração nobre de Raji faz dela uma escolhida dos deuses, que lhe concedem armas místicas que irão ajudá-la em uma missão que logo se mostra bem maior do que simplesmente salvar seu irmão.

Princess of India

Boa parte do tempo que eu passei jogando Raji, Prince of Persia estava na minha cabeça, e eu realmente acho que isso não é coincidência. Ok, a câmera é diferente, a ambientação é diferente,  mas o feeling de Prince of Persia é muito forte nesse jogo, em suas mecânicas e sua estrutura.

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Por exemplo: por ser uma artista de rua, Raji é muito acrobática, podendo correr pelas paredes, escalar vigas e virar altas piruetas. O parkour aqui é mais pontual,  mas se faz presente em trechos de plataforma muito empolgantes.

O próprio estilo de progressão do jogo lembra um pouco que vimos em The Sands of Time: a personagem avanço bocado, saltando entre pilares plataformas e coisas do tipo, até que um momento “arena” começa: um círculo mágico impede seu avanço e inimigos começar a aparecer.

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Falando nisso, o combate não é assim extraordinário, mas funciona. No decorrer da campanha, Raji vai encontrar diferentes armas, bem como dominar poderes elementais (eletricidade, fogo e gelo), que podem ser combinados às armas e lhes concedem novos atributos. No geral, são dois botões de ataque que executam combos simples, bem como flechas e outros tipos de ataques. Ela também pode usar pilares e paredes para atacar, algo que o Prince também fazia.

Como em Sands of Time, as batalhas correspondem à parte menos divertida do jogo. O verdadeiro charme de Raji: An Ancient Epic está na exploração, na mobilidade, no deslumbramento que sentimos diante de palácios, estátuas colossais e nos desafios que o próprio level design nos impõe. Este é um jogo bastante linear, então ficar perdido é quase impossível, mas você sempre pode ser recompensado por sua curiosidade, encontrando upgrades para seus poderes elementais.

Felizmente, não há um excesso de batalhas, que torne a coisa maçante: a campanha faz um bom trabalho em mesclar trechos de plataforma com combates, exploração e até alguns puzzles. Isso para não mencionar alguns arroubos de criatividade que são incríveis, como batalhas contra chefes gigantes e até um trecho onde devemos fugir de uma cobra gigante (vídeo acima) que remete ao épico encontro com o Espantalho em Batman Arkham Asylum!

Audiovisual

Embora seja um jogo indie, sem o orçamento das grandes produções, Raji: an Ancient Epic foi produzido com muito esmero, e o enxuto time de desenvolvimento soube se valer de soluções criativas para contar sua história.

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Aqui não há cutscenes super elaboradas: a narrativa se desenvolve através de um “teatro de sombras” que apresenta os acontecimentos de maneira bastante didática. Mesmo durante o gameplay, a câmera se mantém afastada para não nos permitir ver eventuais “defeitos” de perto, mas ocasionalmente se aproxima, e faz panorâmicas que concedem um ar bastante cinematográfico ao jogo.

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Sendo bem honesto com você, Raji: an Ancient Epic é um exclusivo temporário do Switch, e o console da Nintendo, no geral, faz um bom trabalho com o game (apesar de alguns problemas de frame rate). Mas eu não vejo a hora de ver ele rodando em um Xbox One X, por exemplo, em 4K, para que a imensidão de seus cenários e a beleza de sua direção de arte possam ser apreciados com maior riqueza de detalhes.

A trilha sonora também me lembrou de Prince of Persia, por trazer muito dos instrumentos e ritmos indianos para enriquecer a atmosfera do game. Não é uma trilha realmente memorável, mas contribui com a identidade do jogo, que, afinal, foi produzido por indianos.

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 Outro acerto está nas dublagens: as vozes são excelentes e concedem muita personalidade tanto aos humanos quanto aos deuses. Isso enriquece a narrativa, e por ser um estúdio que aposta em talentos locais, é legal sentirmos o sotaque deles falando inglês — é um produto global, afinal de contas. Ah, e temos legendas em português brasileiro, algo que é sempre bem-vindo, e demonstra que houve um real esforço em acessibilizar o game.

Conclusão

Raji: an Ancient Epic parece uma joia desconectada de seu tempo: um jogo que tem o feeling do Playstation 2 às vésperas da era Playstation 5. Um jogo que ousa ser uma aventura linear e enxuta em uma época onde todos querem ser enormes, procedurais, inchados.

Análise Arkade - Raji: An Ancient Epic é uma ótima surpresa e uma grande aventura

Como fã de Prince of Persia e de jogos de ação e aventura sem um monte de firulas, coloco este jogo não só como uma das boas surpresas do ano, mas como um título que estará na minha lista pessoal de Melhores Jogos de 2020, ao lado de títulos como The Last of Us Part II e Ori and the Will of the Wisps.

Por enquanto ele está só no Switch, mas quando ele sair para outras plataformas, eu realmente acho que você deveria experimentá-lo (tem demo disponível na Steam e no Xbox One). É um jogo muito único, produzido com muito carinho e que escancara o talento de um pequeno estúdio indiano.

Análise Arkade - Raji: An Ancient Epic é uma ótima surpresa e uma grande aventura

Considerando que fica um gancho narrativo ao final da jornada, quero só ver o que o pessoal da Nodding Heads Games planejam. Espero que o jogo seja um sucesso, para que eles possam alçar voos ainda mais altos, com orçamentos maiores. Neste primeiro projeto, eles já deixaram claro que sabem o que estão fazendo, e entregaram uma experiência muito autêntica e especial.

Raji: an Ancient Epic chegou ao Nintendo Switch em 18 de agosto. Em outubro, o game será laçado para PC, Playstation 4 e Xbox One.

Uma resposta para “Análise Arkade – Raji: An Ancient Epic é uma ótima surpresa e uma grande aventura”

  • 1 de setembro de 2020 às 11:44 -

    supersilva

  • Jogos não precisam de gráficos maravilhosos, precisa ser divertido. CS tae pra comprovar.

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