Análise Arkade: Skater XL, um jogo de skate com boas mecânicas e pouco conteúdo

27 de agosto de 2020
Autor: Rodrigo Pscheidt
Análise Arkade: Skater XL, um jogo de skate com boas mecânicas e pouco conteúdo

O skate é um esporte que teve uma vida bastante movimentada no mundo dos videogames. Quem é das antigas vai lembrar do half pipe cruel do bom e velho California Games/Jogos de Verão, mas o boom mesmo veio ali no final dos anos 90, quando um sujeito chamado Tony Hawk ganhou sua própria franquia.

A série Tony Hawk’s Pro Skater da Activision sempre se destacou por ser mais focada em diversão do que em realismo. Nestes jogos a proposta é bem mais arcade: os skatistas podem realizar “combos” de manobras que desafiam as leis da física, e tem até Homem-Aranha como convidado. Mas tudo bem: é tudo pela diversão.

O principal concorrente surgiu em 2007: chamado simplesmente de Skate, a franquia da EA trazia um gameplay diferenciado e menos absurdo, dando mais controle ao jogador sobre os pés do skatista, o que resultava em mecânicas mais difíceis de serem dominadas.

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Bons tempos!

Ambas as franquias fizeram sucesso, mas tomaram caminhos distintos: enquanto Tony Hawk’s Pro Skater segue apostando no saudosismo de seus fãs (não por acaso, mais um remake vem aí), Skate foi para a geladeira da EA, e um novo jogo ainda é muito esperado pelos fãs.

Abre-se então, espaço para um novo jogo, e Skater XL surge na esperança de preencher essa lacuna. E ainda que o título seja esforçado, e traga um gameplay mecanicamente interessante, falta conteúdo para ele se parecer, remotamente, com um jogo completo.

Analógicos

Tal qual a série Skate, Skater XL se apoia em uma mecânica que utiliza os dois analógicos do controle: o analógico direito corresponde ao pé direito do skatista, enquanto a alavanca esquerda cuida do pé esquerdo.

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Isso quer dizer que aqui não há um “botão de pulo”: tudo deve ser feito na unha, movendo os pés do skatista sobre o skate de maneira coordenada para realizar tanto movimentos básicos — como o ollie — até as manobras mais avançadas. Há diferentes posturas (regular e goofy) de acordo com o pé que fica na frente, e saltar com o impulso do pé da frente resulta em um movimento diferente do que saltar com o pé de trás.

Confira um pouquinho de gameplay livre abaixo:

Vou deixar um exemplo aqui bem fácil de visualizar: sabe aquela deslizada em corrimãos clássica do mundo do skate? Pois é, aqui não tem um botão para fazer isso: você precisa realmente saltar e, no ar, girar o personagem para alinhar o shape com o corrimão. Diferentes “alinhamentos” rendem variações da manobra — você pode deslizar com o nose, ou com o tail, ou mesmo com os trucks.

É uma mecânica desafiadora e instigante, que vai contra o hábito gamer enraizado de “um analógico move o personagem, o outro move a câmera”. Para fazer curvas, usamos os gatilhos do controle. Simplesmente pegar embalo exige que um botão seja mantido pressionado, aqui não tem essa de “segurar o direcional pra cima” e pronto.

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O jogo tem um tutorial simples, mas que faz um bom trabalho em nos introduzir aos elementos básicos de gameplay. Porém, Skater XL começa já te largando em cima do skate, em um cenário qualquer: você precisa ativamente apertar o pause e acessar o tutorial por ali. Não deixe de fazer isso, pois pegar o jeito “na marra” pode ser um processo confuso e cansativo.

Ok, aprendi a jogar… e agora?

Depois que você passar um tempinho no tutorial para se acostumar com os controles do jogo, vai querer subir no skate pra valer, e progredir no jogo, certo? Pois é aí que mora o principal problema de Skater XL: ele simplesmente não tem conteúdo, absolutamente nada que passe um senso de progressão ao jogador.

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As fotos mais legais eu tirei controlando a câmera nos replays :)

Pause o jogo a qualquer momento e escolha um mapa — entre as poucas opções disponíveis. Quando o loading acaba você está no mapa escolhido… mas não há realmente nada de novo para se fazer ali, a não ser andar de skate e fazer umas manobras.

Sendo honesto, cada fase tem um punhado de desafios, nos quais você vê um “fantasma” executando uma manobra e tenta replicá-la. Tipo assim:

Como o gameplay é muito específico, cumprir todos os desafios da lista é algo que pode dar um bocado de trabalho… porém, não há uma recompensa, nem nada do tipo. Cumpra os desafios (ou não), o jogo simplesmente não vai para lugar nenhum, independente da sua perícia em replicar as manobras mais cabulosas.

A série Tony Hawk’s sempre teve objetivos divertidos, como coletar as letras S-K-A-T-E, fitas cassete, alcançar lugares complicados ou conseguir uma pontuação enorme. Aqui não tem nada disso, de modo que cada mapa é apenas um novo lugar no qual você pode praticar suas manobras em uma paisagem diferente.

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Vivemos a era da gamificação, onde tudo tem um uma progressão que valida nosso esforço. Até apps de idiomas tipo o Duolingo gamificam seu conteúdo para que o ato de estudar torne-se mais lúdico, mais prazeroso.

Skater XL vai na contramão desta proposta: aprendeu as manobras mais complicadas e dominou os controles? Bom para você, mas infelizmente aqui não há nenhum torneio, nenhum componente multiplayer. Não tem modo carreira, nem nada que traga desafio, coloque o seu talento à prova, ou lhe dê um mínimo senso de progresso. Aqui a gente só pratica, e depois pratica mais um pouco… O que é uma pena, visto que o game tinha potencial para alçar voos mais altos.

Audiovisual

Ainda que seja um projeto independente de um estúdio pequeno, a apresentação de Skater XL, em uma primeira olhada geral, é competente. Os mapas são grandes e os (poucos) skatistas disponíveis são relativamente bem modelados e usam roupas e equipamentos de marcas reais — novamente, há pouquíssima variação: temos apenas 4 atletas, e cada um tem apenas duas ou três opções de camisas ou calças diferentes.

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E geralmente é a mesma peça, só que de outra cor…

É quando a gente presta atenção aos detalhes, porém, que as falhas saltam aos olhos. As texturas são meio toscas, deixando tudo com uma cara de geração passada. Os personagens caem de maneiras bizarras, e ocasionalmente a gravidade deixa a desejar. E, claro, temos o fato de que mesmo os cenários urbanos são completamente vazios: há carros parados aqui e ali, mas não há pessoas, não há vida. É como se estivéssemos andando de skate em uma cidade fantasma.

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Os tombos são bem desajeitados

A trilha sonora é esforçada, mas aqui, infelizmente, o fator comparativo pesa: A série Tony Hawk’s sempre teve o respaldo (e a grana) da Activision para licenciar grandes bandas, com isso construiu uma playlist incrível ao longo dos anos — o próximo jogo vai ter até Charlie Brown Jr.! Aqui temos um punhado de bandas de indie rock que não conseguem trazer a pegada e a empolgação que o jogo merecia.

Conclusão

Skater XL, infelizmente, é uma casca vazia. É evidente que foi colocado muito amor e muito esforço na criação de seu gameplay… mas esqueceram de colocar um jogo ao redor disso, de modo que o que temos aqui é um jogo sem objetivos, sem um senso de progressão, sem nada que estimule o jogador a querer melhorar.

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Jogando bonito… mas não tem ninguém pra ver…

Eu gostaria muito de ver o que foi construído aqui — em termos de mecânicas — sendo aplicado em um jogo com mais conteúdo, com torneios, multiplayer, um modo carreira, algo do tipo. Skater XL entrega tão pouco que, sinceramente, qualquer coisa já estaria de bom tamanho. O produto final parece um beta, um projeto inacabado, lançado antes da hora.

Considerando que semana que vem chega o remake de Tony Hawk’s Pro Skater 1 + 2, acho que o melhor que você faz é guardar seu dinheiro e levar um jogo mais robusto (e divertido) para casa.

Skater XL está disponível para PC, Playstation 4 (versão analisada, rodando no PS4 Pro), Xbox One e Nintendo Switch. O game possui menus e legendas em um português que parece de Portugal, mas quebra um galho.

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