Análise Arkade: The Flame in the Flood é delicadeza, desespero e sobrevivência

21 de janeiro de 2017
Autor: Paulo Roberto Montanaro

Análise Arkade: The Flame in the Flood é delicadeza, desespero e sobrevivência

Sobreviver. Conceito simples que ganha contornos poucos nítidos quando falamos de narrativas audiovisuais, já que na prática a jornada do herói clássica sempre nos remete a essa tênue linha sobre vencer um desafio após o outro. De Náufrago a Tomb Raider, de Eu Sou a Lenda a Gravidade, de Resident Evil a Rambo, não é difícil encontrar aquele herói que se nega a desistir, se nega a morrer, mesmo no pior dos cenários.

Em The Flame in the Flood — que, em uma tradução livre, seria algo como “A Chama na Inundação”, a ideia de sobreviver, porém, acaba se tornando algo muito mais íntimo e angustiante ao mesmo tempo que carrega em si um simbolismo de esperança e sensibilidade que pouco se vê em outras produções que tratam dessa temática. A fragilidade da protagonista, só equiparável a sua obstinação, talvez seja o ponto que nos comova, que nos traga a empatia tão desejada por qualquer roteirista do mundo.

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Uma história que não se conta

Estranho dizer que tudo isso (quase) não está nas linhas narrativas, nos diálogos ou nos eventos do jogo. Na verdade, são pouquíssimos os detalhes que são oferecidos ao jogador durante a jornada. O que se sabe é que você assume o papel de uma garota, acompanhada de seu fiel cão, em um mundo pós-apocalíptico que, ao que tudo indica, foi tomado por alguma tragédia e que se mostra absolutamente debaixo d’água.

Seu objetivo não é dado, sua missão não é apresentada, a não ser por uma mensagem estranha no rádio transmissor carregado pelo seu cachorro. Mas no primeiro segundo de jogo — ou antes, se considerar a tela de menu como uma dica — já se sabe o que deve ser feito e como conseguir isso. É, antes de mais nada, um jogo de exploração e sobrevivência, onde um simples pé de amoras ou um copo de água limpa podem determinar a vida ou a morte da nossa heroína.

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Para isso, ela conta com o já comentado amigo inseparável de quatro patas e uma jangada improvisada para descer as corredeiras que passam por entre destroços do mundo civilizado, já completamente tomado pelo desastre. Nesse contexto, a exploração tem dois momentos bastante distintos: a navegação por entre essa sucata toda, cheia de armadilhas, e a exploração das poucas ilhas perdidas no meio dessa bagunça.

Onde se quer chegar e o que encontrar lá? Só jogando mesmo, porque as dicas do que está acontecendo são raras e pouco explícitas. Um ou outro personagem perdido, detalhes espalhados pelo cenário — que , aliás, tem elementos procedurais de geração de itens — perigos e possibilidades, e fragmentos de história que as vezes estão nos lugares mais inóspitos.

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A simplicidade do complexo

Por mais que carregue essa percepção visual de jogo independente, The Flame in the Flood não economiza nos perigos e nas formas de se virar no meio disso tudo. Há uma infinidade de itens a serem coletados, produzidos e desconstruídos, cada qual com suas particularidades e funções muito bem definidas. De peças de roupa mais quentes à ervas medicinais, de água poluída a parafusos, de trapos à tábuas velhas, tudo tem sua função e não é tão simples assim aprender a usá-los com sabedoria.

Essa variedade de coisas a serem feitas e coletadas não está lá a toa. Do mesmo modo que há muitas coisas a se coletar, há muitas formas de ficar enfraquecido e de morrer. Se não comer, morre de fome, mas se comer algo contaminado, morre envenenado. Se não beber água, morre de sede, mas se beber água poluída, morre por contaminação. Se sofrer uma laceração, fica enfraquecido, se tomar chuva, se enfraquece mais rápido, se tomar uma porrada, fica com ossos quebrados… a vida é dura em The Flame in the Flood.

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O mais angustiante é que mesmo quando se imagina que há uma estabilidade, tudo pode mudar completamente. Você pode estar com comida, água, remédios e todos os seus indicadores saudáveis, mas basta um evento não planejado, como um ataque por lobos, para tudo começar a descambar rapidamente. Pisar em um espinho pode causar infecções, que podem significar o único tipo de dano que não há remédios no seu limitado inventário, caso você seja muito azarado.

Ou seja, não há margem de segurança, não há espaço para experimentações e explorações inúteis. A cada nova doca onde se atraca o barco, pode haver itens que vão dar uma sobrevida ou perigos que vão causar uma morte demorada, mas inevitável. Ou, como começa a acontecer depois do quinto dia de jornada, as duas coisas ao mesmo tempo.

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Aí cabe ao jogador aprender a lidar com a gestão de recursos, com o ambiente cada vez mais inóspito, com as surpresas de cenários gerados com uma pitada de aleatoriedade e com a organização de itens essenciais, como comida, água e recursos para melhoria da jangada ou das habilidades da protagonista em conseguir novos elementos para sobreviver.

Essa dificuldade com tantas coisas possíveis ou necessárias para serem feitas em tão pouco espaço de tempo é, a princípio, complicada de assimilar. Espere algumas mortes durante as primeiras tentativas, já que o jogo não dá nenhuma moleza e é cruel sempre que pode. Depois de algumas derrotas é que o jogador começa a ficar atento para coisas que já no começo podem ser fundamentais mais adiante. A curva de aprendizagem exige, portanto, rápida adaptação e compreensão da dinâmica do game.

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Para piorar, mesmo na dificuldade normal os pontos de checagem são bastante limitados. Não espere que o jogo realmente salve cada ilha, ou cada passo dado. Há pontos de controle específicos e uma morte pode significar a volta a pontos que já haviam ficado para trás horas antes. A parte boa é que quando o jogador quer parar de jogar e continuar mais tarde não precisa depender desses pontos de controle. Somente quando morre.

A beleza da destruição

Não há dúvidas em dizer que a beleza do jogo é admirável. Com um traço estilizado, a protagonista lembra, de certa forma, a de Tearaway, mas os cenários, vistos pelo olhar isométrico, trazem um nível de detalhamento mais aprofundado, com construções deterioradas, veículos, lugares devastados, matas e outros ambientes. O mesmo vale para o cão companheiro e para os animais que surgem, sejam inimigos ou alimentos em potencial.

Acrescenta-se a isso uma ótima direção de arte que consegue dar conta de cada espaço desse com diversidade climática e de período do dia, o que confere uma beleza ímpar para cada pequena elevação. Chuvas torrenciais a noite são incrivelmente assustadoras e opressoras, enquanto os dias limpos e quentes parecem gerar uma falsa sensação de segurança.

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A questão procedural, contudo, pode ser fonte de certas repetições que, quando encontradas em muitas paradas, podem causar um estranhamento de já ter visto aquela casa em algum lugar, ou aquela mesma van no cenário anterior. Alguns padrões se tornam mais repetitivos do que outros com algumas horas de jogo, o que não chega a incomodar, mas também faz com que o efeito surpresa acabe ficando mais restrito a ocasiões especiais.

A trilha musical, por sua vez, traz músicas muito interessantes e fora de clichês do gênero. Não há somente aquele som ambiente, e sim músicas que entram em momentos específicos e que funcionam bem para dar uma sensação de isolamento e, ao mesmo tempo, de esperança. Os efeitos sonoros também não fazem feio, mas não chegam a se destacar. Vale mencionar ainda que a música principal do jogo (também presente no lindo tema dinâmico que acompanha esta versão PS4 do game), é incrível e vale ser ouvida sempre.

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Conclusão

The Flame in the Flood trata-se de um jogo essencialmente de sobrevivência e de exploração, com elementos narrativos muito particulares e com cenários temperados com pitadas de geração procedural. Mas é, sobretudo, um jogo de reflexão intimista, onde a solidão e o desespero mostram que podem estar aliados a uma delicadeza muito própria que remete a esperança.

O título se refere, portanto, não só de uma vida desolada pela inundação, mas de um otimismo que teima em queimar mesmo no pior dos cenários e nas situações mais desesperadoras. E o quanto essa esperança pode ser a única coisa a que se agarrar para buscar a próxima fogueira ou a próxima amora para viver mais um dia, só mais um dia.

Um jogo que vale a pena ser jogado, ser experienciado e ser reconhecido pelo ótimo trabalho realizado pela The Molasses Flood em fazer a vida importar. E a versão PS4 que acabou de sair é a Complete Edition, que traz de brinde um belo tema dinâmico, ícones de avatar e comentários dos desenvolvedores

The Flame in the Flood acbaou de chegar ao PS4 (versão utilizada para este review), mas já estava disponível para está disponível para PC XBox One desde o ano passado. O game está localizado para o português brasileiro.

4 Respostas para “Análise Arkade: The Flame in the Flood é delicadeza, desespero e sobrevivência”

  • 21 de janeiro de 2017 às 22:17 -

    Matheus Ferreira

  • A trilha sonora desse jogo foi feita pelo Chuck Ragan (vocalista do Hot Water Music) e é simplesmente fantástica!

    • 23 de janeiro de 2017 às 11:17 -

      Paulo Roberto Montanaro

    • Olá Matheus,

      Muito obrigado pelo complemento. Não conhecia o trabalho da banda, mas já estou aqui procurando mais, porque a trilha do jogo é realmente espetacular.

      Valeu pelo feedback!

  • 23 de janeiro de 2017 às 16:04 -

    Deniel Brandão

  • Já estava muito curioso sobre esse game pelo visual incrível que ele tem. Porém, estava com receio de ser muito raso e totalmente procedural como outros títulos do gênero, mas parece que ele vai um pouco além disso. Me interessei ainda mais pelo jogo :)

    Parabéns pela análise.

    • 23 de janeiro de 2017 às 16:37 -

      Paulo Roberto Montanaro

    • Obrigado pelo comentário, Deniel.

      De fato, sempre que há esse elemento procedural, tenho um misto de curiosidade e desconfiança, mas nesse caso, apesar de algumas repetições de padrão, o jogo consegue ir além e trazer uma experiência em cada nova ilha.

      Se vc for jogar, traga suas impressões pra gente aqui também!

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