Análise Arkade: The King’s Bird tem visual de sonho e dificuldade de pesadelo

30 de agosto de 2018
Autor: Rodrigo Pscheidt

Análise Arkade: The King's Bird tem visual de sonho e dificuldade de pesadelo

Prepare-se para saltar e planar rumo à liberdade em The King’s Bird, um game cheio de estilo, que traz uma jornada bastante desafiadora!

Fugindo da prisão

The King’s Bird é mais uma daqueles jogos de narrativa não-verbal que traz uma história subjetiva e interpretativa. A breve sinopse do game na Steam diz o seguinte: “Fuja para um mundo mantido em segredo por um tirano e descubra a verdade sobre sua liberdade”.

Quse nada disso é mostrado diretamente: sem cutscenes ou diálogos, devemos absorver a essência da história, do próprio gameplay, e de interações (mudas) entre os personagens que rolam ocasionalmente. Informações em texto são raríssimas, limitando-se à introdução do jogo, basicamente.

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O fato é: controlamos uma criança que, após passar muito tempo presa em uma cidade, consegue um jeito de sair de lá. E ela ainda sai com uma habilidade pra lá de legal: ela é capaz de planar. Isso acrescenta uma nova profundidade a um game que, de outra forma, seria “apenas mais um” jogo de plataforma 2D.

Planar é uma delícia…

The King’s Bird tem um bocado em comum com Journey — no que tange o ar idílico e a capacidade de planar. Seria ótimo poder classificá-lo como um “Journey 2D”, mas sua dificuldade torna isso impraticável (já já falamos mais sobre isso).

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Nosso objetivo é basicamente usar nossas habilidades acrobáticas para coletar fadinhas de luz dispostas em lugares estratégicos de cada cenário. Claro que isso não é tão simples, pois cada área do jogo é repleta de pilares, plantas espinhosas, abismos e outros perigos, que devem ser superados com muita perícia pelo jogador.

A mecânica de planar é totalmente baseada em momentum, então a velocidade do seu impulso e o ângulo da sua queda são fatores determinantes para impulsionar o personagem para cima. Por mais que seja possível jogar usando o teclado, recomendo fortemente o uso de um controle para facilitar (um pouco) a sua vida.

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Sendo bem honesto, é uma mecânica deliciosamente fluida: as animações do jogo são muito suaves, e há um prazer quase instintivo em correr rumo a um abismo, saltar para a morte… e planar suavemente até o outro lado. O ato de planar é muito gostoso, simplesmente porque a mecânica foi produzida com muito esmero.

Morrer, nem tanto

Se o ato de planar em si é delicioso, infelizmente ele acaba ofuscado por um level design desafiador até demais, que anula o prazer e a fluidez do gameplay, podendo acabar sendo mais estressante do que relaxante.

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Tipo assim

O que rola é o seguinte: enquanto o estilo não-verbal meio etéreo remete a Journey, a dificuldade de The King’s Bird é moldada por experiências bem menos pacíficas, tipo Super Meat Boy e VVVVV. The King’s Bird é um jogo extremamente difícil, e seu level design demanda uma precisão que quase não combina com a pegada “solta” do game.

Veja bem, estamos falando de um jogo que se ampara em momentum, e esta não é uma ciência exata, a gente meio que vai “no feeling”. Porém, as fases trazem desafios que demandam ações praticamente perfeitas para serem superados. Assim, o feeling é substituído por um sistema de tentativa e erro que mina todo o potencial de diversão do game.

Confira meu gameplay de uma das fases abaixo para entender o drama. Note que eu até dei uma editada de leve para omitir algumas tentativas frustradas:

Também complica o fato de tudo ser muito rápido: você estará o tempo todo correndo, saltando, ricocheteando entre paredes e planando. Tudo acontece em uma velocidade incrível, o que dificulta ainda mais a vida do jogador, pois exige não apenas precisão, como também reflexos rápidos.

É um pecado que um jogo que se ampara em algo tão… errático quanto planar demande tamanha precisão do jogador. De corredores muito estreitos a plataformas muito elevadas, passando por barreiras de plantas espinhosas, completar certos níveis vai testar a perícia e a perseverança do jogador.

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Não tenho problema com jogos difíceis, mas a questão é que aqui a dificuldade está muito mais atrelada à sorte — em acertar o timing e o momentum para planar — do que à habilidade. E este não é aquele tipo de jogo que oferece diferentes rotas: ou você vai por onde o jogo quer, ou não vai. Isso pode acabar deixando o jogador “travado”, e isso definitivamente não é legal.

Audiovisual

The King’s Bird segue aquele estilo meio Limbo, com personagens e silhuetas escuras contrastando com backgrounds luminosos. Apesar desta simplicidade latente, a direção de arte caprichada traz muitos arabescos e detalhes que enriquecem bastante o visual como um todo, que ganha pontos pela variação de cores do fundo e pela qualidade das animações.

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Há muito estilo na simplicidade do visual

A trilha sonora dá um show: orquestrada e suave, ela é facilmente cantarolável, e traz um ar de serenidade que quase nem combina com o nível de desafio do jogo. O canto também se faz presente com muita delicadeza: o fôlego de nosso personagem é representado por um cantarolar suave, que se mistura à trilha sonora em si com muita competência, e nos dá uma pista de quanto tempo temos para permanecer no ar.

O game não recebeu suporte ao nosso idioma, mas como traz uma história subjetiva contada quase totalmente de forma totalmente não-verbal, nãos se preocupe com isso, pois a língua não vai afetar sua experiência com o game.

Conclusão

Com o perdão do trocadilho incidental, The King’s Bird é um jogo de altos e baixos: os produtores construíram uma mecânica de planagem extremamente fluida e gostosa de usar, mas que não se adequa às exigências do level design. É um jogo com ar de sonho e dificuldade de pesadelo.

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É possível praticar até dominar cada nuance do gameplay e fazer bonito em todos os desafios? Provavelmente. Mas isso demanda um empenho e um tempo que eu não tenho. Este jogo me deixou fascinado com seu esquema de planar, mas “cortou minhas asas” ao trazer desafios que não comportam a leveza proposta por esta mecânica.

É um jogo claramente feito com carinho, mas quem quiser encará-lo precisa ter em mente que há fortes chances dele causar mais frustração do que prazer. Saio um tanto cansado de uma experiência que eu realmente esperava que fosse mágica e aprazível.

The King’s Bird foi lançado em 23 de agosto, exclusivamente para PCs.

2 Respostas para “Análise Arkade: The King’s Bird tem visual de sonho e dificuldade de pesadelo”

  • 3 de setembro de 2018 às 22:00 -

    santos

  • tu escreve bem pra caraio viu!

    • 4 de setembro de 2018 às 10:08 -

      Rodrigo Pscheidt

    • Não entendi se isso foi uma ironia ou não, mas em todo caso, muito obrigado! :)

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