Análise Arkade: repetição e falta de criatividade estragam o novo jogo das Tartarugas Ninja

4 de junho de 2016
Autor: Rodrigo Pscheidt

Análise Arkade: repetição e falta de criatividade estragam o novo jogo das Tartarugas Ninja

Na semana passada, a Platinum Games lançou seu novo game: Teenage Mutant Ninja Turtles: Mutants in Manhattan. Será que a empresa que já nos brindou com o incrível Bayonetta e o competente Transformers Devastation conseguiu nos surpreender novamente? Vamos descobrir!

Roteiro de desenho animado

O novo jogo das Tartarugas Ninja não tenta dar nenhuma profundidade extra aos personagens. O que temos aqui é um amálgama de clichês típico de um desenho animado dos anos 90: o temível Destruidor voltou à ativa, e agora está unindo forças com o General Krang para recrutar e equipar vilões com tecnologia alienígena para tomar o controle da cidade.

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Destruidor e Krang unem forças.

Logicamente, Leonardo, Raphael, Donatello e Michelangelo ficam sabendo dos planos malignos da dupla, e com uma ajudinha da sempre antenada April e dos conselhos de sabedoria do Mestre Splinter, vão abrir caminho (na base da porrada, claro) até os vilões para impedir a destruição de Manhattan.

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Além de ninjas do Foot Clan, naves alienígenas comandadas por Krang e dose sempre pentelhos robôzinhos que parecem insetos, esta nova aventura reserva encontros com muitos vilões clássicos das Tartarugas, como Bebop e Rocksteady, o tubarão mutante Armaggon e o “morcegão” Wingnut. Como num bom beat ‘em up old school, ao final de cada fase rola um confronto com um chefão.

Pancadaria e confusão

A Platinum criou seu próprio estilo de produzir games, mais especificamente games do tipo hack’n slash. E o padrão da empresa continua presente aqui: é aquele combate frenético de sempre, com dois botões de ataque e um de esquiva, bem como um sistema de parry e muitos golpes especiais.

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Um detalhe interessante é que os golpes especiais são totalmente intercambiáveis. Você pode equipar 4 especiais em cada personagem como quiser, e existem dezenas de variações, desde combos, rodopios, chuvas de shurikens e outros golpes devastadores até buffs como recuperação de energia, mais velocidade e um interessante recurso de câmera lenta (aka Turtle Time).

Jogando sozinho, você pode alternar entre as 4 Tartarugas a qualquer momento, o que é bem legal, pois o gameplay de cada uma é ligeiramente diferente das demais. O problema é que, com 4 personagens na tela o tempo todo + vários inimigos, a coisa fica meio confusa, de modo que todo o charme do timing característico da Platinum acaba se perdendo, e o game vira um button mash na maior parte do tempo.

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O primeiro encontro com Armaggon.

Isso sem falar que a inteligência artificial deixa MUITO a desejar, a ponto de, enquanto eu jogava, me deparei com a seguinte e patética situação:

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Para driblar isso, é possível jogar online, e aí cada jogador assume o controle de uma Tartaruga. Não poder alternar entre os personagens é meio chato, mas o jogo sem dúvida fica um pouco mais divertido jogando “de galera”. Infelizmente, não há multiplayer local, o que é praticamente um pecado, visto que desde os tempos do fliperama os jogos das TMNT suportam 4 jogadores locais.

Um jogo problemático

Ainda que traga o combate estiloso e frenético que é padrão da Platinum, este jogo das TMNT deixa muito a desejar em vários aspectos. A começar pelo seu level design. Em uma atitude muito questionável, os produtores optaram por um jogo de fases em que cada fase é um pseudo mapa aberto, com missões genéricas e repetitivas que devem ser cumpridas até que você possa ter acesso ao chefão.

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Funciona assim: em cada fase há uma barra na parte superior da tela, que vai sendo preenchida conforme você cumpre as pequenas e nada criativas missões do game, que envolvem coisas tipo “elimine todos os inimigos”, “desarme x bombas”, “encontre o esconderijo” ou “impeça o roubos de x barras de ouro”. Quando você cumprir missões genéricas o suficiente, a barra estará cheia, e só então o chefão irá surgir em algum lugar do mapa para te enfrentar.

Além de repetitivas e sem graça, as missões nem sempre são fáceis de achar pelos cenários relativamente grandes. As Tartarugas têm uma espécie de “visão de raio x” para dar uma força, mas ela só ajuda mesmo quando você já está perto o suficiente de um objetivo. E algumas missões rolam em telhados ou “dentro” de paredes ou esgotos (que revelam serem esconderijos), só para deixar tudo ainda mais estranho.

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Este é o T-Glass, a “visão de raio x” do game, em ação.

Esta falta de criatividade no design das fases chega ao ápice quando temos fases (sim, no plural) onde seu objetivo é chegar ao nível mais fundo dos esgotos ou ao andar mais alto de uma torre. Em ambos os casos, você vai encarar uma sucessão de andares/corredores iguais e inimigos genéricos que estão ali simplesmente para te atrasar. O level design como um todo é fraco, mas nestes momentos ele realmente se supera.

Como não poderia faltar em um jogo deste tipo, temos uma fase no elevador, confira nosso gameplay abaixo:

Fora isso, existem outros problemas: o jogo te estimula a ficar coletando orbes para conseguir algumas armas secundárias (bombas, turrets, granadas e itens que lhe dão boost de poder ou velocidade), mas nenhuma delas é realmente útil, e só o que vale a pena carregar mesmo são pizzas — que obviamente são os itens de energia do game. Há até um “Pizza Room” para você ressuscitar seus personagens, caso eles caiam em batalha:

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O Pizza Room é um QTE para você recuperar sua energia e voltar à batalha.

Por fim, outra coisa que incomoda um pouco é a quantidade de informação na tela: em tempos onde minimalismo é tendência, Mutants in Manhattan vai no sentido oposto, e deixa vários tipos de mostradores, atalhos e barras poluindo a tela o tempo todo. É só um detalhe, mas uma interface mais clean certamente não cairia mal.

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Esse efeito roxo na tela é sinal de que o Turtle Time (câmera lenta) está ativo.

Boss Battles

O que salva esse jogo são suas boss battles: seguindo uma vibe bem anos 90, os chefes são bem apelões e possuem nada menos que 7 barras de energia cada um! Também como nos jogos de antigamente, eles meio que têm um padrão de ataque, mas aqui não há decoreba, é preciso ficar ligado pois muitos golpes varrem a tela toda, os chefes se movem bastante e em alguns casos ainda summonam capangas genéricos para ajudar.

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Tartarugas prontas para a porrada!

Boa parte dos chefes é vencido da maneira tradicional (na porrada), mas há uma boss battle diferenciada contra uma versão gigante do Krang que foge um pouco dos padrões e é bem legal: neste confronto, cada Tartaruga assume o controle de um robô gigante, e deve ficar atirando raios e mísseis contra o chefe. Confira um pedacinho da batalha abaixo:

Infelizmente, por mais legais que sejam as batalhas contra chefes, a Platinum também deu um jeito de errar a mão e exagerar um pouco na dose: depois de enfrentar todos os chefes uma vez, adivinha só o que acontece na penúltima fase do jogo? Pois é, você é obrigado a enfrentar todos eles novamente, um após o outro.

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Um detalhe interessante é que as batalhas contra os chefes mudam de acordo com a dificuldade que você joga. Por exemplo, jogando no modo Normal, você enfrenta Bebop sozinho na primeira fase. Se estiver jogando no Hard, o rinoceronte Rocksteady aparecerá no meio da batalha para ajudar seu parceiro. Todos os combates possuem 2 versões diferentes, e isso interfere inclusive na última batalha e no final do jogo.

Audiovisual

A Platinum disse que não iria colocar multiplayer local no game para alcançar os 60fps, mas parece que a promessa não foi cumprida: o game não passa dos 30fps, o que acaba gerando uma queda de fluidez que não cai bem com este estilo de jogo frenético. O jogo roda bem, mas sem dúvida seria muito mais interessante em 60fps, como foi Transformers Devastation.

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Sem contar este “pequeno detalhe”, o jogo sem dúvida tem um visual agradável, e parece um desenho animado interativo. O design dos heróis e vilões está muito bacana, misturando um pouco da vibe clássica dos anos 90 com um traço mais atual que é bem estiloso.

Aí vai mais uma boss battle, contra o tubarão Armaggon:

Rolam algumas piadinhas do Michelangelo aqui e ali — e até referências a filmes, desenhos e games antigos das TMNT — mas no geral as Tartarugas estão um pouco “apagadas”, e as dublagens não fazem nenhum esforço especial para conceder mais personalidade aos personagens. E olha que temos gente do calibre de Nolan North (o Nathan Drake, de Uncharted) encabeçando o elenco.

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Este não seria um jogo das TMNT sem pizza, muita pizza.

Certas músicas e efeitos sonoros se repetem mais do que deveriam, e as boss battles geralmente rolam ao som da pauleira metálica que é típica da produtora. Como em outros aspectos do jogo, o que temos aqui na se destaca, mas também não decepciona.

Conclusão

Teenage Mutant Ninja Turtles: Mutants in Manhattan poderia ser um hack ‘n slash divertido, mas acaba ficando chato por conta de seu level design mal planejado e repetitivo. Enfrentar os chefes é super empolgante, mas aturar 30 minutos de repetição, combate confuso e missões genéricas para chegar até ali é bem desagradável.

Análise Arkade: repetição e falta de criatividade estragam o novo jogo das Tartarugas Ninja

Como fã das Tartarugas Ninja e da Platinum Games, fiquei bem decepcionado com o produto que foi entregue. Fica a impressão de que o jogo foi feito às pressas — para sair antes do novo filme chegar aos cinemas, talvez? — e essa repetição toda foi a maneira encontrada pelos produtores para aumentar a vida útil de um jogo que mesmo assim não é lá super longo.

Ainda acredito no potencial da Platinum Games, mas não recomendo este jogo nem para os fãs da produtora, nem para os fãs das Tartarugas. Se quiser algo realmente divertido, tire o pó do seu Super Nintendo e curta o TMNT IV: Turtles in Time ou algum outro clássico do tipo.

Teenage Mutant Ninja Turtles: Mutants in Manhattan foi lançado em 24 de março, com versões para PC, PS3, PS4, X360 e XOne. O jogo está todo em inglês — não possui legendas nem dublagem em português brasileiro.

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