Arkade Comics – A história do Recruta Zero

15 de Abril de 2018
Autor: Junior Candido

Arkade Comics - A história do Recruta Zero

Os quadrinhos sempre foram terreno fértil para heróis, vilões, galáxias distantes e até mesmo personagens cotidianos, como um gato folgado, uma garota reflexiva e uma turminha de amigos que adoram entrar em confusões. Porém, o exército nunca foi bem explorado, a não ser pelos personagens de Mort Walker, que trouxeram um pouco de humor e insanidade nas tiras e revistas do Recruta Zero.

Com muita irreverência desde as suas primeiras histórias, Zero e seus companheiros de exército, que servem no Quartel Swampy, seguem até hoje contando suas divertidas histórias, satirizando o estilo de vida militar, e levando toda a insanidade e maluquices de um local que nem o Pentágono sabe direito o que acontece por lá.

Mort Walker nos deixou neste ano, aos 94 anos, mas o seu legado permanece, através dos filhos, e de todos os que o apoiam nas histórias. Por isso, vamos conhecer como nasceu o soldado mais preguiçoso de todos os tempos, seu sargento explosivo, e seus companheiros birutas.

Antes do exército, a universidade

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Beetle Bailey, o nome do personagem nos Estados Unidos, nasceu em 4 de setembro 1950, em uma tira a qual o apresentava indo para a universidade, munido apenas de uma escova de dentes, já que, para ele, os colegas de quarto poderiam providenciar o resto. Seu espírito folgado e espertalhão já existia desde os primeiros dias, assim como a ausência de seus olhos, sempre cobertos por um chapéu. Existe uma única tira em que os olhos do personagem são revelados, mas tal tira nunca foi divulgada, salvo em um especial sobre o personagem, chamada no Brasil, de O Melhor Do Recruta ZeroArkade Comics - A história do Recruta Zero.

Nas tiras, já havia muito do que poderíamos ver no Quartel Swampy depois: personagens carismáticos, cada um com a sua personalidade e esteriótipo, em histórias que trazem muito da juventude dos anos 50, com lanchonetes, Rock’n Roll, além de cabelos e roupas característicos da época.

A tira nunca fez sucesso, passando por apenas 12 jornais, muito pouco para uma tira ser considerada um sucesso e render lucro. O projeto já estava em pauta para ser arquivado, quando explodiu a Guerra da Coreia, e, com ela, um grande sentimento nacionalista, fruto das vitórias dos EUA na Segunda Guerra Mundial. Com isso, Zero acabou escolhendo a vida militar, se alistando em 1951.

A Guerra da Coreia e o alistamento “eterno”

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Mesmo nas tiras de Zero universitário, o futuro recruta já flertava com o exército, com algumas indicações de que ele gostaria de tentar a vida militar. Foi assim, com direito a uma tira mostrando o seu alistamento, que o personagem ingressa nas Forças Armadas, com uma inteligente transição do universitário para o soldado. É possível até ver a sua despedida da família, em uma das poucas ocasiões que seu pai, mãe e irmão aparecem.

O alistamento teve uma razão bem específica. A Guerra na Coreia foi um dos primeiros eventos da Guerra Fria, entre os EUA e a União Soviética, e, com isso, o forte sentimento nacionalista estava à flor da pele, devido aos eventos da Segunda Guerra ainda estarem nas memórias de todos nos Estados Unidos, afinal, haviam se passado apenas cinco anos após a queda de Hitler e da rendição do Japão. Mort Walker quis usar este sentimento a seu favor e aproveitou o fato de que vários estudantes universitários estavam sendo recrutados para lutar na península coreana.

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Assim, Zero não ficou para trás e nem esperou o recrutamento, se alistando “voluntariamente” para o serviço militar. Porém, ao contrário do que um alistamento, ainda mais em época de guerra, pode significar, o novo recruta nunca entrou em combate. Ao invés de narrar histórias contra possíveis inimigos, Walker decidiu contar o dia a dia dentro do quartel, criando personagens, de diferentes hierarquias, para “conviverem” juntos descascando batatas, cavando trincheiras e com os soldados buscando diferentes maneiras de fugir do serviço.

No início, a recepção foi dividida. Enquanto os próprios militares adoravam as tirinhas, que já estavam sendo publicadas em mais de 100 jornais na época, alguns outros órgãos miliatares, entre eles a revista oficial das Forças Armadas, Stars and Stripes, buscaram boicotar e proibir as histórias, alegando que elas seriam uma afronta para a ordem militar. O que eles não entendiam é que as histórias de Zero nunca mostravam nada além do que já existe em qualquer sistema militar, porém de maneira exagerada, para gerar o bom humor.

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Assim, soldados folgados, sargentos ogros, generais desligados e cozinheiros relaxados, comuns de verdade em qualquer quartel do mundo, dividem espaço com oficiais de ótima competência, mas estes bons soldados, não nos fariam rir nunca com suas histórias “rotineiras”. De qualquer forma, para evitar problemas, Mort Walker nunca inseriu seus soldados em nenhum conflito real durante o passar dos anos — e olha que os EUA passaram por Vietnã, Iraque, Afeganistão e vários outros locais complexos — deixando-os apenas no quartel esquecido pelo Pentágono.

“Nunca deixe para amanhã o que pode ser feito depois de amanhã”

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Com o Zero devidamente alistado e alojado no Quartel Swampy, era hora de apresentar ao público os seus colegas de trabalho. Mort Walker disse, em certa ocasião, que “você não precisa morrer abraçado com seu primeiro erro, está livre pra criar novos erros a qualquer hora”. Isso faz com que o cartunista tenha uma veia experimental bem forte, e que não tenha problemas em errar, ou em tentar várias vezes fazer o mesmo personagem.

Neste contexto de trabalho, surgiu o Sargento Tainha, que no início, era magro e com os dentes na frente, parecidos com a Mônica, inclusive. O tempo foi passando, o sargento foi engordando, até se transformar no sujeito desengonçado, morto de fome, que dá cascudo nos soldados, que ao mesmo tempo demonstra zelo por eles, e que é extremamente desajeitado com as mulheres. Nessa linha, diversos personagens foram sendo introduzidos e, caso não dessem resultado, eram retirados sem nenhuma explicação. Nessa leva, Foguinho, Texas e Sebinho, ficaram de fora, enquanto Dentinho, o cozinheiro Cuca, o General Dureza e tantos outros, acabaram por ficar no quartel.

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Com o sucesso das tiras, e a sua fácil adaptação global, afinal, todo país no planeta tem um quartel e entende o funcionamento da vida militar, o Brasil começou a receber as histórias do Recruta Zero desde os anos 60, através da Rio Gráfica Editora, que se transformaria depois na Editora Globo, que publicou a revista até os anos 90. A Editora Saber também publicou suas histórias, mas com o título de Zé, o Soldado Raso, entre 1970 e 1973. Hoje o soldado tem suas tiras publicadas no Estado de São Paulo, O Globo, Zero Hora, A Tarde, O Estado de Minas, A Gazeta (do Espírito Santo), Diário de Pernambuco, Jornal de Brasília e Diário do Nordeste, além de livros de bolso, editados pela gaúcha L&PM.

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