Mortal RetroArkade: Gente de verdade se matando marcou o primeiro MK

5 de Abril de 2015
Autor: Junior Candido

Mortal RetroArkade: Gente de verdade se matando marcou o primeiro MK

E no mês que nos trará Mortal Kombat X para derramar mais sangue alheio, a RetroArkade entra em uma série especial relembrando os quatro primeiros jogos da franquia. E no princípio o verbo eram atores “se matando” nos fliperamas.

Pra falar de Mortal Kombat, me permita contar sobre minha primeira experiência com o jogo: uma vez com meu pai e aquele clássico “toma esse dinheiro e vai jogar um pouco” lá pelos idos de 1992, fui na única máquina disponível: a do MK. O que chamou a atenção até então nem foram a violência exagerada ou o sangue que corria e sim os lutadores: eles eram gente “de verdade”.

De fato, os games ainda engatinhavam no quesito “realismo” e ver pessoas quase reais vestindo roupas reais trocando socos reais em um mundo totalmente novo, embora altamente influenciado pela cultura asiática marcou e desde então um pequeno fã de seis anos foi crescendo e acompanhando a série, mesmo com os devaneios da geração 128-bit, vibrando com a ressurreição da franquia em 2011.

Como Mortal Kombat X chegará ao mundo neste mês de abril, a RetroArkade será especial e mortal. Iremos abordar os quatro primeiros jogos da série durante os quatro domingos do mês. Será uma oportunidade para podermos conversar sobre estes inesquecíveis e grandiosos clássicos, além de trocar ideia sobre uma das franquias mais legais dos videogames. Vamos lá?

Do Dragão Branco ao Dragão Chinês

Mortal RetroArkade: Gente de verdade se matando marcou o primeiro MK

Mortal Kombat “nasceu” aqui.

Para conhecermos melhor Mortal Kombat, precisamos voltar um pouco no tempo, mais precisamente no ano de 1988. Em plena década recheada de clichês e tosqueiras (das boas) de 80, Van Damme havia acabado de conquistar o mundo ao ganhar o torneio clandestino Kumite em O Grande Dragão Branco, aquele filme clássico de Sessão Kickboxer que é idolatrado por fãs do gênero até hoje.

Quem lembra do filme, vai reparar algumas semelhanças com o jogo em questão: temos um torneio aonde os lutadores vão até as últimas consequências para obter a vitória, todos os clichês possíveis de um filme B e vários estilos de luta misturados, além de intrusos, já que o personagem de Van Damme e seu amigo são os únicos ocidentais em um torneio que acontece em Hong Kong.

Pois bem, Ed Boon e John Tobias pelo visto adoraram o filme e se inspiraram muito com tudo o que viram, até porque o próprio Van Damme era cotado para estrelar o tal jogo de luta, planejado para concorrer com Street Fighter (o primeiro, de 1987), que mesmo não sendo o fenômeno que foi o seu sucessor, já havia despertado muitas mentes e ideias, que foram apresentando ao público uma a uma durante a década de 1990.

Mortal RetroArkade: Gente de verdade se matando marcou o primeiro MK

Quem não tem Van Damme ataca com Johnny Cage.

Como o ator belga não pôde estrelar o jogo, então as mentes insanas de Boon e Tobias começaram a preparar seus próprios conceitos (também fortemente inspirados pelo filme Os Aventureiros do Bairro ProibidoRaiden e Shang Tsung “vieram” de lá.) em um torneio único: com muito sangue e o extremo de poder matar o inimigo derrotado, prática condenável no filme de luta. E não foi só isso, o torneio clandestino envolvendo dinheiro e glória pessoal virou um torneio de proporções épicas, envolvendo até o fim da raça humana em caso de derrota e nos apresentando ambientes únicos.

Conceito feito, faltava então um nome. Entre Kumite, Dragon Attack, Deathblow e até Fatality (pois o conceito já existia), acabaram optando pelo simples Combat, porém com o K do torneio Kumite. Steve Rithie, um dos membros da equipe, sugeriu o Mortal antes do conceito e por fim ganhamos este nome que ficou marcado para sempre.

O Décimo Torneio Mortal

E trabalhando neste conceito, eis que em 1992, chega aos fliperamas de todo o mundo, com a Midway, o primeiro Mortal Kombat. E seu sucesso foi instantâneo, por trazer as inovações que todos já sabemos de cor.

Ao iniciar o fliperama, tínhamos a disposição um pouco da história do kombate: o feiticeiro Shang Tsung organizou este torneio para continuar a tradição do Mortal Kombat, que segundo as regras criadas pelos deuses, estava a ponto de ter a conquista da Terra pois haviam conquistado nove vitórias das dez necessárias para a façanha. Raiden, o deus trovão e protetor da Terra participa do torneio, contando com o representante da Sociedade Lótus Branca Liu Kang, o único monge de cabelos compridos, já que seu ator, Ho Sung Pak, não topou raspar a cabeça de maneira nenhuma.

O ladrão Kano foi “convidado” para participar deste torneio, o que fez com que a Sonya Blade, soldado das Forças Especiais que estava no seu encalço, acabasse entrando no torneio também, já que o ladrão era apenas uma isca. Johnny Cage, o Van Damme homenageado e esterotipado, entra nos combates achando que era um torneio “normal”, onde poderia provar que sua luta não é apenas efeito especial. Movidos pelo ódio, Sub-Zero e Scorpion entram um querendo a cabeça do outro, com tanto ódio que Scorpion volta até como espectro (já que foi morto pelo ninja gelado) buscando sua vingança. E assim como Shang Tsung, o gigante de quatro braços Goro, o atual campeão do torneio aguardava sua próxima “vítima”.

Mortal RetroArkade: Gente de verdade se matando marcou o primeiro MK

O torneio então começa quando você coloca a ficha (ou aperta start) e escolhe seu lutador. A partir daí uma torre vai te levando um andar mais alto conforme o seu sucesso. Até chegar ao famoso Endurance, onde lutas com dois lutadores em sequência deixava tudo mais difícil. Passando por eles, era a hora de encarar Goro, o único personagem que não era um ator digitalizado; para fazer o gigante, o negócio foi usar um boneco e fazer stop motion. E vendendo o gigante, Shang Tsung o desafia pessoalmente, para perder e o jogador conhecer o desfecho de seu personagem na trama.

Sucesso instantâneo, o jogo foi disponibilizado para praticamente todas as plataformas possíveis, sofrendo cortes em todas elas. Seja pela limitação de sons (Mega Drive), de violência (Super Nintendo) ou técnicas mesmo (Master System e Game Boy), nenhuma conversão se equivalia a original, porém todas elas traziam o que importava: a essência do torneio e as novidades tecnológicas da época, como os sons que eram demais, e davam um clima superior aos outros jogos de luta pelo simples fato de ouvir Liu Kang gritando “chinesamente” seus golpes ou o eterno GET OVER HERE, gritado por Scorpion pela primeira vez aqui.

E sim, se você não quisesse “aguinha”, preferindo sangue pra valer, ou você conseguia saciar sua “sede” nos arcades ou sendo um dono de Mega Drive e fazer a sequência ABACABB na tela “Code of Honor”. Além disso, o Game Boy era o único sistema que te permitia jogar com Goro! Na tela “The End”, após terminar o jogo, era preciso segurar ao mesmo tempo cima, esquerda, A e Select, soltando apenas quando tivesse que digitar suas iniciais. Após insere-las, tinha que pressionar A e depois Start, aparecendo uma tela com o Goro e liberando o personagem.

A classificação dos jogos é culpa desse torneio e seus Fatalities!

Mortal RetroArkade: Gente de verdade se matando marcou o primeiro MK

Claro que o Mortal Kombat fez sucesso pelos lutadores digitalizados a partir de atores reais, sua música e clima sombrios e muitos outros fatores, mas não há como negar que a violência extrema foi o que fez ele ser muito comentado e protagonista de muita polêmica.

Qual a reação de muito pai por aí ao ver seu filho lindo e maravilhoso matando o adversário vencido com enorme brutalidade? Sim, os famosos Fatalities iam contra toda a cultura conservadora e “infantil” que os games carregavam. Ironicamente, um torneio baseado na honra foi corrompido pelo ódio e vingança, ocasionando muitas mortes, mostrando que uma nova era estava nascendo não só no torneio e sim nos games.

Mortal RetroArkade: Gente de verdade se matando marcou o primeiro MK

Um dos “legados” de Mortal Kombat: a classificação etária dos jogos.

Foi natural que muita gente, apoiados pelo então presidente caubói/texano/conservador George W. Bush (o pai), que odiava os Simpsons mas adorava mandar matar pessoas no Iraque, e motivados por outro jogo polêmico da época, Night Trap (aquele onde bandidos atacavam garotas de camisola em uma noite do pijama) acabaram gerando conversas atrás de conversas no Senado dos Estados Unidos, o que resultou em 1993 na criação da ERSB, órgão que até hoje determina a classificação etária por lá e acabaram servindo de padrão para o resto do mundo.

Só para se ter ideia de como a ERSB tem sua importância no universo dos games, vamos lembrar de GTA: San Andreas, jogo que mantém o selo M (Mature – de 17 anos para cima). Ao ser descoberto o polêmico Hot Coffee e suas missões envolvendo sexo, o jogo recebeu o selo AO (Adults Only), o que ocasionou boicote de muita loja por lá até que a Rockstar retirasse o minigame do jogo. Tudo culpa dos Fatalities!

Nasce uma treta: Street x Mortal

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Será isso possível um dia?

E com toda essa bagunça envolvendo violência, Senado dos EUA, avanços gráficos e técnicos em um jogo de luta, Street Fighter viu pela primeira vez seu reinado ser abalado. Fatal Fury e Art of Fighting já existiam e eram superiores tecnicamente, porém não abalaram os World Warriors. Mortal Kombat sim.

De influência de Street Fighter, Mortal Kombat tinha o Test Your Might, semelhante ás fases bônus que existiam nos games da Capcom. A variedade cultural dos lutadores também veio do torneio rival, porém o torneio da Midway tinha suas próprias cartas na manga.

A começar pelos segredos. Enquanto o rival ostentava diversos movimentos especiais (os quais MK também usava), foi no cenário da ponte que conferimos duas grandes novidades: a interação com o cenário, pois podíamos mandar o derrotado direto para os espinhos no fim dela (com a cabeça dos programadores espetadas como “homenagem”) ou na parte de baixo, encarar o primeiro lutador secreto do gênero, o guarda-costas de Shang Tsung que domina a invisibilidade, Reptile.

Mortal RetroArkade: Gente de verdade se matando marcou o primeiro MK

Mortal Kombat usou o mesmo esquema de Bônus de Street Fighter…

Mortal RetroArkade: Gente de verdade se matando marcou o primeiro MK

… mas introduziu um personagem secreto, coisa que a Capcom fez anos mais tarde com Akuma.

E também foi o primeiro jogo a levar a sério o fator lendas urbanas. Já lutou com Ermac? O ninja vermelho, que era apenas o ERror MACro que misturava as cores do ninja e as faziam ficar apenas no vermelho foi uma delas. Tanto é que logo depois o ninja acabou participando da série normalmente.

Tudo isso ocaisonou o óbvio: várias versões com muitas atrações, buscando ao máximo agradar os jogadores e fornecer a concorrência sadia que tão bem faz para a indústria gamer. Tudo isso um pouco antes de os dois rivais ganharem a companhia de mais um meteoro arrebatador de corações: The King of Fighters, que traria mais qualidade à próspera geração dos jogos de luta.

E por hoje é só. Qual a sua lembrança em relação ao primeiro Mortal Kombat? Onde jogou ele pela primeira vez? Vamos aproveitar essa semana relembrando do primeiro jogo, pois domingo que vem estaremos de volta com o segundo jogo da série, que consolidou de vez a franquia entre as maiores da história. Até lá.

4 Respostas para “Mortal RetroArkade: Gente de verdade se matando marcou o primeiro MK”

  • 5 de Abril de 2015 às 15:17 -

    leandro leon belmont alves

  • pode ser que ocorra o Street vs Mortal um dia, mas o “massavelho” disso era mais forte nos anos 90.

    • 5 de Abril de 2015 às 17:31 -

      Junior Candido

    • Mas embora comentei sobre isso, sempre achei muito estranho o Ryu dando um Shoryuken que arranca a cabeça do oponente ou a Chun-Li abrindo alguém no meio com uma chave de perna hehe

  • 6 de Abril de 2015 às 01:24 -

    Diego Baptista

  • Parabéns pelo post Junior, despertou muita nostalgia. Meu primeiro encontro com a franquia MK não foi no seu “primogênito”, e sim no MK 2 no SNES. Foi uma experiencia surreal ver meus amigos lutando, um jogando com um guerreiro que atirava seu chapéu afiado e o outro jogando com um ninja de amarelo, que me remetia ao clássico da Sessão da Tarde:  American Ninja. Mas é claro que o primeiro fatality a gente nunca esquece, ver o Scorpion tostar o Kung Lao foi incrível, a partir daí frequentei, quase todo fim de semana, a casa desse meu amigo, o único nas redondezas que possuía o cartucho desde jogo sinistro e sangrento.Lembro-me que na escola a galera só falava e criava mil teorias sobre as histórias dos personagens, pois ninguém manjava dos paranauê do inglês, e quem contava que havia vencido o Shao Khan ganhava seus quinze minutos de fama. Bons tempos. 

    • 6 de Abril de 2015 às 10:34 -

      Binholouco13

    • Exato! eu e meus primos tambem começamos no II e te digo, Rolou varios Kombats gerados pelas Rasteiras dos ninjas e do esqueminha de socos rapido que faziam os personagems gritarem muito engraçados HUHAHUHAHUAHAHAHUHUHU !

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