RetroArkade – Mighty Final Fight, uma aula de adaptação

7 de março de 2021
RetroArkade - Mighty Final Fight, uma aula de adaptação

Em 1989 chegou o game que seria a continuação de Street Fighter, mas, mesmo compartilhando o universo, se tornou em uma série própria. Final Fight chegou trazendo muita qualidade e consolidando a Capcom como uma das grandes também no beat ‘em up. E, como era de costume, todos os sucessos dos arcadas apareceriam, cedo ou tarde, nos consoles.

No caso de Final Fight, mesmo com algumas limitações, o Super Nintendo recebeu uma conversão até que agradável, dentro do possível. E o Sega CD recebeu uma versão que levaria ainda mais qualidade para as casas dos jogadores. Mas ainda assim, outro sistema, já veterano, ainda ganharia uma versão só sua. O NES, já comemorando seus 10 anos de história (pois chegou como Famicom no Japão em 1983), recebeu uma versão do já clássico game de pancadaria.

Mas, ao invés de uma conversão fiel aos arcades, algo que seria muito difícil em um sistema muito limitado, a solução foi simples: adaptar todo o game para o NES, incluindo seus personagens, que ganhariam o famoso formato SD de cabeções e corpinhos, e a história do jogo, que foi recontada, agora em um tom mais engraçado e leve.

Foi assim que surgiu uma curiosa e importante adaptação de games, e mais um capítulo bacana da história dos videogames.

Contextualizando 1993

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Em 1993, o NES era extremamente popular e tinha até uma versão “compacta”

Para entender o que motivaria a Capcom a lançar uma adaptação de Final Fight no NES, é preciso compreender o contexto da época. Em 1993, Super Nintendo e Mega Drive já estavam consolidados como consoles da atual geração, e até já viam a sombra da próxima geração chegando, com anúncios de consoles como o 3DO, o Playstation ou o Saturn, entre outros.

Mas ainda assim, não era todo mundo que poderia ter um destes consoles de 16-bits, pois ainda eram caros. A saída era jogar nas locadoras, para acompanhar as novidades, e manter em casa videogames mais antigos. Muitos possuíam NES e Master System em suas casas, isso sem falar na quantidade de pessoas que ainda contavam com um Atari 2600 como fonte de entretenimento.

No Brasil, a situação era bem parecida. Tínhamos a presença da SEGA no país, através da Tec Toy, que fabricava e comercializava Master System, Game Gear e Mega Drive. Já a Nintendo, teria seus consoles vendidos de forma oficial neste ano de 1993, com o nascimento da Playtronic, empresa que foi a “Nintendo no Brasil” nestes dias. Antes disso, o console foi popularizado no país através de seus diversos clones.

Assim, seja no mercado oficial, ou mesmo no mercado cinza, o fato era a de que o NES era, naqueles dias, o console com a maior base instalada do mundo. Nada mal, então, em investir em um sistema instalado em diversas casas pelo mundo, com um game que era um dos grandes nomes do momento, certo? Pois foi assim que a Capcom pensou.

Igual, mas diferente

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Jessica, a filha do prefeito de Metro City, Haggar, foi sequestrada pela Mad Gear. O político, junto de Cody e Guy, então decidem sair na porrada pelas ruas da cidade, tanto para o resgate, quanto para colocar um ponto final na gangue. Sim, a história e os fatos desta versão de NES é a mesma dos arcades, Sega CD e Super Nintendo.

Mas é apenas no seu enredo que estão as semelhanças. Para “encaixar” no NES, foram necessárias muitas mudanças. Começando pelos gráficos: tínhamos personagens em SD (o Super Deformed, o famoso cabeção-corpinho), se inspirando em um game que já havia dado certo no 8-bits: River City Ransom. Isso garantiria cenários adaptados e, assim, um jogo mais aceitável aos padrões do console.

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Assim, o game aceitava a possibilidade de se jogar com os três protagonistas. Mas, ao contrário dos arcades, aqui rola apenas o Single-player, sem a possibilidade de se jogar com um amigo. Outra novidade, que deixou o jogo interessante até para quem já jogava em outros sistemas, era um sistema de evolução, cujos golpes elevavam o nível do personagem, permitindo, com isso, golpes mais fortes.

Entre os “cortes” na adaptação, também tivemos a ausência dos barris, caixas e baldes com armas e comida. Em seu lugar, aparecem barris rolando pela tela, podendo ser atingidos para conseguirem tais recursos. Assim como fases bônus para a coleta de mais itens.

Outra mudança está no tom do jogo. Como o Super Deformed entrega um ar mais cômico, a história de Mighty Final Fight caminha desta forma. Há, vez ou outra, alguns diálogos com os personagens e chefões. E, não é comum encontrar conversas mais leves que as versões de arcade. Fazendo o game se tornar, praticamente, uma paródia. Uma brilhante solução para um game que deveria, de fato, ser adaptado.

Nos padrões do NES, tudo dentro do esperado!

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Com o nome Final Fight na embalagem, a sua versão Mighty teria, mesmo com as adaptações, compreensíveis, o desafio de trazer diversão e qualidade. E a Capcom conseguiu sucesso em ambos os aspectos. Seu visual é rico, colorido e cheios de detalhes. A empresa já dominava de maneira plena o console, com os games Mega Man, então não foi um trabalho dos mais árduos manter a qualidade visual neste game.

Os personagens tem boas animações e compartilham de efeitos sonoros muito bem introduzidos. Cada fase tem uma música própria que, embora bem diferente dos arcades, eram excelentes e traziam um clima de ação muito bom. Mais uma vez, é possível ver inspirações no que já havia sido feito em Mega Man e, mais uma vez, era possível ver qualidade no port.

E, por fim, a jogabilidade, que fechava o trio “gráficos-música-gameplay” com a competência esperada. O NES conta com apenas dois botões de ação, e ainda assim, os personagens dão sequências de golpes, pulam, dão voadoras, agarram os inimigos e contam com uma variedade de golpes muito interessante. Até os golpes especiais são simples: dois toques para o lado do ataque e botão de ataque.

Uma aula de adaptação

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Review do game na revista Game Power

Mighty Final Fight merece não só ser lembrado, mas também é uma ótima aula sobre como adaptar um game inteiro, para encaixar em um sistema muito inferior. Naqueles dias, os jogadores de NES, que contavam apenas com games Disney e jogos do Mega Man, gostariam de ver mais games adaptados para seu sistema. Os jogadores de Master System tiveram um pouco mais disso, graças as versões de Game Gear, que podiam ser facilmente adaptadas ao 8-bits.

Mas para os donos de NES, restava apenas esperar pela boa vontade dos estúdios, ou da pirataria, que levaria ao sistema Street Fighter, por exemplo. E a Capcom, com o know-how de seu robô azul, e dos games Disney, sabia como fazer um game competente no console, em seus dias finais. Assim, conseguiu unir sua competência e boas ideias, para conseguir levar um game que, de modos naturais, jamais conseguiria rodar no querido “Nintendinho“.

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