De Volta Para o Arkade: Bloco a bloco, a história de Tetris

27 de dezembro de 2015
Autor: Michel Lichand

De Volta Para o Arkade: Bloco a bloco, a história de Tetris

Conhece a história dos videogames? Conhece mesmo? Pois pra quem é historiador de videogame e quem quer aprender um pouco mais, entre no nosso DeLorean e venha conosco De Volta Ao Arkade para ver a história do game mais vendido da história, Tetris!

Qual é o game mais famoso da história da humanidade? Super Mario BrosAngry BirdsGrand Theft Auto? A resposta é nenhum desses, e sim um simples game com várias formas coloridas feitas de quatro blocos. Tetris é considerado o game mais vendido da história da humanidade, com mais de cento e cinquenta milhões de cópias vendidas por múltiplas plataformas.

Só que o que muita gente não conhece é a história por trás da criação deste clássico. Uma história que envolve o regime comunista, capitalistas viciosos, magnatas da mídia, japoneses esperançosos, acordos secretos e o começo do fim da Guerra Fria. Uma história que começa em…

Moscou, 1984

De Volta Para o Arkade: Bloco a bloco, a história de Tetris

Alexey Pajitnov vivia em um mundo na beira a mudança. Fora das fronteiras de Moscou, a Guerra Fria ainda dominava o clima mundial. Estados Unidos contra a União Soviética, presos em uma batalha que se espalhava pela política, pela economia, pela cultura, mas principalmente, pela tecnologia.

Procurando passar do nível tecnológico de seu inimigo, a União Soviética deu a Academia de Ciências da URSS algo muito raro naquela época: liberdade de pesquisar aquilo que interessasse os homens e mulheres trabalhando em cada departamento da academia. Contratado pelo Centro de Computação da Academia, Alexey tinha um trabalho: pesquisar avanços nos campos de inteligência artificial e reconhecimento de linguagem.

Para testar a capacidade dos computadores soviéticos, Alexey passava o tempo programando pequenos jogos com um foco psicológico. Em 1984, ele trouxe para o centro o seu jogo de tabuleiro favorito: Pentamino.

De Volta Para o Arkade: Bloco a bloco, a história de Tetris

As mecânicas do jogo eram simples. Há doze formas diferentes, todas feitas de cinco quadrados, e você deve colocar elas em uma caixa, enchendo todos os buracos. Alexey queria implementar seu jogo favorito no computador, mas começou a fazer algumas mudanças. Primeiro, para ajudar o computador a processar o game com mais rapidez, ele cortou um bloco de todas as formas. Agora eles não eram mais pentaminós, e sim tetraminós.

Ao virar a caixa de Pentamino na vertical, Alexey descobriu sua próxima mudança ao jogo original: as peças iriam cair do céu, e era o trabalho do jogador colocar elas em seu lugar. No começo, esta primeira versão se chamava Genetic Engineering. Mas após um tempo, Alexey decidiu mudar o nome para Tetris. A origem do nome era uma mistura de tetraminós e tênis, o esporte favorito de Alexey. 

Rodando o programa no seu Elektronika 60Alexey chamou os amigos para verem sua criação. As peças caiam do céu, e assim que uma linha era completada, ela desaparecia. Um elemento de corrida contra o tempo foi adicionado. Inicialmente, o game criou um pouco de confusão. Mas assim que as pessoas entendiam as mecânicas, elas ficavam viciadas.

Em pouco tempo, Tetris se espalhou pelo Centro de Computação. Diferente dos games americanos da época, que focavam em matanças, explosões e perseguições, Tetris simplesmente pedia a atenção e concentração do jogador.

“O game apela para um lado diferente do ser humano, o lado da construção,” Alexey disse em uma entrevista anos depois. “O caos vêm na forma das peças randômicas, e você tem o trabalho de colocar elas em ordem.” Só que o que fica na tela não são os seus sucessos, mas sim as suas falhas. Toda linha completa desaparece. Alexey explica que “tudo que você consegue ver são os seus erros, e isso faz com que você queira consertar tudo, encher os buracos.”

Tetris toma o mundo

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Vadim Gerasimov era um estudante de ensino médio em MoscouApesar de ter apenas dezesseis anos, Vadim era constantemente levado para o Centro de Computação pelo seu professor de ciência, que deixava ele brincando com os computadores IBM do local. O garoto rapidamente aprendeu programação e começou a trabalhar em pequenos projetos para se divertir.

Durante um desses projetos, Vadim conheceu Dmitry Pavlovsky, um dos pesquisadores do centro. Impressionado com a habilidade do garoto, Dmitry o recrutou para ser o ‘expert de PC‘ da área. Junto com Alexey, amigo de Dmitry, os três começaram a importar games do Elektronika 60 para o PC, na esperança de um dia juntar todos eles em um pacote e vendê-los. Uma esperança que nunca iria se concretizar na situação deles, afinal, a União Soviética proibia o lucro privado.

Em 1985, junto com AlexeyVadim trabalhou na transferência de Tetris para o IBM, dando cor aos objetos do game, que até então eram simplesmente monocromáticos. Esta versão foi a primeira espalhada para amigos dos desenvolvedores de fora do centro. Ela foi copiada… e copiada… e copiada… em duas semanas, todos os computadores de Moscou estavam rodando Tetris. Mesmo com todo esse sucesso, as leis soviéticas impediam Alexey de ser mais nada do que uma celebridade local.

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Primeiro, a União Soviética. Depois, os países aliados. Finalmente, a Europa inteira. A cópia de disquetes não respeitava as fronteiras de país para país. A versão para PC chega na Hungria, um país que estava  exportando brinquedos e software do leste europeu pela Cortina de Ferro, para o oeste. Programadores húngaros logo criam uma versão de Tetris para o Apple II e o Commodore 64. 

Entra em cena Robert Stein, presidente da companhia de software britânica Andromeda Software. Uma das maiores fontes de renda da Andromeda eram softwares que a Hungria providenciava. Tetris imediatamente capturou o coração do executivo, que logo estabeleceu planos para comprar os direitos da versão de PC diretamente de Alexey.

Mesmo antes de entrar em contato com o programador ou com a URSS, Stein já vende os direitos para outras companhias nos Estados Unidos e entra em um avião com destino Moscou. Seu plano era assinar o contrato e voltar para a Inglaterra com os direitos do game nas mãos. Infelizmente, a União Soviética não entendia o valor do game. Stein não estava pronto para desistir, e logo decidi dizer que o game foi inventado pelos programadores da Hungria, essencialmente roubando Tetris das mãos de seu criador.

De Volta Para o Arkade: Bloco a bloco, a história de Tetris

Em Novembro de 1986, Mirrorsoft, uma gigante do entretenimento britânico, lança Tetris com o slogan de “o desafio soviético”. Esta versão está repleta de temas soviéticos, como imagens da Praça Vermelha, de Yuri Gagarin, dentre outros. Com o marketing anunciando que Tetris era o primeiro jogo ‘do outro lado da cortina de ferro’, o game vira uma sensação imediata e atrai a atenção de todas as companhias do mundo. Inclusive as da União Soviética.

Perto do lançamento do game, a ELORG (electronorgtechnika, o departamento do governo soviético que lidava com a exportação de software) manda um telegrama para Stein, avisando que ele não tem os direitos do Tetris. Isto foi um resultado das ações do então novo presidente Gorbachev, que queria criar um mercado de exportação para o Oeste, mas sob o controle do estado. Stein é chamado para Moscou, onde ele consegue convencer o governo a assinar um contrato.

Tetris é lançado para os computadores dos Estados Unidos e da Inglaterra, logo se tornando um best-seller. Mas Stein estava de olho em outro mercado. O contrato que ele havia assinado dava para ele os direitos de produzir Tetris para computadores, mas não para o arcade ou outros sistemas que os soviéticos “ainda não haviam conhecido”. O futuro de Tetris, no entanto, está em uma terra distante: o Japão.

Corrida capitalista

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Robert Maxwell, o homem da foto acima, era um magnata da mídia britânica que tinha controle de vários jornais e companhias de entretenimento, entre elas a Mirrorsoft e a Spectrum, donas dos direitos de publicação de Tetris. Enquanto Stein estava em Paris convencendo os soviéticos a cederem os direitos de arcade e consoles do game, as duas empresas de Maxwell venderam esses direitos para outras companhias.

Spectrum dá os direitos de produzir Tetris no Japão para a BPS (Bullet Proof Software), enquanto a Mirrorsoft deu os direitos de produzir o game para os Estados Unidos e o Japão para a Atari Games. As duas companhias começam a batalhar entre si, e o chefão Maxwell fica do lado da Mirrosoft. Mesmo assim, a BPS produz uma versão de Tetris para o Famicom em 1988, vendendo mais de dois milhões de cartuchos…

… e atraindo a atenção de um Minoru Arakawa.

De Volta Para o Arkade: Bloco a bloco, a história de Tetris

O então presidente da Nintendo of America, Arakawa estava trabalhando na criação do novo portátil da Nintendo, o Game Boy. Ele têm uma ideia genial: colocar Tetris dentro do pacote do Game Boy para garantir mais vendas. Para conseguir os direitos para uma versão portátil dos soviéticos, ele contrata Hank Rogers, o homem por trás da versão para o Famicom do game.

Ao mesmo tempo, Stein nota o que está acontecendo, e pega um avião para Moscou. Não querendo perder essa chance, Maxwell manda seu filho para Moscou. E Rogers, após muitas conversas sem resultados, acaba indo para Moscou ele mesmo. Os três chegam na cidade no mesmo dia e uma corrida para chegar a ELORG começa.

A data é 21 de Fevereiro de 1989. Rogers consegue uma reunião com a ELORG. Ele impressiona os soviéticos e Alexey com o Game Boy e consegue os direitos para a versão portátil do jogo. Naquele momento, ele puxa a versão para o Famicom do game, querendo impressionar os soviéticos. Mas ele acaba acidentalmente revelando a verdade para a URSS: Stein havia vendido os direitos para o console de Tetris, direitos que ele não tinha, e a grande União Soviética não havia visto nem um centavo desse acordo.

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Rogers dá os royalties dos cartuchos já vendidos para a URSS e acaba do lado bom dos soviéticos. No dia seguinte, ele passeia com Alexey na frente do Kremlin para celebrar o contrato. Stein chega na ELORG e se depara com soviéticos irritados. Forçado a assinar um contrato alterado, ele fica apenas com os direitos de versões de Tetris para o arcade. O filho de Maxwell chega no dia seguinte e não consegue nada.

Portáteis estão com a Nintendo. Computadores e arcade estão com Stein. Nada está com Maxwell. Mas falta alguma coisa… quem tem os direitos de Tetris para os consoles? Rogers nota esta chance e imediatamente avisa a Nintendo, que oferece um valor tão alto que, apesar de não ter sido revelado até os dias de hoje, foi o suficiente para amedrontar Maxwell, um dos mais poderosos empresários do século vinte.

ELORG anuncia para todas as outras empresas que elas estão proibidas de encostar em Tetris. Naquela noite, Rogers e alguns executivos da Nintendo celebram no hotel de Moscou em que estavam. Maxwell tentou lutar contra a decisão, usando seu império na mídia para convencer o governo soviético a ficar do seu lado, chegando até a receber uma mensagem de Gorbachev dizendo ‘não se preocupe com esses japoneses.’ Mas a Nintendo acabou ganhando todas as batalhas judiciais que seguiram, sempre com a ajuda da ELROG e de alguns membros do governo.

Quando Maxwell desapareceu no seu iate em 1991, o destino já estava decidido: os comunistas haviam ganhado dos capitalistas no seu próprio jogo.

Korobeiniki

Quando Hirokazu Tanaka foi escalado para sonorizar a versão para Game Boy de Tetris, ele se inspirou na temática russa do game para compor uma versão modificada da canção popular Korobeiniki, que fala sobre o romance entre uma jovem mulher e um vendedor de livros na Russa pré-revolucionária. Ele tem que ir embora para o mercado no dia seguinte e a oferece vários de seus livros, mas ela recusa a oferta. Qual é o ponto de ter tudo isso se ela não pode ter o seu amor?

Estranhamente, esse era o sentimento na cabeça de Alexey naquele momento. Em 1991 ele imigrou para os Estados Unidos e viu o seu game rapidamente virar um dos mais famosos no mundo. Crianças em todos os lugares passavam horas imersas nas mecânicas que ele criou, e Tetris estava dando inicio ao gênero dos games quebra-cabeça.

Alexey tinha a fama (ele havia sido entrevistado por vários jornais americanos desde o lançamento da versão de Tetris para o NES) e um pouco do dinheiro, mas ele não se sentia satisfeito. Em 1992, uma pesquisa revela que Tetris tem efeitos positivos no cérebro, e o astronauta Aleksandr  Serebov leva seu Game Boy com um cartucho de Tetris para o espaço.

Qual era o ponto de ter tudo isso se Alexey não tinha o controle de sua mais gloriosa criação?

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Com a dissolução da União Soviética em 1989, uma oportunidade caiu nas mãos de Alexey. Os direitos de Tetris iam voltar para as suas mãos, agora que departamentos como a a ELORG estavam voltando a um estado menos ditatorial. Junto com Rogers, que anos atrás havia celebrado com ele a venda dos direitos para a Nintendo, Alexey cria a Tetris Company e se torna o único dono dos direitos do game.

Alexey logo cria uma série de regras e imagens que toda companhia interessada em desenvolver um game de Tetris deve seguir. Os botões devem ser consistentes. A forma da linha deve ser azul. Ele também começa a atacar clones não autorizados de seu game. Nos anos 90, uma batalha entre a Tetris Company e criadores de clones de Tetris aconteceu quando os acusados reclamaram que Alexey estava tentando patentear o ‘jeito e estilo’ de algo.

Tetris Company continua mantendo uma mão forte sobre a marca Tetris. Tanto que eles já processaram grandes empresas como Apple Google por permitirem a venda de clones do game. AlexeyRogers hoje aproveitam o status de co-criadores de Tetris, e o russo é dono de vários prêmios.

Tetris em si é considerado um dos games mais famosos do planeta, e pode ser jogado em qualquer lugar, como no seu smartphone, no seu console, durante uma viagem de avião ou até nas janelas de um prédio. O impacto de Tetris é inegável. Mas talvez sua maior vitória foi ser o primeiro game que quebrou a forte parede da Guerra Fria.

Fontes

No final de todo De Volta Ao Arkade, providenciamos nossas fontes para os interessados no assunto realizarem uma pesquisa mais detalhada.

Uma resposta para “De Volta Para o Arkade: Bloco a bloco, a história de Tetris”

  • 28 de dezembro de 2015 às 04:52 -

    leandro leon belmont alves

  • parabens pela materia, e Alexei Patijinov merecia mais honorários do que lhe é devido, quando o tetris estava na febre. e lerei os links

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