Além do Review Arkade: 11 anos depois, Okami ainda é uma obra de arte

15 de dezembro de 2017
Autor: Rodrigo Pscheidt

Além do Review Arkade: 11 anos depois, Okami ainda é uma obra de arte

Confesso que estou emocionado por enfim poder escrever este texto. Okami é um dos meus jogos favoritos de todos os tempos, mas por diversas razões eu nunca tive a chance de escrever sobre ele, ainda que já tenha sido lançado e relançado algumas vezes nos últimos anos.

Contextualizando

Agora, felizmente, a Capcom traz esta obra de arte à atual geração — e aos PCs, pela primeira vez! –, de modo que eu enfim tenho a chance de colocar em palavras todo o meu amor por Amaterasu, Issun, Susano, KushiSakuya e tantos outros personagens incrivelmente carismáticos desta jornada apaixonante.

Além do Review Arkade: 11 anos depois, Okami ainda é uma obra de arte

Para quem não sabe, Okami é uma produção do finado Clover Studio, lançado originalmente para Playstation 2 em 2006, e posteriormente sendo portado para o Wii. Na geração passada, o Playstation 3 recebeu uma versão HD do game, e agora, 11 anos após seu lançamento original, Amaterasu está de volta, mais belo e democrático do que nunca, visto que agora chega com versões simultâneas para PC, Playstation 4 e Xbox One.

Uma deusa lupina

Okami se passa em uma versão folclórica/mitológica do Japão, em uma época em que deuses e demônios interferiam diretamente no nosso mundo. 100 anos antes dos acontecimentos do game, o dragão/serpente de 8 cabeças Orochi tocava o horror no japão, mas foi vencido pelo lobo Shiranui e pelo lendário herói Nagi.

A alma de Orochi foi aprisionada em uma caverna e selada sob a proteção da espada de Nagi… mas é claro que isso não segurou o bicho por muito tempo, e depois de um século, um “acidente” libera a essência de Orochi, que está disposto a dominar o Japão mais uma vez com maldições e demônios que empesteiam o ambiente e transformam seres vivos em pedra. E espere por altas reviravoltas, pois Orochi é apenas a ponta do iceberg de uma treta muito maior…

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É nesta nova onda de caos e desespero que a deusa do sol, Amaterasu, resolve intervir. Ela vem à Terra na forma de uma bela loba branca, e do decote do espírito da árvore Sakuya, ganha seu inesperado ajudante, o pequenino artista Issun.

Juntos, Amaterasu e Issun irão cruzar o Japão, usando as habilidades divinas de diversos outros deuses para restabelecer a beleza e as cores do mundo, eliminando as hordas malignas de Orochi e permitindo que a vida floresça novamente em lugares tomados pelas sombras.

Muito a se fazer

Okami é essencialmente um RPG de ação open world bem amplo: vilarejos, dojos e cidades se espalham por vastas planícies, e há até um reino submarino para ser visitado. No controle de Ammy, exploramos cidades e expurgamos a escuridão malévola.

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Temos combates em tempo real, exploração e alguns puzzles, mas o grande diferencial do jogo se apresenta na forma do Celestial Brush, o pincel divino de Amaterasu que lhe permite interagir com o mundo e perpetrar verdadeiros milagres: com seu Celestial Brush, você controla o Sol e a Lua, faz árvores crescerem, evoca trovões, provoca ventanias e restabelece a vida em ambientes insalubres.

Claro que o pincel por si só não faz milagre: você precisa reencontrar seus antigos companheiros deuses, que lhe concedem suas habilidades para que você possa progredir. Isso acrescenta um feeling de MetroidVania ao game, pois há lugares e tesouros que você só poderá acessar depois que tiver recebido um determinado poder.

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O Celestial Brush em ação.

No geral, o gameplay de Okami lembra um bocado os games tridimensionais da série Zelda, e as semelhanças não são coincidência: Hideki Kamiya, o diretor do game, é um grande fã das aventuras de Link, e acabou integrando algumas características de Zelda à jogabilidade de Okami.

Pequenos e grandes milagres

É nos detalhes, porém, que Okami se mostra cativante: no papel de uma divindade lupina, podemos interferir diretamente na vida das pessoas, e embora estejamos pra lá de ocupados no macro, liberando o Japão de demônios, também atuamos no micro, resolvendo os probleminhas de pessoas e animais, que nos “pagam” com sua devoção.

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Por exemplo, no comecinho do jogo, lá em Kamiki Village, encontramos uma senhorinha lavando roupa que está aborrecida porque o bambu que ela usa para estender suas roupas sumiu. Você pode ignorar este fato pitoresco… ou pode “desenhar” um bambu novo para ela que, de tão agradecida, irá lhe presentear com deliciosas tortas caseiras sempre que você passar por ali.

O mundo de Okami é enorme e belíssimo, mas acho que sua maior qualidade é ser carismático. Há personagens secundários interessantes em todos os cantos, e ainda que aqui não tenhamos muitas sidemissions — pelo menos não da forma como The Witcher e outros RPGs as apresentam –, estaremos sempre ajudando estes personagens e interagindo com eles. De apostar corrida com um entregador até ajudar um moleque a pescar um peixe lendário, Okami aposta muito em seu elenco de apoio, que é excelente.

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Mr. Orange, um dos coadjuvantes mais queridos. <3

Você ainda pode alimentar diversas espécies de animais, que também irão lhe direcionar sua devoção. O jogo é cheio destas pequenas situações, que nos dão a chance de perpetrar pequenos milagres na vida de pessoas comuns. Okami aborda a fé com muita sensibilidade, sem que isso pareça piegas  ou forçado.

Apesar desse lado “espiritual” da coisa, Okami ainda é muito videogame, com puzzles bacanas, gameplay divertido e batalhas contra chefes empolgantes e desafiadoras, que utilizam de formas muito criativas as habilidades do Celestial Brush. Venha pelo gameplay, fique pelas “lições de vida”: Okami é um jogo completo, e sua campanha rende facilmente mais de 30 horas de muitas aventuras e emoções.

Audiovisual

Estamos falando de mais uma remasterização de um jogo que já era lindo lá em 2006, e continua incrível aqui. Enquanto jogos hiperrealistas ficam velhos muito rápido, games com uma pegada artística mais estilosa envelhecem bem, e Okami é um excelente exemplo disso.

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Ammy em momento NSFW. XD

Seu visual — um cel shaded estilizado para ficar parecido com o estilo artístico Ukiyo-e que vemos em pinturas e xilogravuras nipônicas dos séculos XVII, XVIII e XIX — continua incrível, e o fato de agora termos o game rodando em 4K (em máquinas compatíveis) torna o conjunto da obra ainda mais bonito.

A trilha sonora do game também continua incrível, usando instrumentos de corda e madeira tipicamente orientais. Poucas vezes um jogo possui uma trilha sonora que “conversa” tão bem com sua direção de arte, e Okami entrega isso de forma impecável.

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E há tanto mais a ser dito sobre os pequenos detalhes que enriquecem o mundo de Okami, como o humor pervertido de Issun, que está o tempo todo falando do decote de Sakuya, ou a maneira extremamente canina com que Ammy boceja quando fica muito tempo parado ou sacode a água de seu pêlo depois de passar pela água. São pequenos detalhes que demonstram capricho e cuidado na concepção de cada elemento.

Para não dizer que tudo é perfeito, fica aqui registrado mais um caso de “preguiça” da Capcom na hora de remasterizar seus clássicos: o game não está rodando a 60fps (o argumento apresentado foi de que o jogo foi planejado para rodar a 30fps, e mudar isso “quebraria” o jogo), não possui legendas em português, e não traz nenhum conteúdo novo. É o mesmíssimo jogo, não há uma galeria de artworks nem qualquer outro mimo que seja minimamente novo.

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Mesmo sem Photo Mode, jogo rende imagens lindas.

Podiam pelo menso ter colocado um Photo Mode, cara. As screenshots desse jogo já ficam lindas por si só, mas imagina cada clique épico que daria pra gente fazer com um Photo Mode?!

Conclusão

Okami é uma experiência incrível, e continua no meu top 3 dos melhores jogos que já joguei na vida (você tem uma lista dessas? Conta pra gente aí nos comentários!). Eu zerei ele no PS2, joguei novamente no PS3, e agora estou curtindo esta jornada mais uma vez, desta vez no PC.

Além do Review Arkade: 11 anos depois, Okami ainda é uma obra de arte

Este texto não é nada imparcial; eu amo este jogo e irei jogá-lo de novo e de novo sempre que ele for relançado para uma nova plataforma. Kamiya já deixou claro que gostaria de trabalhar em uma sequência, e eu rezo para Amaterasu que isso aconteça um dia, simplesmente porque este é um universo que merece ser revisitado (sim, eu sei que Okami já tem uma sequência oficial — Okamiden –, e ainda que seja um ótimo jogo, ele simplesmente não tem a grandiosidade que a série merece.

Okami é um jogo lindo, cativante e marcante, que merece ser jogado por qualquer gamer que tenha um mínimo de bom gosto. Sou da opinião que nem todo jogo merece ser remasterizado, mas Okami merece simplesmente para que mais gente tenha a oportunidade de experimentar esta obra de arte em forma de game.

Okami HD foi lançado dia 12 de dezembro, com versões para PC, Playstation 4 e Xbox One.

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