RetroArkade: Você já jogou a versão brasileira de Street Fighter 2, feita para Master System?

25 de setembro de 2016
Autor: Junior Candido

 

RetroArkade: Você já jogou a versão brasileira de Street Fighter 2, feita para Master System?

Street Fighter 2 ganhou inúmeras versões para consoles, mas uma em especial chama a atenção, pela sua história e por ser uma adaptação genuinamente brasileira. Para quem jogou e para quem nem conhecia esta versão, hoje iremos falar de Street Fighter 2 em sua versão para Master System.

As lutas entre Ryu, Ken e os outros World Warriors foram um fenômeno, um verdadeiro arrasa-quarteirão, e logo que uma versão para o Super Famicom foi anunciada em 1992, praticamente todo sistema gostaria de contar com o game de luta da Capcom, que era sinônimo de sucesso. E foi o que aconteceu.

O Mega Drive acabou recebendo a versão Champion Edition, que já oferecia o controle dos quatro “mestres”, e a partir daí, computadores e sistemas variados receberam suas adaptações, o que ajudou a popularizar ainda mais o jogo de luta mais famoso de todos os tempos. Mas nem todos os sistemas receberam o game, o que deu margem a certas “adaptações”.

Se não tem versão, a gente dá um jeito!

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A adaptação mais conhecida é sem dúvida, a pirata para o NES. Lembre que todos queriam jogar o título de alguma forma, então se um sistema não contasse com uma versão, jogos sem licença da Capcom eram lançados mesmo assim. Consoles considerado “antigos” não ganharam uma versão, como o próprio 8-bit da Nintendo, mas é curioso que o Game Boy, com os mesmos 8-bit, ganhou uma versão em 1995 com as devidas limitações, e sistemas como o Commodore 64, receberam versões bizarras. Aliás, olha só a mídia do SF2 para este computador:

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Na versão de NES, que merece uma observação específica mais detalhada, não tínhamos todos os personagens e cenários, mas na medida do possível, o game até que é uma adaptação fiel para a versão arcade, mas sofrendo obviamente com movimentação, velocidade e controle.

Mas o Master System ainda tem lenha pra queimar…

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Nesta vontade de ter uma versão de Street Fighter 2, estava os donos de Master System, que também ficaram sem sua adaptação na época do auge do game, entre os anos de 1991 e 1993, ano da estreia de The New Challengers, a versão Super de SF II que introduziu Cammy, Fei Long, Dee Jay e T. Hawk.

A razão é óbvia: o Master System já era um sistema descontinuado no Japão, com o Mega Drive sendo o sistema prioritário da Sega para lançamentos. Mas, como bem sabemos, o 8-bit da Sega continuou sendo fabricado e vendido na Europa e especialmente, aqui no Brasil, com o já conhecido suporte de altíssima qualidade da Tec Toy.

A empresa, que sempre fez das tripas-coração para oferecer uma vasta gama de opções, incluindo um sistema que nem era mais fabricado pela criadora, entendia que o Master System era um sistema com potencial para atingir uma categoria de jogadores que não tinham condições de comprar um Mega Drive, ou mesmo um Saturn, o novíssimo console que contou também com suporte no país, mas que era muito caro.

Neste meio-tempo, a Tec Toy ofereceu diversas adaptações de games para Game Gear, trazendo, por exemplo, todos os três primeiros Mortal Kombat lançados para o portátil. Mas faltava Street Fighter 2

Faltava.

A chegada dos World Warrios aos 8-bit

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Assopre antes de usar.

Foi em 1997, que a Tec Toy finalmente colocou nas prateleiras, a versão de Street Fighter 2 para o Master System. Adaptação da versão de Mega Drive, a empresa brasileira contou com a autorização da Capcom, representada na época pela Romstar, para utilizar tudo o que fosse necessário do game para o port.

Todos, exceto E. Honda, Zangief, Dhalsim e Vega foram cortados da adaptação. Mas em contrapartida, todos os personagens estão lá, mas os três “mestres”, Balrog, Sagat e M. Bison não são jogáveis.

Tecnicamente falando, o game significou superação de limites. Estamos falando de um game que “encaixou” em um cartucho de 8Mbit, algo impensável para o sistema na época de Phantasy Star e Out Run. Isso garantiu, para os padrões do console, mais cores, detalhes e sprites grandes. Para efeito de comparação, colocamos lado a lado imagens do Mortal Kombat 3 e Street Fighter 2 de Master, confira:

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Porém, de que adianta lançar o jogo mas não contar com a aprovação da Capcom, não é mesmo? E a Tectoy foi buscar o sinal verde da empresa para enfim colocar o jogo nas prateleiras. E aí que eles tiveram uma boa ideia. Stefano Arnhold, o presidente do conselho da Tectoy, nos contou que na apresentação para o representante japonês da Capcom eles esconderam o Master System e deram a ele um controle de Mega Drive. O representante então comentou que se tratava de um game muito simples para rodar em um Mega, mas ao ver que se tratava de um Master System que estava ligado, ele ficou surpreso, com o tamanho dos sprites, cenários e todo o resto e tudo isso facilitou muito o processo de aprovação. Então em pouco tempo a autorização chegou e o game chegou às lojas de todo o país.

Mas como nem tudo são flores, a música e a jogabilidade sofreram muito com o port. A trilha antológica, que conta com uma Sound Test especial, não conseguiu fugir dos chiados do Master System. Uma pena, afinal a versão japonesa do console conta com um chip de som FM que garantia muito mais qualidade para o sistema. Talvez se este chip estivesse no Master nacional, a história seria outra.

E a jogabilidade também sofre. Um game rápido e preciso como Street Fighter 2 perde muito quando a velocidade do gameplay diminui e um controle que não foi feito para ele é utilizado. A queda de velocidade atrapalha muito no jogo, enquanto os comandos são bem esquisitos, não sendo fácil nem soltar um Hadouken.

O game não caiu necessariamente nas graças dos jogadores por ter chegado um pouco tarde: em 1997, o Mega Drive já era um sistema veterano, o Playstation já começava a dominar todo o planeta e o Master System já era um sistema que recebia pouquíssimos lançamentos, claro que levando em consideração o trabalho da Tec Toy, que mesmo assim, ainda lançaria em 1998 outro game que merece atenção da RetroArkade: Castelo Rá-Tim-Bum.

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Só que nada tira a qualidade e a ambição do projeto, que foi mais uma prova da atenção que a Tec Toy dava para os gamers brasileiros, em especial aqueles que gostariam de consumir videogames, mas não podiam gastar muito com as novidades da época.

As revistas da época deram destaque positivo para o game, afinal a iniciativa de levar o game a uma base de jogadores grande na época foi sim digna de aplausos. O lendário Baby Betinho, na Super Game Power número 42, de setembro de 1997, elogiou o game, ao dizer: “É o primeiro game de 8 MB para o console, com gráficos de cair o queixo, boa velocidade e até vozes digitalizadas”. Discordamos de você apenas pela velocidade, Baby, não fique bravo.

Nesta mesma edição, a coluna Circuito Aberto trouxe um pouco mais sobre a iniciativa da Tec Toy na matéria “A Central Brasil de Games”. No texto, que explicava que a equipe contava com três artistas e quatro analistas de software, explicou sobre SF II para Master: “O game é uma mistura de conversão e desenvolvimento, já que os cenários e os personagens foram aproveitados da versão para Mega”, que também fez questão de mencionar as vozes digitalizadas, inédito no console até então.

O legado

Desta vez, não iremos falar do legado do game, que todos sabemos o quão grande é e que dura até hoje. Mas com toda a certeza do mundo, as iniciativas da Tec Toy no cenário nacional de games foram definitivas para dar o pontapé inicial da nossa indústria. Direta ou indiretamente, as ações da empresa na década de 90 influenciaram muita gente a produzir games, indo estágio por estágio até os dias de hoje.

Claro que na época não eram games próprios, praticamente. Mas as adaptações atendiam uma demanda específica, carente por representação de elementos brasileiros nos games, sejam com personagens em específico ou na participação de um grande projeto. A autorização da Capcom para esta produção fez muitos desenvolvedores acreditarem que era possível sonhar com coisas maiores. E se hoje temos um cenário nacional forte — que tem muito a aprender, claro, mas não deixa de mostrar sua força — podemos sim dizer que Street Fighter 2 para Master foi papel fundamental para esta evolução.

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