Análise Arkade – MLB The Show 23 é incrível… só para os fãs do esporte

31 de março de 2023
Análise Arkade - MLB The Show 23 é incrível... só para os fãs do esporte

Parece meio óbvio afirmar que somente quem é fã inconteste de um esporte conseguirá encontrar uma diversão genuína em sua versão digital, e provavelmente é uma máxima que vale para muitas modalidades. Contudo, há alguns onde a necessidade desse vínculo é um pouco maior, principalmente em lugares onde a prática original não tem tanta penetração popular.

Baseball (vou utilizar aqui a forma original do esporte porque, francamente, ninguém se importa em usar a versão brasileira beisebol) é um desses casos onde é fundamental estarmos ambientados à regras para compreendermos minimamente o que está acontecendo e o que fazer ali.

A franquia MLB The Show, uma produção da San Diego Studios, ligada diretamente ao conglomerado Playstation, traz não só as questões mais objetivas e técnicas da coisa toda, como também a lógica de negócios e franquias tipicamente estadunidense, algo que pode parecer um pouco estranho para quem está acostumado com, por exemplo, os modos similares de carreira nos jogos de futebol.

Os princípios de construção de elenco, patrocínio, negociação de jogadores e até mesmo de organização do campeonato da liga tem seus próprios pormenores e merece um pouco mais de atenção do que poderíamos imaginar.

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Toda esta introdução é muito mais uma constatação de que, sim, ou você tem muito interesse pelo esporte, acompanha o noticiário (restrito no Brasil) sobre times, ligas e partidas; conhece as regras e a lógica mercadológica do show e sabe ler estatísticas, posicionamento e outros elementos típicos; ou evidentemente vai acabar se desconectando do game antes mesmo de estar imerso em sua proposta, independentemente de conseguir sacar as bases do arremesso e da rebatida na bolinha.

Três pra trás, entrega o taco

Para não me aprofundar nas especificidades das regras do jogo, recomendo a leitura de lembrança da análise da edição 2018 do jogo publicada aqui, onde eu busco compartilhar o aprendizado acelerado para o qual me dediquei por ocasião da demanda do game, e isso continua intocado como não poderia deixar de ser.

Resumindo, baseball não é tão diferente assim do jogo de rua que em alguns lugares do Brasil chamamos de “bets”, e em outros “taco” onde há sempre um time arremessando cuja intenção é não facilitar para quem está rebatendo e, do outro lado, aqueles que querem jogar a bolinha para fora do estádio e ganhar terreno avançando pelas bases. Por mais que tenha um monte de pequenos detalhes, o padrão é simples de se compreender para quem estiver minimamente interessado.

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Na edição deste ano, para além de três níveis padrão de dificuldade, há também uma série de opções de acessibilidade e adaptabilidade de vários aspectos do jogo para que ele fique ainda mais customizado a serviço da experiência do jogador. Muitos desses recursos vem das versões mais recentes, mas aqui, há uma clara e genuína preocupação em aprofundar as opções para os mais dedicados e simplificar outras para quem quer se preocupar menos com certos detalhes.

Por exemplo, há várias opções de arremesso padrão, algumas que demandam mais precisão nos comandos rápidos, outras que focam no direcionamento, outras ainda que simplificam certas configurações permitindo que nos preocupemos menos com elementos avançados, como efeitos, curvas e outras sofisticações.

Há como automatizar outras ações, como a corrida até as bases e até a tomada de decisão quando o adversário está em ação. O jogador pode se preocupar muito mais com, por exemplo, ser especialista em rebater e deixar o arremesso o mais básico possível, ou vice-versa. Enfim, mais do que escolher entre a dificuldade mais casual e a hardcore, é possível delimitar quais ações complicar e quais simplificar. Ótimo ponto para o jogo, melhor ainda para o público.

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Nada disso tira o fato de que o jogo pode ser longo e cansativo para aqueles que desejarem a experiência completa em nove entradas tradicionais, assumindo o papel de cada principal personagem do certame. Uma partida padrão pode durar mais de meia-hora com tranquilidade, algo nem tão diferente assim de partidas no FIFA ou no NBA 2K, mas considerando a cadência do jogo, pode se tornar bastante repetitivo para muitos de nós.

Confesso que nesse período de avaliação, joguei as primeiras dez partidas inteiras e depois apelei para alguns facilitadores, dos quais falarei mais adiante quando for tratar de modos.

A boa notícia é que alguns ajustes mais meticulosos podem ser sentidos e, felizmente, todos eles favorecem o jogador mais dedicado. Os níveis mais delicados são bem equilibrados entre a janela de ação e o medidor de força é graficamente muito mais ilustrativo do que deve acontecer, e parece ainda mais atrelado às estatísticas do jogador que estamos controlando bem como condições específicas de momento.

Ou seja, a diferença entre controlar uma grande estrela e um novato nunca pareceu tão grande. Até mesmo em modos mais simples, algumas opções simplesmente estão disponíveis só para jogadores qualificados para aquilo. O resultado é ter soluções diferentes para um mesmo arremesso, o que é ótimo em termos de variabilidade de jogo e de bom planejamento de elenco.

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Nas rebatidas e nas corridas, há uma série de ajustes finos que trabalham nesta mesma direção de acrescentar mais variações de jogadas e de comportamento tanto do nosso time como do adversário. Há mais micro-decisões a serem tomadas, mais possibilidades de algo dar muito certo e, as vezes, nem tanto. Um bote no tempo errado em uma bola fácil pode ser preponderante para que o adversário complete uma run e em jogos apertados, isso muda tudo.

Ainda há certos momentos onde parece que certas ações são premiadas com mais frequência, ou mesmo que há padrões que se repetem como se estivessem forçando um resultado esperado, mas isso diminuiu muito e serão raros os momentos onde nos sentimos manipulados pelo jogo. Sabe aquela desculpa de “ah, o jogo está roubando!” que adoramos usar quando em desvantagem? Então, está cada vez mais difícil ter argumentos para apelar assim.

Uma ambientação fiel

Não é segredo pra ninguém que os norte-americanos simplesmente amam baseball como poucos no mundo, e mais do que isso, sabem transformar a prática em um verdadeiro espetáculo midiático. E tal como já vimos em edições passadas da franquia – aqui no Arkade, analisamos mais de perto a dobradinha do biênio 2018 e 2019 – esta questão continua impecável. Desde as cenas de introdução em live action até toda a cenografia de estádios e das transmissões televisivas, tudo carrega consigo uma linguagem estética muito similar à versão do mundo real da modalidade.

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Os modos de jogo estão igualmente sólidos como sempre e, estes sim, são bastante reconhecíveis. O modo campanha que acompanha um time profissional por entre as temporadas aqui é chamada convenientemente de Franchise e permite que escolhamos um time para poder gerenciá-lo dentro e fora do campo.

É possível contratar e negociar jogadores e equipe técnica, afinar questões de patrocínio e recursos financeiros e outras ações de bastidores além de, claro, jogar as partidas em si de diferentes maneiras. Como comentado, a primeira e mais óbvia opção é jogar cada entrada de cada jogo, o que nos dá mais liberdade e fidelidade de acordo com nossas capacidades, mas que também pode ser algo longo até para uma primeira temporada.

Há ainda a opção de escolher um dentre todos os seus jogadores e jogar só aquilo onde ele estiver envolvido, o que significa basicamente estar em alguns spots da partida. Ainda que tenhamos um controle mínimo do resultado total – a não ser a de ter arrumado o time de forma adequada para a partida antes – é um modo interessante de se passar por todos os cantos do campo.

Então vamos arremessar ou rebater, além de compor o time que defenderá as bases quando na defesa, ou ainda estaremos atentos aos nossos colegas quando estivermos avançando base a base. Para um modelo de experiência por amostragem, é o jeito mais divertido e objetivo de se aproveitar uma partida.

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Há ainda como simular uma partida toda fazendo as escolhas teóricas e deixando que o jogo as execute. Por exemplo, ao invés de arremessar, só escolher em um painel o tipo de arremesso e deixar que a CPU cuide do resto. A interface para isso é um pouco limitada, já que não temos qualquer feedback do game em si, mas com certeza acelera as coisas.

E há ainda uma versão mais rápida da simulação, pode botamos pra rodar a simulação de uma rodada inteira. Nesses casos, se o leite começa a azedar, é possível tomar as rédeas da situação, entrar no jogo e cumprir a máxima de que se quer algo bem feito, vai lá e faz. Uma pena não ser possível fazer o caminho contrário, atuar e depois simular o resto.

Já no modo Road to The Show, similar a outros similares onde criamos nosso próprio jogador e seguimos a carreira dele em específico, as coisas são mais fluidas exatamente porque quando se está no controle de um só, tudo é mais dinâmico, mas também precisa ser mais certeiro.

As opções de customização estão muito parecidas com o que havia antes e com outros games esportivos que oferecem essa funcionalidade, mas já há uma clara demonstração de estar datado já que quanto mais tentamos personalizar o jogador, mais artificial ele parece ficar.

Na verdade, é o modo onde pude perceber quase nenhuma diferença aparente do que já vimos antes, o que parece ser uma decepção para quem esperava uma jornada mais narrativa do que o básico personagem que começa do nada e se torna um grande jogador do time campeão.

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Por outro lado, o famoso Diamond Dynasty, similar ao FUT do FIFA, por exemplo, é onde as mudanças estão mais generosas. Montar um time de lendas do passado e do presente está, de alguma forma, muito mais robusto mesmo para quem não pretende investir dinheiro real na compra de cartas e outros atalhos, já que o material de bônus logo de cara é bem abundante.

Este é talvez o modo menos convidativo para novatos, inclusive porque quem já tem seus times montados consegue importar coisas para a nova edição, mas principalmente porque é onde a capacidade de montar um elenco qualificado para cada posição é realmente testada. Tenha um rebatedor capaz de vários home runs por jogo, mas um arremessador meia-boca, e o caminho para o fracasso é certo.

Claramente, porém, é o modo que deve receber a maior atenção da própria desenvolvedora, com a promessa de temporadas ranqueadas e mini-temporadas temáticas preenchendo todo o calendário. A primeira delas, aliás, Left Loosey, traz consigo a proposta de se jogar só com jogadores canhotos.

Com a possibilidade de se ganhar XP em todas as demais modalidades do jogo para se torrar aqui, é inevitável passar algumas horas só explorando as melhores formas de escalar elencos, conquistar os equipamentos mais legais e, enfim, ter um time para chamar de seu realmente.

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Como maior adição original deste ano, a Negro Leagues traz uma série de narrativas curtas que resgatam a riquíssima história sobre oito dos grandes nomes dessa liga: Buck O’Neil, Hilton Smith, Martin Dihigo, Satchel Paige, John Donaldson, Jackie Robinson, Hank Thompson e Rube Foster.

Narrados por Bob Kendrick, presidente atual da liga, cada episódio desta coleção de Storylines aprofunda algumas dos eventos mais importantes deste recorte – especialmente de dois momentos do começo do século XX – e, de quebra, ainda oferece um conteúdo riquíssimo para o Diamond Dynasty, valorizando não só o interesse pela história como ainda recompensando quem investir tempo e dedicação aqui.

Uma iniciativa muito bem-vinda, que faz com que até quem não se importa muito com o esporte se interessar pelo passado e pelo presente dele.

Audiovisualmente (ainda) competente

Graficamente, o jogo traz a competência de sempre vista nos títulos anteriores, com um destaque especial para a reconstrução de muitos estádios com direito a uma plateia bem ativa. Cores vivas e boas texturas são valorizadas por alguns cuidados interessantes de iluminação algumas belas opções de customização.

Entretanto, os modelos humanos parecem cada vez mais “cansados” no sentido de não apresentarem uma grande evolução gráfica mesmo quando comparamos o jogo com suas edições da geração anterior. Express˜˜ões faciais e realismo ficam para trás inclusive na comparação com outros jogos de temas esportivos.

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Movimentos plásticos, fluidez na animação e algumas boas similaridades com movimentos e particularidades com suas contrapartes adicionam pontos à questão estética, tal como uma ambientação muito próxima do que podemos ver, por exemplo, em transmissões oficiais do esporte.

Não há dúvidas de que a cada nova versão temos um avanço em termos de representação visual do jogo, mas eu ainda espero um verdadeiro salto sobretudo para personagens e suas interações, que vez ou outra ainda trazem uma aparência robótica e inevitavelmente repetitiva. Acertar uma rebatida perfeita é uma delícia, duas é ótimo, mas quando a partir da terceira a animação é a mesma, tudo fica um pouco mais sem-graça de se assistir.

Fato é que, acompanhando a série nos últimos anos, parece haver uma evolução tímida, quando muito, e das duas, uma: ou se atingiu o ápice tecnológico da geração para jogos desse gênero muito cedo, e esse ápice não se distingue em nada do que temos visto há 10 anos; ou não há uma preocupação genuína com esse aspecto, já que possivelmente seria necessário trocar de motor gráfico para realmente haver uma mudança nesse aspecto, o que é realmente custoso e quase impraticável no prazo de um ciclo anual. Seja como for, não espere uma mudança artística perceptível.

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Também tenho minhas restrições com uma interface que parece muito amigável quando dentro do jogo, com comandos aparentes e uma HUD realmente informativa, ainda que pareça trazer informações complementares nem sempre úteis para aquele momento.

Contudo, como esse é um jogo onde não há pressa para o próximo lance, e que portanto permite que corramos os olhos pela tela antes de um arremesso, por exemplo, não vejo problemas nisso. Até mesmo tópicos de ajuda ficam a um botão de acesso em tempo real, o que é sempre ótimo. Soma-se a isso um tutorial robusto e o gameplay em si é o suporte para o jogo em si é completo.

Porém, menus e toda a parte administrativa me parecem um pouco confusos ainda, incluindo comandos que se revezam dependendo da tela – por vezes, é necessário usar o X para aceitar algo e prosseguir, e por outras, é o botão Options que faz essa função. Há uma série de sub-menus entrelaçados e os tutoriais iniciais cheios de texto ajudam pouco quando precisamos tomar algumas decisões no futuro.

O fato de não haver a preocupação em ao menos ter os textos localizados (o que mercadologicamente é compreensível, visto a pouca penetração do produto em mercados estrangeiros, mas triste em termos de acessibilidade) não chega a ser um problema a priori, mas acaba se tornando um obstáculo a mais para quem quer aprender sobre o que está jogando e a ter controle de todas das configurações de gestão.

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Conclusão

MLB The Show 23 é, no final das contas, um esperado mais do mesmo de uma franquia esportiva anual, mas com algumas boas adições pontuais. O Diamond Dynasty aprimorado deve dar sustentação a médio e longo prazo para os mais dedicados, o modo Storylines: Negro Leagues é uma aula de como respeitar o legado do esporte e as mudanças sutis na jogabilidade e até mesmo na diversificação da acessibilidade certamente podem agregar veteranos e novatos com o mesmo carinho.

Mas em sua essência, o game continua sendo muito similar ao seu antecessor e é recomendado somente para quem é verdadeiramente fã do esporte, quem jogar on-line e gosta de ter elencos e tudo mais atualizado ao extremo.

Para mim, que me eduquei a aprender o esporte para lidar com os games há seis anos atrás, há uma sutil evolução muito bem-vinda à respostas automatizadas do jogo a cada movimento que fazemos, além de ótimas atualizações nos modos de jogos (em alguns mais do que em outros, é verdade), o que me leva a passar muito mais tempo em cada opção do que imaginaria fazer.

Claro que ainda está longe de ser um jogo que substitui em preferência o bom e velho futebol nas tardes preguiçosas de domingo, mas este é um game que premia os mais dedicados, valoriza a experiência e se prova um verdadeiro Home Run, mas só pra quem realmente se importa com o esporte aqui representado. Se baseball não é a sua praia, não é esse game que vai mudar isso.

MLB The Show 23 já está disponível para Playstation 5, Playstation 4, Nintendo Switch, Xbox Series X/S, Xbox One desde o dia 28 de março de 2023, infelizmente sem suporte ao nosso português brasileiro.

Paulo Roberto Montanaro

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