Análise Arkade – Anthem: um diamante bruto que ainda precisa ser melhor lapidado

2 de março de 2019
Autor: Rodrigo Pscheidt

Análise Arkade - Anthem: um diamante bruto que ainda precisa ser melhor lapidado

Anthem é um game ambicioso por vários motivos. Ele custou muito caro, seu escopo é bem grande, e ele ainda tem a missão de limpar a barra da Bioware, que anda meio suja desde Mass Effect Andromeda (e olha que eu nem achei o jogo tão ruim assim). Será que ele cumpriu esses requisitos? Leia nossa análise e descubra!

Bem-vindo a um novo mundo

Anthem nos apresenta a um incrível e perigoso novo mundo chamado Bastion, onde uma forma de energia revolucionária foi descoberta. O Anthem do título faz alusão ao Anthem of Creation, esta força desconhecida capaz de manipular a natureza, a vida, a morte o tempo e o espaço de formas inimagináveis.

Centenas de anos antes dos acontecimentos do jogo, a raça humana chegou ali para aprender mais sobre o Anthem, mas foi surpreendida (e escravizada) por uma raça alienígena hostil. A general Helena Tarsis e um pequeno grupo de compatriotas se rebelou contra os aliens, e usando relíquias embebidas pelo poder do Anthem of Creation, conceberam armaduras que foram cruciais na luta pela independência dos humanos. Estes trajes de batalha são conhecidos como Javelins, e mantiveram a humanidade a salvo por muitas gerações.

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Os Freelancers não são muito bem quistos, mas são necessários

Corta para o tempo presente (do jogo): os seres humanos estabeleceram bases pela superfície de Bastion, pequenas cidades onde vivem suas vidas e de onde saem para explorar o planeta e buscar novos indícios do Anthem. Os mercenários que se aventuram pelo exuberante mundo que fica além das Muralhas de Fort Tarsis são chamados de Freelancers, exploradores que cumprem missões variadas e eliminam ameaças para pagar as contas. Por trás de todo Freelancer há um Cypher, uma espécie de “vidente” que se conecta ao traje e ao piloto para oferecer suporte.

Assumimos o comando de um destes Frelancers e, se nossa missão inicial é basicamente explorar aquele mundo em busca de mais conhecimento sobre o Anthem, logo ela se torna uma questão de vida ou morte, pois um tirano alienígena conhecido apenas como “O Regente” também está interessado neste poder misterioso, e ele não vai se importar nem um pouco de esmagar quem estiver no seu caminho.

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A história de Anthem não chega a ser incrível — e tem umas reviravoltas bem previsíveis — mas fica claro o esforço da Bioware em dar um lore denso ao jogo: explorando Fort Tarsis podemos conversar com diversos NPCs, coletar anotações, cartas e panfletos que mostram que há vida ali. As sidequests envolvem ajudar certos grupos e criar boas relações com eles. São detalhes que não necessariamente enriquecem a história, mas tornam o mundo do jogo mais orgânico.

Explorando um exuberante mundo alienígena

Ao jogar Anthem, é impossível não pensar em Destiny. E não é por acaso: em ambos os casos, estamos em um universo compartilhado com outros players, explorando mundos alienígenas, coletando recursos e enfrentando hordas de aliens hostis. Em ambos os jogos, invariavelmente precisamos salvar a cidade ou a humanidade de um tirano psicótico. Em ambos os jogos seu poder é pautado pelo seu equipamento, e armas e equipamentos dividem-se em cores de acordo com seu nível de raridade.

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O nível de raridade do equipamento é representado por cores

As similaridades, porém, param por aí (ou não). Por mais que Anthem não reinvente a roda no quesito “jogabilidade de shooter espacial”, seu gameplay é muito mais ágil e dinâmico, especialmente por conta das Javelins. Há 4 classes de Javelins diferentes, e cada uma possui poderes exclusivos. Dentro de um traje desses, somos mais do que humanos: podemos voar, mergulhar, correr e dar pulos duplos e triplos.

Um detalhe interessante é que você não precisa passar o jogo todo preso a uma Javelin. Conforme sobe de nível, você vai destravando gradativamente os outros modelos na ordem que preferir. Depois de um tempo considerável de jogo, todas estarão liberadas, ou seja, basta passar na “garagem” e escolher outro traje, sem precisar criar um novo personagem/jogar tudo de novo só para testar as outras classes.

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Interceptador, Colosso, Tempestade e Patrulheiro.

Falando em testá-las, o vasto mapa explorável do game se aproveita das habilidades dos Javelins, sendo bastante vertical, com muitos penhascos, desfiladeiros e cavernas. A gente se sente o Iron Man voando dentro de uma Javelin, e ainda que você não possa voar o tempo todo (sua Javelin pode superaquecer), ela “esfria” rápido e há maneiras engenhosas de agilizar o processo — mergulhando ou passando através de uma cachoeira, por exemplo.

Tiroteio, Missões e Combos

O combate não foge muito do básico: você pode equipar duas armas diferentes — entre pistolas, rifles, escopetas e metralhadoras — e habilidades secundárias que podem ser bombas, ataques melee e até mesmo equipamentos cujos ataques têm propriedades elementais ou venenosas. As armas não têm muito “peso” (atirar em Destiny é um deleite, aqui é apenas ok), mas a sensação de peso das Javelins em si é bem mais legal.

Confira um pouco de tiroteio abaixo:

Aí entra o sistema de combos, herança de Mass Effect. Não vou me aprofundar muito nisso, mas ao combinar um status tipo gelo ou veneno com outros tipos de ataque, inicia-se um combo, que não só aumenta o dano direto, como ainda dá um boost no poder da sua Javelin por alguns segundos. Considerando que você quase nunca está sozinho em Anthem (já falo mais sobre isso), jogar com um esquadrão bem azeitado permite a organização de combos em grupo destruidores.

Anthem nunca explica direito como este sistema de combos funciona, então sugiro que busque  dicas na internet para entender melhor esta mecânica. Na real, ele deixa de explicar um bocado de coisas, e não nos permite fazer coisas bem básicas. Por exemplo, há uma espécie de garagem compartilhada que não tem muito motivo de existir — ou o jogo não me explicou pra que ela serve. Na exploração, é simplesmente impossível marcar pontos de interesse no mapa, ou seja, nada de GPS para facilitar o ato de ir e vir.

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Falando em ir e vir, o core das missões de Anthem envolve objetivos variados: resgatar pessoas, encontrar relíquias, coletar uma coisa aqui, entregar ali, proteger um ponto de interesse, e por aí vai. Exploração e combate não necessariamente se misturam — é como se os combates rolassem em “arenas” entre um ponto e outro da missão –, mas espere tanto por tropas de inimigos quanto por hordas de aracnídeos alienígenas.

Confira um pouco de voo e combate no vídeo abaixo:

O cumprimento de objetivos rola em um esquema semelhante ao de Monster Hunter World: você “pega” missões em Fort Tarsis conversando com NPCs ou assumindo contratos. Dali, você entra na sua Javelin e (após uma tela de loading), está na superfície do planeta para cumprir a missão. Ao terminá-la, o jogo “encerra a sessão”, distribui os pontos de experiência e o loot dos jogadores e nos leva de volta à base. Fale com o NPC para “entregar a missão” e terminá-la, procure o próximo ícone de interesse no mapa, fale com outro NPC, pegue outra missão, e assim sucessivamente.

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É preciso estar em Fort Tarsis para pegar novas missões

Quando quiser simplesmente dar um rolê pelo mundo para farmar equipamentos ou ganhar um pouco de XP, pode entrar no Modo Livre, que lhe permite simplesmente explorar. Nesta modalidade, rolam eventos públicos e pintam até uns sub-chefes pelo mapa, bem como missões pontuais que você decide se quer cumprir ou não.

O online é um pouco intrusivo

Conforme eu falei ali em cima, você quase nunca está sozinho em Anthem. Seu universo é compartilhado, e sempre que você entra em uma missão, o jogo cria uma sessão online, unindo jogadores que estejam em busca do mesmo objetivo.

Até aí tudo bem, Destiny já faz algo parecido. A questão é que aqui, você nunca pode ignorar os outros jogadores: o jogo força todos a serem um esquadrão, e se você se afasta demais do resto dos players, recebe um aviso — acompanhado de uma contagem regressiva. Se não voltar para perto deles rápido, o jogo simplesmente te teleporta para junto do grupo.

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Essa mensagem de “fora da área de missão” enche o saco.

Entendo que Anthem é pensado para ser jogado em grupo, mas, caso meus amigos não estejam online, eu gostaria de poder decidir se quero ou não integrar um grupo de desconhecidos. Até é possível jogar “offline”, mas aí os chefes — que em muitos casos são do tipo “esponja de balas” — demoram um tempo absurdo para caírem.

Ou seja, sozinho ele fica chato, em bando ele impõe regras demais. Obrigar jogadores aleatórios a estarem juntos o tempo todo é um negócio bem pentelho. Felizmente, no modo exploração livre, você pode ir e vir no seu próprio ritmo.

Jogo como serviço

Ainda traçando paralelos com Destiny, Anthem é mais um daqueles jogos vendidos como serviço: seu conteúdo vai muito além da campanha, e o conteúdo pós-game dele deve render muitas mais horas de jogatina — seja na busca por loot de melhor qualidade, seja pelos eventos, fortalezas, e por aí vai.

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A qualidade deste pós-game depende muito do seu nível de comprometimento com o jogo. Nem todo mundo tem tempo (ou saco) para entrar nesse loop ad infinitum de gameplay. Apesar de previsível, a campanha do jogo é interessante, mas fácil e nem tão longa assim. Boatos que o desafio aumenta no pós-game, mas eu só arranhei a superfície desse conteúdo até agora, e aproveitar isso vai do empenho de cada um em continuar jogando.

A questão é: falta variedade de loot que justifique essa perseverança. Cada arma tem apenas 4 ou 5 variações, e conforme você evolui, as estatísticas das armas mudam, mas os modelos são sempre os mesmos. Falta toda aquele monte de equipamentos exóticos e estilosos que vemos em jogos como Destiny ou Diablo. As armas que você viu com 2 horas de jogo, continuará vendo após a 15ª hora.

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E ainda vai encontrar os mesmos tipos de inimigos e chefes

Ainda é cedo para saber até que ponto este pós-game irá se sustentar — e muito disse depende do que a Bioware e a EA irão implementar nele nos próximos meses. Anthem precisa estimular o jogador a querer continuar jogando, mas até agora não faz isso muito bem.

Audiovisual

Rodando na poderosa engine Frostbite, Anthem é um jogo que honra o selo de triple A. Seu visual é belíssimo, o mundo de Bastion é rico, exuberante, cheio de belas paisagens e criaturas interessantes. O mundo é um pouco vazio de espécies alienígenas, mas apesar disso, não se pode negar que ele é lindo, imponente e imersivo.

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O trauma da Bioware com as expressões faciais bugadas de Mass Effect Andromeda claramente deu resultado: os modelos de personagens aqui estão entre os mais bonitos da atualidade, e as expressões faciais são incríveis. A direção de arte como um todo é caprichada; o design das armaduras e dos ambientes em si são incríveis — só deixando a desejar na pouca variedade de monstros e inimigos.

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Os personagens são muito expressivos

Fugindo do estigma de protagonistas mudos, nosso Freelancer (que pode ser homem ou mulher) é bem participativo nas conversas. O fato das dublagens no geral serem muito boas concede muita personalidade ao elenco. O áudio está apenas em inglês — mas há menus e legendas em português brasileiro. Em certas conversas, há opções de diálogo, mas elas não parecem ter nenhuma relevância narrativa.

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Escolhas sem muita relevância narrativa

A trilha sonora não é muito presente, e justamente por isso, também não é marcante. O que há de mais legal é o “som” do Anthem, que ouvimos ocasionalmente e combina com todo esse lado mais místico do jogo.

Conclusão

E aqui chega a hora de respondermos a pergunta feita lá no começo: Anthem corresponde a todas as expectativas que ele gerou e limpa a barra da Bioware? Mais ou menos. Ele é um jogo decente em diversos aspectos, mas falha justamente no aspecto “jogo como serviço”, não oferecendo muito conteúdo para manter o jogador interessado em continuar jogando.

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Há uma vibe meio medieval no mapa, com castelos, ruínas e tumbas

Faz uma semana que ele saiu, e por enquanto os servidores estão cheios, e há muitos jogadores animados. Mas e daqui a um mês? Três meses? Como vai ser? A Bioware vai conseguir injetar conteúdo o suficiente — e loot mais interessante — para manter esta comunidade ativa?

Analisando Anthem pelo que joguei nos últimos dias: eu me diverti com ele e me deslumbrei com seu mundo, ainda que estivesse o tempo todo comparando-o com Destiny e me aborrecendo com algumas de suas arbitrariedades. Eu quero continuar jogando por meses a fio? No momento não. Ele me entreteve por umas 20 e poucas horas, mas não me motiva a seguir jogando por mais 20 e poucas.

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A primeira Javelin a gente nunca esquece

Então, se você está no hype, mas não sabe se compra o jogo ou não sugiro que espere um pouco. Já este mês deve sair conteúdo novo, e assim como Destiny evoluiu, é provável que Anthem também evolua, e ofereça uma experiência de jogo muito diferente em um futuro não muito distante.

Ou não. Vamos ter que esperar para ver.

Anthem foi lançado em 22 de fevereiro, e está disponível para PC, Playstation 4 e Xbox One.

Uma resposta para “Análise Arkade – Anthem: um diamante bruto que ainda precisa ser melhor lapidado”

  • 4 de março de 2019 às 13:29 -

    Glauco Lima

  • Bom saber que o jogo tem suas qualidades, embora ainda precise de alguns aprimoramentos. Como diz a minha vo, tem que “botar mais agua no feijaum” pra fazer o negocio render kkkkkkkk
    Valeu arkade, vou seguir seu conselho e esperar mais uns 2 meses antes de comprar XD

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