Análise Arkade: Conan encontra Terminator em Cybarian: The Time Travelling Warrior

1 de julho de 2019
Autor: Paulo Roberto Montanaro

Análise Arkade: Conan encontra Terminator em Cybarian: The Time Travelling Warrior

Talvez nunca na história do mundo, nem mesmo nos tempos clássicos dos 8 e dos 16 bits, tenhamos tido uma variedade tão grande de games que exploram a beleza nostálgica da estética do pixel art, sobretudo pela profusão de estúdios e desenvolvedores fora da grande indústria que se aproveita de uma realidade de poucos recursos financeiros para criar algo belo, que ainda funciona muito bem e que sabe onde buscar o seu público. Mais uma prova dessa nova-velha estética chega até nós: Cybarian: The Time Travelling Warrior.

Se esta introdução, somada aos títulos do game e deste texto, ainda não deixaram evidente do que se trata o jogo, explico melhor: este game nada mais é do que uma aventura sidescrolling com gráficos retrô com um protagonista bárbaro perdido em um momento do tempo que, definitivamente, não é o seu. Produzido pela britânica Ritual Games e distribuído pela Ratalaika GamesCybarian: The Time Travelling Warrior não se compromete demais, mas cumpre bem aquilo que se espera dele.

Análise Arkade: Conan encontra Terminator em Cybarian: The Time Travelling Warrior

Uma viagem pela história

É bastante possível — provável até — que a essa altura você esteja se indagando: outro jogo com a temática de viagem no tempo? A resposta é tão objetiva quanto óbvia: sim! E, nesse aspecto, não há nada de inovador aqui. Partindo da premissa onde um grande guerreiro vai em busca da maior das relíquias, a Espada das Eras. Ao conquistá-la, ele acaba sendo levado a um lugar na linha temporal distópica cyberpunk muito distante do que ele conhece, com direito a armaduras tecnológicas, armas de fogo e máquinas para todos os lados.

E… é isso. O que será visto pela frente não se preocupa muito com sistemas narrativos complexos, ou mesmo em tentar localizar essa jornada em qualquer estrutura que se preocupe em contar uma história. Na verdade, o que temos aqui não é algo sendo contado, mas sim uma premissa, um plot suficiente como desculpa para colocar um cara de tanga e espada lutando contra robôs gigantes e sistemas de segurança com laser e labaredas industriais de todos os tipos ao longo de 4 níveis bastante desafiadores. E, no fim das contas, é isso que importa.

Análise Arkade: Conan encontra Terminator em Cybarian: The Time Travelling Warrior

Um beat ‘em up… ou quase

A princípio, sim Cybarian: The Time Travelling Warrior é um beat ‘em up com espada, no melhor estilo Golden Axe. Mas… nem tanto. Primeiro, porque há aspectos de plataforma muito similares ao que vemos em franquias como Megaman, algo que vai muito além do “acabe com os inimigos e avance para a próxima tela do cenário”. Segundo, porque a mecânica de combate tem particularidades que trazem um frescor ao gênero.

No começo da jornada, só existe um movimento básico de ataque: um combo de 3 golpes com a espada. Nada de dois ataques diferentes, nada de ataques com salto, nem dash, nem rasteira, nada. Ainda que adiante o jogador vá ganhando um ou outro golpe variado, é com esse movimento inicial que a grande maioria dos inimigos deve ser derrotada. E é aí que entra um sistema sutilmente mais complexo de controle.

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Isso porque o combo nesse game não é um simples esmagar do botão de ataque. Há um tempo mais preciso para execução do comando, mais cadenciado, e que quando não realizado de forma correta, traz muito prejuízo, já que o personagem acaba se desequilibrando o que não só interrompe o dano no adversário, como também abre uma fração preciosa de tempo para o contra-ataque. Esse detalhe é basicamente o segredo que separa a vitória gloriosa da derrota patética.

Assim, Cybarian: The Time Travelling Warrior consegue reunir a simplicidade com uma certa sofisticação em seu gameplay. Se tudo o que você precisa aprender é ensinado em alguns segundos da primeira fase, saber utilizar isso de forma competente exige algumas (muitas) mortes. Um uso muito apropriado do conceito “fácil de aprender, difícil de dominar”.

Análise Arkade: Conan encontra Terminator em Cybarian: The Time Travelling Warrior

Nostalgia pura

O estilo pixel art é muito bem aproveitado no jogo. O uso de sprites exagerados, sobretudo no rosto do nosso herói, é um recurso interessante para lhe conferir personalidade. O cenário também é totalmente estruturado para garantir informações suficientes para que o jogador tenha pleno conhecimento do que pode lhe ser fatal. Ainda que seja bastante complicado, o game garante que, se você tomou dano, a culpa é sua.

Como dito na introdução deste texto, Cybarian: The Time Travelling Warrior é uma grande ode aos clássicos games sidescrolling dos anos 1990. Ainda que se aproveite do formato de tela widescreen (o famoso 16:9), é fácil reconhecer ali elementos consagrados da época onde SEGA e Nintendo brigavam pela ponta do mercado. Há inclusive a possibilidade de habilitar ou não o efeito de scanlines, que simula a estética de TVs de tubo. Saca só a imagem abaixo ilustrando a diferença entre o efeito ligado e desligado:

Análise Arkade: Conan encontra Terminator em Cybarian: The Time Travelling Warrior

A ambientação também funciona bem, mas a proposta cyberpunk acaba um pouco ofuscada. Há muito mais sensação de uma estética industrial, com canos, jatos de fogo e estruturas de metal por todos os lados. Não que sejam temáticas distintas e excludentes entre si, mas faltou aquele feeling de um futuro mais sujo e distópico que nos é familiar nesse tipo de cenário.

A estética transborda também na concepção dos inimigos, sobretudo os chefes de fase. Cada qual muito distinto um do outro (e quase todos gigantes), eles trazem consigo aquele formato de movimentos padronizados e abertura para ataques no momento certo. São inimigos que precisam ser estudados, padrões que devem ser decorados e, com algumas mortes, vem o aprendizado, e a gente percebe que não há boss invencível.

Análise Arkade: Conan encontra Terminator em Cybarian: The Time Travelling Warrior

A trilha sonora não poderia deixar de ganhar destaque. Com uma batida frenética, a música sintetizada é bastante empolgante e funciona muito bem com o ritmo acelerado do jogo. Se os efeitos não são lá os mais originais do mundo, não fazem feio e compõem bem para o conjunto da obra. Para ser uma experiência completa dos anos 1990, só falta aquele burburinho de gente bêbada e o cheiro de pinga barata e cigarro dos botecos onde máquinas com esse tipo de games ficava.

Conclusão

Cybarian: The Time Travelling Warrior é um game que, como tantos outros dentro do sistema independente de produção, aposta na nostalgia retrô para encontrar o seu público e entregar uma experiência divertida e, mesmo não sendo um passeio no parque pelo desafio que oferece, se propõe a ofertar uma jogatina descompromissada e sem muitas distrações para além da sua essência.

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Assim, nada de customizações, modos de jogo diversos ou configurações estratégicas demoradas. Vai direto ao ponto, exige uma certa dedicação, sobretudo na dificuldade mais elevada, mas é uma experiência bastante curta e com poucos atrativos de replay. É uma excelente pedida para quem quer um game pra jogar aos poucos naqueles 15 minutinhos de bobeira, ou mesmo para quem quer zerar algo rapidinho.

Ainda que não tenha uma versão de textos em português, esse é um dos casos onde isso não faz muita diferença. Cybarian: The Time Travelling Warrior foi mais uma das boas iniciativas patrocinadas via Kickstarter e está disponível para Playstation 4, XBox One, Nintendo Switch, PC e Playstation Vita (sim, ele mesmo).

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