Análise Arkade: Dandara é MetroidVania com jeitinho brasileiro

15 de fevereiro de 2018
Autor: Rodrigo Pscheidt

Análise Arkade: Dandara é MetroidVania com jeitinho brasileiro

Eis que recentemente surgiu um MetroidVania 100% brasileiro que trouxe — além de uma jogabilidade inovadora e “diferentona” –, elementos de nossa cultura inseridos em sua trama! Vamos ver qual é a desse tal de Dandara?

História e fantasia

Dandara nos traz como protagonista uma jovem negra de mesmo nome, batizada em homenagem à esposa de ninguém menos que Zumbi dos Palmares, que você deve se lembrar das aulas de História do colégio como um dos bastiões da luta dos negros contra a escravidão em nosso país.

Ainda que a Dandara do game também tenha uma missão um tanto revolucionária, o jogo não se baseia nos tempos do Brasil Colônia, indo por um caminho mais fantasioso. O que temos aqui é um rico mundo batizado de Sal, onde as leis da gravidade não se aplicam como em nosso mundo. Por conta disso, Dandara é capaz de saltar com muita agilidade do chão para as paredes ou o teto.

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Munida desta habilidade, Dandara terá que explorar mapas labirínticos e enfrentar inimigos e chefes se quiser livrar aquele mundo da tirania de um general maquiavélico chamado Eldar. A história do game é simples, mas pontuada por personagens interessantes, espalhados por um universo pra lá de peculiar.

Metroidvania diferenciado

Em Dandara, não possuímos uma das ações mais básicas do mundo dos videogames: nossa heroína não é capaz de andar. Sua única forma de movimentação é o salto, que lhe permite aterrissar em paredes e tetos, desde que haja sal nestes lugares.

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Este pequeno twist muda completamente a maneira com que interagimos com o game: sem a liberdade de nos movermos livremente, devemos prestar muita atenção à direção de nossos saltos, para que não acabemos caindo em cima de espinhos, inimigos ou outras armadilhas.

Demora um pouco para a gente pegar a manha desta nova forma de se locomover, mas depois de um tempo, isso acaba tornando-se bastante natural, e,embora sempre haja certa estratégia envolvida, é impressionante a rapidez com que podemos “quicar” pelos pisos, tetos e paredes do game.

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Dandara é um game bastante não-linear, mas, como em todo bom MetroidVania, demanda que você adquira certos poderes e habilidades para poder prosseguir. Estes upgrades geralmente envolvem ferramentas para quebrar barreiras ou mesmo novas formas de interagir com plataformas e outros elementos do cenário.

Uma pitada de Souls-like

Além de ser um MetroidVania bem tradicional, Dandara também bebe um pouco na fonte de Dark Souls para tornar a experiência um tanto mais desafiadora. O save é feito em acampamentos/fogueiras, e caso você morra, perde todo seu sal acumulado e retorna ao último acampamento pelo qual passou.

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É possível recuperar seu sal acumulado revisitando o lugar de sua morte — e é importante que você faça isso, visto que é com sal que destravamos os upgrades da protagonista, aumentando sua barra de vida e seu poder de fogo, bem como melhorando a efetividade de seus itens.

Falando em itens, aí temos mais uma similaridade com a série Souls: seus itens são consumíveis, e você os “esvazia” conforme os utiliza. Para preenchê-los, só visitando um acampamento, ainda que seja possível encontrar novos frascos em baús.

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Estes elementos típicos dos “Souls-like” tornam Dandara um jogo bem desafiador, e olha que ele já não é lá tão fácil assim, para começo de conversa: as limitações de movimentação e poder de fogo — os tiros simples de Dandara não vão muito longe, e “se apagam” no caminho — tornam os combates bem estratégicos, especialmente quando encontramos os chefes, todos bem apelões.

Jeitinho brasileiro

Estamos acostumados a ver outras culturas retratadas nos videogames e, ainda que Dandara não se aprofunde muito em nossa cultura, ele traz alguns elementos brasileiros muito ricos, sem cair em temas clichês ou folclóricos.

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Por exemplo, um dos locais por onde passamos no game é a “Casa da Tarsila“. Lá, uma simpática criatura chamada Tarsila — inspirada na célebre pintura Abaporu, de Tarsila do Amaral –, irá conversar conosco e nos ceder uma nova habilidade, fundamental para prosseguirmos.

Temos placas e letreiros em português decorando os cenários, e algumas áreas possuem nomes interessantes, indo de algo simples como “Alameda Belo Horizonte” até um lugar chamado “A Ponte do Rio Que Cai“, referência que só quem assistia Faustão nos anos 90 vai sacar.

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Essas “brasileirices” são apenas detalhes, mas incutem bastante personalidade ao universo do game.

Audiovisual

Ainda que não seja necessariamente um jogo deslumbrante, Dandara possui um visual competente, trazendo ambientes bem variados entre si e um bom design de criaturas e chefes. Os backgrounds — que poderiam muito bem ser mais coloridos — são um tanto genéricos e escuros, mas no geral a variedade e criatividade dos ambientes meio que compensa a falta de cores.

Considerando que Dandara não anda, mas pode saltar entre paredes e tetos, o level design faz um bom trabalho para permitir que o jogador se mova de forma ágil e intuitiva. Plataformas móveis, giratórias e barreiras que desaparecem mantém as mecânicas básicas em constante evolução, alterando a forma com que analisamos espacialmente o universo do game.

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A trilha sonora de Dandara é um tanto sutil, mas muito bonita. Melodias em piano e cordas fundem-se de forma bastante orgânica, e há as “musiquinhas de itens” — como em Zelda — que tornam o simples fato de abrir um baú muito mais recompensador. Não há vozes no game, mas obviamente temos menus e legendas em português brasileiro.

Conclusão

É fácil recomendar Dandara simplesmente por ele ser um jogo brasileiro — obra dos mineiros da Long Hat House –, mas o fato é que, independente disso, ele é um MetroidVania muito bom, com uma proposta de gameplay inovadora que funciona bem tanto nos controles quanto em telas touchscreen (o game também saiu para Switch, Android e iOS).

Particularmente, acho que ele não se beneficia muito de suas características de Souls-like, mas o que ele faz como MetroidVania compensa. Com level design inspirado, boas batalhas contra chefes e jogabilidade diferenciada, o que temos aqui é um jogo que merece ser experimentado não por ser brasileiro, mas por ser bom.

Dandara foi lançado em 6 de fevereiro, e está disponível para PC, Playstation 4, Xbox One, Nintendo Switch, iOS e Android.

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