Análise Arkade: Layers of Fear 2 é um jogo de terror que não dá medo

13 de junho de 2019
Autor: Rodrigo Pscheidt

Análise Arkade: Layers of Fear 2 é um jogo de terror que não dá medo

O terror está de volta ao mundo dos games… Ou não. Layers of Fear 2 chegou trazendo uma perspectiva diferente de terror, confira nossa análise!

Terror em alto mar

Layers of Fear 2 conta uma nova história, que não depende de nada que foi mostrado no primeiro jogo para funcionar. Mantém-se, porém, a temática artística: se no primeiro jogo assumimos o controle de um pintor que estava perdendo sua sanidade, aqui conhecemos um ator que foi convidado para estrelar o filme de um diretor famoso por suas excentricidades. Tão maluco é o tal diretor, que ele resolveu rodar seu filme em alto mar, dentro de um navio de cruzeiro.

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Obviamente, algo não deu muito certo nessa história, e acompanhamos a trajetória do ator pelo navio “deserto” enquanto ele tenta entender o que está rolando por ali, e por trás da cabeça do diretor, que parece ter uma certa predileção por testar seus contratados de maneiras bastante peculiares.

Walking Simulator do Terror

Quem jogou o primeiro Layers of Fear talvez já saiba mais ou menos o que esperar do novo jogo, em termos de gameplay: em uma perspectiva em primeira pessoa, vamos explorar corredores enquanto buscamos pistas e informações que nos ajudem a entender o que está acontecendo por lá.

Layers of Fear se consagrou por oferecer uma experiência altamente roteirizada: há portas trancadas por todos os lados que obrigam o jogador a seguir o caminho que os roteiristas planejaram. Entre um corredor e outro, podemos abrir algumas gavetas e coletar itens, anotações e bilhetes.

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O capricho aqui — e o que deveria causar medo — vem justamente de todo este planejamento, que coloca o jogador exatamente onde ele deve estar para que algo aconteça. Tal qual os cenários pelos quais passamos, Layers of Fear 2 monta um cenário planejado para nos dar sustos.

Pera… “Deveria” causar medo?

Pois é. Eu gostei muito do primeiro jogo e de como ele estava sempre se modificando para confundir e assustar. Aqui, embora a mecânica utilizada seja a mesma, senti que os sustos e momentos de tensão não tiveram quase nada de impacto.

Talvez eu já esteja “vacinado”, mas é fato que os “gatilhos” que despertam certas ações são bem óbvios: um cano pingando, uma lâmpada piscando, uma porta semiaberta… Elementos que tendem a ser bem evidentes para qualquer um com alguma experiência no gênero.

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Óbvio que algo vai acontecer perto dessa porta semiaberta…

E o que sobra em um jogo de terror — que, nesse caso, é basicamente um walking simulator — quando o terror se perde? Pois é, não muita coisa. Layers of Fear 2 não é um jogo especialmente longo, mas quando ele não causa medo, inevitavelmente só consegue deixar o jogador entediado.

Há alguns fatores que podem explicar isso: para começar, você quase nunca está realmente em perigo aqui, e isso acaba quebrando o clima de terror, pois nada parece uma ameaça real, tudo é scriptado e calculado para te dar sustos metodicamente calculados. Não há perigo real.

É, eu sei que esperar “perigo real” de um game é forçar a barra, mas é preciso que você se sinta em perigo para ter medo, sentir adrenalina. Pense em como a Capcom introduziu o Mr. X no remake de Resident Evil 2: ele não vai matar a gente de verdade, mas sua presença causa tensão, aflição. O mesmo vale para Silent Hill, Amnesia e tantos outros jogos: a gente precisa se sentir em perigo para se importar.

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Aqui há muitos manequins. Mas, convenhamos, manequins não são tão assustadores assim…

Quando este elemento de tensão é subtraído da fórmula, a experiência fica parecendo um trem fantasma de parque de diversões, saca? Tudo ali é falso, e embora alguns momentos possam até te dar uns sustinhos, nada representa perigo real, não nos coloca em risco.

O jogo até tem algumas partes mais inspiradas — com luzes que devem ser evitadas e uma criatura abominável que nos persegue ali pelo Capítulo 2 –, mas são coisas pontuais, que não salvam o conjunto da obra. E, mesmo quando somos apanhados por esse monstro, não há uma cena de morte apavorante, nada que choque ou cause repulsa. A perseguição acaba sendo um exercício de repetição, no qual tentamos alguns caminhos até acertar.

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Uma das referências é ao clássico O Iluminado

Walking Simulators costumam compensar sua falta de gameplay com boas histórias, mas aqui nem isso acontece de fato. Há uma narrativa sendo desenvolvida, mas tudo é muito vago, subjetivo, aberto a interpretações — com direito inclusive a alguns questionamentos morais inseridos em puzzles e escolhas. Completam o pacote algumas boas sacadas de game design, bem como um punhado de referências a obras clássicas do terror.

Audiovisual

Layers of Fear 2 está longe de ser um jogo feio, mas o excesso de escuridão e as poucas cores presentes na grande maioria dos ambientes torna um pouco difícil apreciá-lo por suas qualidades visuais. Sem exagero: boa parte do jogo é literalmente em preto e branco, uma escolha estética que definitivamente não é lá das mais interessantes.

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Só pra você ver…

O áudio, por sua vez, faz um ótimo trabalho: gravado no formato binaural — como o do excelente Hellblade — ele realmente insere o jogador naquele universo. Este é um daqueles jogos que PRECISA ser jogado com um bom par de headphones para que a imersão seja completa.

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Que eu não estava exagerando

Quer dizer, mais ou menos completa, né, pois considerando que o jogo nunca dá medo de verdade, não é o áudio binaural que vai tornar a experiência realmente aterrorizante. Mas, ele cumpre seu papel. Ah, e temos menus e legendas em português brasileiro, o que sempre é uma boa notícia.

Conclusão

Eu gostei muito do primeiro Layers of Fear, e justamente por isso estava extremamente animado pelo segundo jogo. E, infelizmente, ele não correspondeu às minhas expectativas. Ele é um jogo de terror que não me deu medo praticamente em momento nenhum, de modo que o que restou foi a monotonia e a repetição de andar por corredores escuros e assistir sustos scriptados.

Talvez o problema nem seja com o jogo, mas comigo, que já estou meio calejado desse tipo de experiência. Já se vão mais de 3 anos desde que analisei o primeiro jogo. Quem sabe se eu fosse jogá-lo hoje, ele também acabasse não sendo tão impactante. Sei lá. Vou tentar rejogá-lo qualquer hora para ver como a experiência envelheceu.

Análise Arkade: Layers of Fear 2 é um jogo de terror que não dá medo

O fato é: Layers of Fear 2 não me deu medo, e isso é imperdoável em um jogo que traz medo (fear) no nome. Se quiser experimentar algo da série, ainda acho que o primeiro jogo oferece uma experiência superior. De qualquer modo, há opções melhores — tanto de walking simulators quanto de jogos de terror — disponíveis por aí.

Layers of Fear 2 está disponível para PC, Playstation 4 (versão analisada, rodando no PS4 Pro) e Xbox One.

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