Filosofia Arkade: RPGs — Uma inspiração para o crescimento individual

27 de junho de 2015
Autor: Diana Cabral

Filosofia Arkade: RPGs -- Uma inspiração para o crescimento individual

Games são fontes de informação e, dessa forma, contribuem para o desenvolvimento do conhecimento, quando apresentam ideias capazes de desenvolver a imaginação e a interpretação de argumentos e fatos — muitas vezes perto de nossa realidade –, o que gera a necessidade de discussão sobre muitos temas. Concorda? Então convido você a participar da inauguração da coluna Filosofia Arkade!

Qual a primeira ação que um jogador toma num RPG? Com algumas variáveis, muitos começam com o reconhecimento de seu personagem, suas necessidades e seus primeiros objetivos. O role playing game — ou jogo de personalização — muitas vezes inicia a história de vida de um personagem, sua criação. Você é aquele personagem e seus amigos online o conhecerão, conforme o desenvolvimento dos relacionamentos in game.

Mas que viagem é essa? Todos o verão como aquele elfo de cabelos verdes ou aquela anã com um machado épico, mas a personalidade dele(a) é totalmente sua, mesmo que você entre no role play (interpretação de um papel) e se mostre de uma forma que não existe em nenhum outro lugar.

Vamos compreender melhor: na internet, pela forma atual como ela promove a interação, podemos fingir, mentir e omitir de maneira muito fácil, mas mesmo aquela mentira ou dissimulação apresenta algo de nós e de como reagimos racionalmente (ou não) sobre fatos e interações com outras pessoas.

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Muitos atores falam sobre isso. Eles costumam ressaltar aspectos do personagem que combinam com a personalidade real deles. Ou seja, a interpretação muito dificilmente se desvincula do nosso “eu” real, pois acabamos usando, evidentemente, nosso próprio julgamento sobre as escolhas e atitudes que realizamos.

Com esse mesmo raciocínio, percebemos que não conseguimos ser totalmente quem somos na internet (pela limitação que ela ainda tem), se quisermos ser verdadeiros, e isso pode se tornar algo frustrante. Daí surge a necessidade (com raras exceções) de maior interação pessoal e de reconhecimento de outros jogadores. É nessa hora que você pergunta idade, onde mora, nome real, gostos pessoais etc.

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Party – World of Warcraft

Isso acontece de forma muito natural nos jogos massivos online (MMOGs — massive multiplayer online games). É tão natural que muitas vezes não se percebe a evidente similaridade que um RPG tem com a nossa vida fora da rede.

Estou pegando pesado? Pense no que já falamos: primeiro se conhece o personagem, depois suas necessidades. Da infância à fase adulta passamos pela jornada do autorreconhecimento, o que chamamos de formação da personalidade.

Ora, aqui podemos dizer que há algo similar: com o tempo de jogo é formada a personalidade de um personagem, a partir da interação com a comunidade e de suas atitudes in game. Isso definirá se aquele elfo ou aquela anã serão trolls, hardcore, for fun, líderes etc. Isso define algo de você.

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Armas em Guild Wars – concept art

O segundo passo é reconhecer as necessidades do personagem. Se você é de uma classe que usa energia não física — como mago, sacerdote… –, precisará administrar energia mental (ou espiritual, ou mana). Se você é de uma classe guerreira, vai precisar administrar energia física e assim por diante. Cada um terá um set de equipamentos e armas ideal para sua classe e usará habilidades únicas, que estabelecerão o seu papel num grupo (party).

Está percebendo algo? Dentro de um grupo, assumimos papeis. Você pode dar apoio, você pode ser quem defende, quem lidera ou ainda quem dá recursos para a manutenção daquele grupo. Na vida real, sua profissão ou sua atuação na família também define as habilidades (skills) que você deve desenvolver para atuar dentro de um grupo, para que todos atinjam um objetivo em comum.

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Árvore de habilidades de Ninja – Ragnarök Online

Podemos dizer então que, na vida real, construímos um personagem com certas skills para atingir objetivos? Claro que viver não é assim tão simples, mas não dá para descartar essas comparações. Até agora só falamos de grupos, o que isso tem a ver com o crescimento individual? Essa é a parte mais interessante. Não é uma regra, mas o que mais diverte num RPG? Faça uma pausa e pense. O que mais os jogadores buscam dentro do jogo? Fama, reconhecimento, expertise, riqueza, raridades? Se é o que querem, como conseguem isso? Upando, passando de level.

Isso é muito óbvio, não? Claro que começamos a jogar e temos que passar de level, assim podemos explorar locais mais difíceis, usar equipamentos melhores, conseguir novas habilidades, etc. Você não começa o jogo (em condições normais) overpower. Você começa como um noob sem equip, sem clã, sem contatos e mal conhece os mapas e os locais especiais (dungeons). O gamer vai construindo tudo isso, level após level, jogando e ganhando experiência. Esse é o crescimento individual.

Se aprendermos a ver os RPGs como uma amostra de crescimento do indivíduo, poderemos perceber o quanto é importante vivenciar o desenvolvimento do personagem que criamos, sem pular degraus, presenciando o crescimento passo a passo e vibrando com cada missão finalizada.

Filosofia Arkade: RPGs -- Uma inspiração para o crescimento individual

O que todo gamer pensa de outro que “comprou” um personagem pronto? Que isso é errado? Uma malandragem? Também, mas não é só isso. Se aquele jogador mal vivenciou o jogo e, sem paciência ou tempo para upar (a famosa desculpa do tempo…), resolveu catar um personagem já bem equipado e em nível alto, perdeu a maior graça de jogar: curtir o desenvolvimento do personagem.

Nada é tão empolgante quanto entrar num mapa novo e aprender novas estratégias de luta. Dropar itens e equipamentos melhores e descobrir novidades da história. Cometer erros e noobices na frente de seus amigos e ser ajudado por eles. Rir sozinho na frente do computador e saber que, mesmo representado por um monte de pixels, você vivenciou aquilo e terá boas recordações desses dias de jogo.

Muitos outros gêneros de game se inspiraram nos role playing games, tanto que falamos que tal jogo de luta ou de aventura tem elementos de um RPG e, com certeza, entre esses elementos — ou é o principal — está o desenvolvimento do personagem, de suas habilidades e forças.

A valorização do que construímos ocorre quando sabemos o que fizemos e suportamos para construir o que queríamos. Se seu personagem é resultado de boas horas de gameplay (dias, meses, anos…!), seu planejamento e suas ações foram eficazes. Um exemplo de que os objetivos que perseguimos são alcançados dessa mesma forma: planejando e agindo. Então não deixe de vibrar a cada nível alcançado — seja na vida ou em WoW — e nada de pensar no tempo que vai levar: nada na vida é melhor que subir de nível e ganhar xp.

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Agora é sua vez. Compartilhe com a gente a sua ideia e filosofe nos comentários, afinal, nunca é demais entrar no role play.

3 Respostas para “Filosofia Arkade: RPGs — Uma inspiração para o crescimento individual”

  • 27 de junho de 2015 às 15:17 -

    Leandro alves

  • “O que todo gamer pensa de outro que “comprou” um personagem pronto? Que isso é errado? Uma malandragem? Também, mas não é só isso. Se aquele jogador mal vivenciou o jogo e, sem paciência ou tempo para upar (a famosa desculpa do tempo…), resolveu catar um personagem já bem equipado e em nível alto, perdeu a maior graça de jogar: curtir o desenvolvimento do personagem.”

    é a mesma coisa se a pessoa pegar um arquivo de tal game de um amigo ou conhecido que esta mais adiantado no game para assim terminar mais rápido. a pessoa (no meu caso) acha que esta sendo errado, a sensação de “estou em tal level e perto do boss final, uhuu!!” não é a mesma. esse post sintetizou bem o que é jogar um RPG e a afeição que o gamer tem a seu personagem

    parabéns pela matéria bem escrita.

  • 28 de junho de 2015 às 00:18 -

    Deyvisoon Jean Batista

  • Mt bom…gostando mais desse site a cada dia que passa =]

    Adoro Dark Souls, então sei bem o que é isso…

  • 29 de junho de 2015 às 12:51 -

    Marcel

  • Achei muito boa a ideia de escrever sobre psicologia em jogos. Não sei se você conhece o trabalho do Edgard Damiani? Ele é muito bom também aborda o tema, com um enfoque mais baseado no Jung, mas gostei mesmo do texto aqui.
    Espero ler mais sobre o assunto, pois é algo que me interesso.

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