RetroArkade: Os bons tempos de F1 em Beyond the Limit para Sega CD

29 de Maio de 2016
Autor: Junior Candido

RetroArkade: Os bons tempos de F1 em Beyond the Limit para Sega CD

A Fórmula 1 viveu seus momentos de glória entre as décadas de 80 e 90, com lendas dividindo centímetros e segundos entre várias corridas históricas. Sorte a nossa que, os videogames já podiam contar um pouco dessa história, nos presenteando com o Beyond the Limit, clássico da F1 para o Sega CD que você vai conhecer ou relembrar agora.

As décadas de 80 e 90 foram mágicas para os fãs de Fórmula 1. Entre estes vinte anos, vimos de uma só vez Ayrton Senna, Nigel Mansell, Alain Prost, Niki Lauda, Michael Schumacher, Nelson Piquet, entre outras lendas. Isso sem mencionar coadjuvantes como Gehard Berger ou Jean Alesi, que mesmo num patamar abaixo, também eram talentosos e nos garantiam momentos impressionantes nas famosas corridas nos domingos de manhã.

Mas houve uma injustiça muito grande nesta época: os games, local ideal para contar estas histórias, dando a possibilidade de reviver estes momentos únicos da F1, ainda não contava com recursos para contar de maneira decente estas histórias. Um pouco da justiça foi feita com Formula 1 2013, da Codemasters, que trouxe vários destes pilotos para correr novamente, assim como vários mods do Grand Prix 4 para PC, que trazem até a identidade visual das transmissões de TV da época.

Só que, se formos procurar na biblioteca dos games, vamos encontrar uma jóia um tanto escondida, já que estamos falando de um lançamento para Sega CD, uma plataforma que, embora conhecida, nunca foi um sucesso extremo: as histórias da Fórmula 1, pelo menos em sua temporada de 1993, estão contadas no melhor estilo “Super Monaco GP” em Beyond the Limit.

Uma temporada com muita história para contar

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1993 foi um ano mágico para a Fórmula 1, apesar da Williams de Alain Prost ter praticamente passeado pelas pistas do mundo, consagrando o francês em seu quarto e último título mundial. A soberania do carro azul não diminuiu a grandeza da categoria, que estava fervendo com um Ayrton Senna incomodado por não contar mais com um carro competitivo na McLaren, mas mesmo assim fazendo das suas proezas. Tínhamos também um tal de Rubens Barrichello estreando, um Michael Schumacher começando a aparecer para o mundo e muitas corridas disputadas.

Foi aí que a Fuji Television, emissora que transmite a F1 no Japão entrou de parceira na Sega para desenvolver um game de corrida. Agora, além do clássico “chegue em primeiro lugar”, também tínhamos duas coisas muito interessantes para o projeto: imagens reais das transmissões de 1993 e a licença da FIA dos nomes reais dos pilotos e escuderias, trazendo mais realismo para o game. A plataforma? Ficou decido que o Sega CD seria o lar do jogo, já que o CD permitia essa até então, ousadia para a época. Vídeos, músicas e muito mais poderiam somar ao jogo, que nasceu para ser mais que um jogo de corrida desde o inicio.

Com isso, temos: uma temporada que pegou fogo, pilotos carismáticos, uma empresa com know-how em jogos de corrida como a Sega e o interesse da Fuji Television, em uma época em que o país parava tudo para assistir Senna e os outros. Tudo o que era necessário para um grande jogo.

E assim, em 1994, o Sega CD virou parte do grid de largada de uma nova era dos jogos de corrida. Os consoles não eram conhecidos por suas simulações e sim por jogos mais descompromissados. Os simuladores estavam mais focados no PC, como a série Gran Prix que é jogada até hoje por muitos fãs de velocidade.

O know-how de uma empresa que gosta de correr

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A Sega, em 1993, já tinha larga experiência com jogos de corrida. E velocidade, se a gente for citar o Sonic. Mas uma empresa que tinha em seu currículo Out Run, Super Monaco GP e estava com Daytona USA e Virtua Racing no forno não tinha como não saber colocar velocidade em um videogame. E o Ayrton Senna’s Super Monaco GP II foi o auge, na época, dos games de corrida, ao adicionar uma temporada de F1, ajustes de carro, além da presença do tricampeão, com dicas e conselhos, além da já conhecida participação direta de Senna no jogo.

Com este conhecimento todo, produzir Beyond the Limit não foi um problema. O esqueleto é o mesmo, o formato de jogo também, com a visão do cockpit do piloto e a ajuda dos recursos que o Sega CD oferecia, deixando-o visualmente melhor do que seu “antecessor”.

Porém o game dá um salto além, transformando-o, na medida do possível, em um simulador. A intenção não é dar ao jogador um carro veloz para ele simplesmente sair correndo por aí, embora exista o “free-run”, para quem quer conhecer o jogo ou mesmo se divertir em uma pista, correndo sem compromisso.

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Mas o modo Grand Prix é bem mais complexo. Logo no começo, quando você dá nome ao seu piloto, um teste na única pista não-oficial do jogo, a “da Sega”, vai avaliar sua volta e oferecer contratos de determinadas equipes. É claro que para quem começa e ainda não tem muita intimidade com o “volante”, vai receber propostas de equipes menores, como a Jordan, Minardi ou Lola. Mas os mais experientes, conseguem de primeira uma vaga nas três escuderias mais desejadas da época: McLaren, Williams e Ferrari.

Equipe escolhida, ainda não é hora de pisar fundo. Primeiro, o jogo irá te apresentar o dono do time, sua equipe e o piloto que fará companhia para você durante a temporada. Logo após, chega a hora da primeira etapa, África do Sul, em um procedimento comum á época: uma etapa de treinos livres, qualificação e corrida. Antes de correr, pneus devem ser escolhidos e o carro deve ser devidamente configurado, com dicas dos engenheiros antes das saídas. E só após conquistar a vaga — não tem como pular o qualify, ou o jogo não te coloca no grid — que finalmente chega a hora da corrida.

Correr em Beyond the Limit é mais simples do que parece, porém mais complexo do que deveria: enquanto o esquema “Super Monaco GP” de ser está lá, com a visão do cockpit e direção ágil, por outro lado, é necessário um bom tempo de prática para lidar com o “mole” volante, que ajuda a te mandar para o muro a todo momento. Porém, nada que um pouco de prática não ajude. A questão é que (até hoje) um monte de jogador não sabe que é possível guiar bem um carro de videogame usando o freio e na tentativa de ser um simulador, claramente que o game exige de você este tipo de domínio, o de domar o carro na pista e saber as horas certas de acelerar e frear, enquanto guia o F1. Mas ainda assim, a ausência de um mapa na tela atrapalha o jogo, fazendo com que nos direcionemos apenas pelas placas de setinhas, comuns na época.

Jogando as histórias de 1993

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Para um jogo que tinha como missão também contar a história da temporada de 1993 da F1, Beyond the Limit também somou o “modo 1993”, que funcionava de maneira semelhante aos Scenarios de International Superstar Soccer: cada pista tem uma história, que vira a sua missão de corrida. Alguns vídeos mostram um pouco, de maneira bem simples, os eventos da corrida e de acordo com a estrela (de 1 a 5), a dificuldade de se cumprir os objetivos vão variando.

Como exemplo, não poderia deixar de falar de uma das provas mais malucas da história da F1: a vitória de Ayrton Senna no GP Brasil deste ano. Para quem não lembra, vamos lá: Senna tinha um carro inferior, mas estava com sangue nos olhos aquele dia e após uma imensa confusão com chuva, o tri-campeão deu um show na pista molhada, ultrapassando Damon Hill e causando um tumulto ao cruzar a linha de chegada, com direito a invasão de pista e socorro de Safety-Car para resgatá-lo e levá-lo ao pódim. A vitória foi considerada uma das mais marcantes do piloto, pelo simples fato de contar com um carro inferior, pelas rápidas tomadas de decisão quanto a troca de pneus em momentos-chave da prova, pelo talento conhecido de Senna na chuva e também pela perseverança de alguém que já havia até sido penalizado minutos antes por manobra arriscada.

Enfim, o jogo te oferece essa mesma proposta. Sendo o “piloto 1” (explicaremos melhor sobre isso mais para a frente), você tem que ganhar a prova após a relargada causada pela confusão causada pela chuva. O objetivo, claro, era ter que reproduzir exatamente isso:

Claro que tentamos, mas…

… não somos o Senna. De qualquer forma, vários outros desafios estão disponíveis, em cada uma das pistas disponíveis no jogo.

Mas, cadê o Senna?

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Foi o que todos perguntaram, até porque o jogo foi lançado de maneira muito próxima ao trágico acidente que tirou a vida do tri-campeão, em primeiro de maio de 1994. Muito foi falado a respeito, como uma possível retirada ás pressas do piloto nos lançamentos ocidentais (que chegaram após o triste dia), de uma homenagem a Senna, com o capacete amarelo aparecendo no jogo (o capacete que caracteriza seu piloto é vermelho) e até algumas lendas urbanas, como uma que dizia que o game não tinha batidas constantes na tela, e as batidas nos pneus funcionavam como um “bate-e-volta”, por causa de uma decisão de respeitar a forma com a qual Senna, um ídolo no Japão, bateu com sua Williams no muro da curva Tamburello.

O game foi lançado no dia 23 de abril de 1994, no Japão, poucos dias antes do GP em Ímola. A ausência de Ayrton Senna no game é, na verdade, uma questão de escritório: todos os atletas precisam autorizar sua imagem quando exploradas, por exemplo, em um game. Aí, ou atleta por atleta de uma determinada competição autoriza ou não sua presença, ou uma organização responde por todos os atletas e os libera de uma só vez. Este segundo método é muito comum em games de futebol, quando falamos das ligas europeias.

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Mas Ayrton Senna, assim como Michael Jordan e algumas outras lendas do esporte, negociavam pessoalmente suas imagens. Funcionam como uma entidade a parte de todo o contexto do esporte e esta postura os ajudam a manter sempre seus nomes ligados a projetos de qualidade. Vale lembrar que com o próprio Senna, situação semelhante aconteceu recentemente, com o F1 2013 trazendo quase todos os pilotos lendários da categoria, enquanto o capacete amarelo apareceu com exclusividade em Gran Turismo 6.

Explicando isso, fica fácil saber as razões de não contarmos com o piloto brasileiro no jogo, embora seus feitos e registros estão lá: anos antes, Ayrton Senna’s Super Monaco GP 2, o jogo “particular” do piloto, havia sido lançado pela mesma Sega e apenas por isso, sua imagem só podia ser vinculada naquele jogo, lembrando que naquela época, era muito comum um jogo ser menos “descartável” do que os atuais, garantindo ainda muitos jogadores e vendas ainda em 1994.

Mas, é possível nas opções mudar o nome do “piloto” para o que você quiser, incluindo A. Senna.

Uma boa tentativa de enciclopédia

 

F1: Beyond the Limit, mais do que uma evolução técnica, significou também a apresentação de um novo conceito: o de apresentar uma história, oferecer dados e, nas devidas proporções, funcionar como uma enciclopédia, eternizando em forma de videogame uma temporada tão elétrica quanto foi a Fórmula 1 em 1993.

Sua jogabilidade madura, focada no domínio completo do possante e com a intenção de inserir o jogador no mundo da Fórmula 1, pode ser considerada um passo importante para a evolução do conceito de videogames, que já estavam deixando de ser “coisa de criança”, para dar importantes passos rumo a indústria que temos hoje.

O game também abriu portas para novas abordagens nos games de corrida, seja para os próximos jogos de Fórmula 1 que viriam, quanto a uma futura e importante onda de simuladores que pouco a pouco, foram mostrando que o realismo era tão divertido quanto a fantasia, incluindo na hora de correr.

2 Respostas para “RetroArkade: Os bons tempos de F1 em Beyond the Limit para Sega CD”

  • 31 de Maio de 2016 às 21:12 -

    Ivan

  • saudade de quando piloto fazia diferença, pena que a morte levou senna… e deixou o tal de rubens.

  • 22 de agosto de 2016 às 21:10 -

    Luiz

  • tem mapa sim, seu toupeira… só apertar start e um dos botões A B C e vc pode ver a pista toda. 

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