Análise Arkade: Warcraft III: Reforged e a fórmula do fracasso

11 de fevereiro de 2020
Autor: Gilson Peres
Análise Arkade: Warcraft III: Reforged e a fórmula do fracasso

Que Warcraft é a franquia mais popular e lucrativa da Blizzard ninguém duvida. Entretanto, por muito tempo, essa marca se manteve imersa no expansivo universo do MMO World of Warcraft, deixando de lado o gênero que criou esta saga: o RTS (real time strategy, aka estratégia em tempo real). Mas, em 2018, isso pareceu mudar com o anúncio glorioso do retorno de Warcraft III num remake refeito do zero!

Assim Warcraft III: Reforged chegou na boca do povo. Entretanto, o projeto que tinha tudo para ser um dos melhores jogos do ano em seu gênero acabou sendo considerado por muitos o pior jogo da franquia, e bateu recorde de “negativações” no Metacritic.

Pois bem, salvo os exageros criados pelo ódio, a “reforja” de Warcraft III não foi exatamente uma reforja. Além disso, não cumpre basicamente nenhuma promessa feita, e ainda consegue piorar elementos que eram muito elogiados no jogo de 2002. Vamos falar disso tudo nessa análise completa.

Análise Arkade: Warcraft III: Reforged e a fórmula do fracasso

A história antes de World of Warcraft

Warcraft III: Reforged tinha uma responsabilidade muito grande quando estava em pré-produção: refazer do zero um dos jogos mais memoráveis de RTS da indústria de games não é algo fácil. Além disso, seria preciso lidar também com toda a fama que o MMO de Warcraft possui.

Pensando nisso, os desenvolvedores haviam anunciado que os arcos narrativos de Warcraft III seriam repensados para conversar melhor com a história de World of Warcraft. Algo muito esperado, visto que a história de Warcraft III influenciou muito WoW. Ela lida com diversos personagens que até hoje são muito relevantes em World of Warcraft, como Sylvanas, Thrall, Arthas, Illidan, Sargeras, a Legião Ardente e muito mais.

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Entretanto, essas “mudanças” de enredo foram absurdamente sutis e muito mais focadas nos mapas mostrados durante as telas de carregamento. Agora que o mundo de Azeroth é totalmente conhecido, fica muito mais fácil entender o percurso dos personagens de Warcraft III. Mas a Blizzard não mudou nada além disso.

Para o bem e para o mal, a história da campanha de Warcraft III: Reforged é um dos seus pontos mais altos. Mas nenhuma glória daqui é decorrente à nova versão do jogo. Na verdade, é por conta da história original ser realmente muito boa que Reforged consegue ainda ser jogável. E o problema disso vem da fórmula do fracasso citada no título: propaganda enganosa.

Muito além de “promessas não cumpridas”

Se você for na página de Warcraft III: Reforged na Battle.net, ao menos até a data na qual este texto foi escrito, você encontrará a seguinte descrição para o jogo:

Warcraft III: Reforged é uma fantástica versão reimaginada do revolucionário jogo de estratégia em tempo real que é o cenário das histórias mais épicas de Azeroth. É um remake no sentido mais exato da palavra, com uma minuciosa reformulação visual, uma série atualizada de recursos sociais e de pareamento e muito mais“.

Fiz questão de negritar algumas palavras-chave deste texto, por serem de crucial importância para a crítica que será feita agora. A verdade é que Warcraft III: Reforged é uma remasterização muito mais do que é um remake. Arrisco dizer de forma categórica que não, ele não é um remake e passa muito longe disso.

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Não me entendam mal, pelas imagens do jogo disponibilizadas é possível ver que ele recebeu sim uma atualização gráfica elogiável. Entretanto, não o bastante para ser considerado um remake no sentido mais exato da palavra. Basta pegarmos o exemplo de alguns remakes dos últimos anos de muito sucesso que isso ficará claro.

Resident Evil 2 Remake é o primeiro que nos vem a mente, sem dúvidas. Baseado no jogo de terror de 1998, o título de 2019 foi refeito do zero: nova jogabilidade, atualizações gráficas gritantes e atualizações da narrativa são algumas das suas novidades. Antes dele tivemos também a brilhante Crash N’Sane Trilogy. Neste, a Vicarious Visions e suas parceiras refizeram do zero os três primeiros games da franquia de Bandicoot. Vale lembrar que logo depois fizeram o mesmo com Spyro. E vale lembrar também que ambas as franquias (Crash e Spyro) são da Activision Blizzard.

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Mesmo remakes que não necessariamente tentam atualizar aspectos mecânicos de um jogo podem ter sucesso. É o caso do Shadow of the Colossus do PS4, por exemplo. O visual foi totalmente atualizado, mas, mecanicamente, o jogo se mantém “obtuso” como era no PS2. E isso é ótimo, pois o gameplay, o feeling do jogo, são partes fundamentais da experiência.

Os principais problemas do “remake”

Seguindo o raciocínio acima, é possível perceber que Warcraft III: Reforged, ao contrário do que toda a sua escassa publicidade diz, não é um remake. Remakes são jogos que retornam com a ideia de um game datado e aplicam em um jogo pensado para os dias atuais. Isso pode ser visto em todos os exemplos supracitados, mas não em Reforged.

Warcraft III: Reforged pega praticamente cada linha de programação de Warcraft III clássico e usa sem qualquer alteração. Além do layout de menus básicos, o jogo só recebeu uma “capa” de gráficos mais atualizados. Isso caracteriza uma remasterização e não um remake. Digo isso pois, como alguém que jogou por anos o Warcraft III clássico, encontrei exatamente os mesmos bugs e problemas de controle de unidades em Reforged.

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Isso é vergonhoso não só pela propaganda errônea, mas também pelo fato da Blizzard possuir um outro RTS de sucesso. Este já havia resolvido praticamente todos os problemas encontrados em Reforged: estou falando de Starcraft 2. Um bom exemplo disso é a movimentação de unidades. Reforged possui exatamente os mesmos problemas de AI que o clássico, ao invés de pegar o que Stacraft 2 fez dr bom para melhorar a experiência.

Melhorias visuais não tão boas assim

Deixando claro então que o jogo parece mais um remaster do que um remake, vamos analisar a sua remasterização. Infelizmente, aqui temos muitos problemas também. A começar pelo layout dos menus durante as partidas. Novamente temos uma contradição aos exemplos de Starcraft Remaster ou até de Starcraft 2. Isso porque os quadros de recursos de Warcraft III: Reforged não acompanham a resolução do jogo.

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Assim, mesmo que o jogo tenha sido atualizado para 1280×1365 por exemplo, seus menus continuam em 800×600. Isso faz com que seu layout fique desnecessariamente grande e totalmente desconexo com o resto do jogo. Além disso, só o fato do layout “acabar” antes do final da tela já é bem feio, e visualmente incômodo.

As texturas também não são de qualidade muito atual, e parecem piores do que as de Starcraft 2, um jogo que originalmente fora lançado em 2010. Como se não bastassem todos esses problemas, as legendas (por conta dos problemas de resolução) surgem muito grandes na tela e ocupam quase toda a visibilidade, atrapalhando bastante o gameplay.

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Para você não achar que eu estou exagerando

Warcraft III: Reforged e a morte do multiplayer

O sistema online de Warcraft III clássico foi o que fez o jogo continuar sendo jogado até os dias de hoje. Seja pelo multiplayer divertidíssimo do modo base do jogo como pela criação de mapas customizados. Inclusive, mapas estes que tornaram populares gêneros de game próprios, como os Tower Defense e os MOBAs.

Claro que a Blizzard sustentar os servidores do game por mais de uma década merece menção. Mas não é exagero dizer que foi a criatividade dos jogadores que fez Warcraft III permanecer vivo por tanto tempo. Em Reforged, tudo isso caiu por terra por dois motivos: direitos autorais e problemas de conexão.

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Mesmo em partidas 1 X 1 é muito difícil manter-se online sem problemas numa partida base de Warcraft III: Reforged. Fora isso, diversas vezes o jogo simplesmente acabou no meio da partida, comigo sendo jogado para o menu de “derrota” juntamente com o oponente. Isso é especialmente bizarro se lembrarmos que a plataforma da Blizzard se mostra bastante estável para jogadores de World of Warcraft, Overwatch e outros títulos online da empresa.

Como se não bastasse, temos a polêmica envolvendo os mapas. Em Reforged, todo mapa customizado criado por jogadores é, por direito, da própria Blizzard. Isso dá a ela direito de reproduzir o conteúdo do mapa, removê-lo ou controlá-lo da forma que ela quiser, sem dever nada ao real criador do mapa.

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Este “detalhe” é problemático justamente por ir na direção contrária a de “incentivar” a comunidade a manter o jogo ativo. Afinal, quem vai querer se dedicar a criar mapas de graça só para, no final, a empresa ter o direito sobre tudo, e decidir o que quer ou não utilizar?

Não tão reforjado assim…

Warcraft III ainda é Warcraft III em algum lugar de Reforged. Isso talvez seja a única salvação do jogo. Pois eu poderia ficar muito mais tempo aqui esmiuçando cada um dos problemas técnicos, legais e até morais envolvidos no lançamento de Reforged. Mas podemos resumir isso tudo como algo que já vimos outras tantas vezes em jogos como Watch Dogs, No Man’s Sky, Fallout 76, Anthem e tantos outros: promessas que foram feitas, mas não foram cumpridas.

Sendo justo: alguns até conseguiram se redimir depois — No Man’s Sky é o melhor exemplo, e Anthem também deve receber uma repaginada total em breve –, mas é fato que a primeira impressão deles não foi positiva, justamente porque as expectativas criadas não foram alcançadas por um motivo muito simples: as produtoras prometeram uma coisa, e entregaram outra.

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O descaso que algumas empresas têm com alguns lançamentos, o distanciamento perante o público-alvo, as promessas exageradas e até as mentiras deslavadas são muito sintomáticas de uma indústria que, vez ou outra, esquece que suas origens estão lá na garagem de desenvolvedores que só queriam fazer bons jogos. Warcraft III: Reforged é a nova vítima dessa indústria “sem alma”… mas, infelizmente, não deve ser a última.

Warcraft III: Reforged foi lançado em 28 de janeiro de 2020 e está disponível para PC através da Battle.net.

Uma resposta para “Análise Arkade: Warcraft III: Reforged e a fórmula do fracasso”

  • 12 de fevereiro de 2020 às 12:26 -

    Leo Garzedim jr

  • DETALHE: Mesmo se você tiver o WCIII antigo, original, bonitinho, e tentar jogá-lo, a Battle.net não deixa mais. Apenas o Refoged.

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